16 Set, 2026

Meta-análise associa poluição do ar a maior risco de comportamentos suicidas

Uma meta-análise de estudos publicada no Journal of Epidemiology & Community Health encontrou associações entre a exposição a poluentes atmosféricos, sobretudo partículas finas e dióxido de azoto, e um maior risco de pensamentos, tentativas e morte por suicídio, defendendo maior atenção aos fatores ambientais na prevenção.

<i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> Meta-análise associa poluição do ar a maior risco de comportamentos suicidas

A exposição a poluentes atmosféricos, sobretudo a partículas finas e ao dióxido de azoto, está associada a um maior risco de pensamentos suicidas e de morte por suicídio, segundo uma meta-análise publicada hoje no Journal of Epidemiology & Community Health.

Os resultados do estudo, realizado pelo Centro de Saúde Pública da Universidade Queen’s de Belfast, no Reino Unido, indicam que os fatores ambientais, em particular as exposições ambientais, devem ser considerados nas estratégias de prevenção do suicídio como potenciais fatores de risco.

Os autores recomendam, por isso, a integração da proteção ambiental e do planeamento urbano nas estratégias de prevenção do suicídio.

O trabalho recorda que mais de 720 mil pessoas morrem todos os anos por suicídio em todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a desenvolver um Plano de Ação em Saúde Mental com o objetivo de reduzir este problema de saúde pública global em pelo menos um terço entre 2013 e 2030.

O efeito da exposição a fatores ambientais sobre perturbações mentais como a depressão e a ansiedade tem sido amplamente estudado, mas a sua relação com o risco de suicídio é menos conhecida.

Para analisar esta questão, os investigadores analisaram a evidência disponível sobre poluição ambiental, sonora, luminosa e da água, tendo também em conta fatores sociodemográficos, como o sexo e os rendimentos, que poderiam influenciar o risco de morte por suicídio e os comportamentos suicidas.

Depois de pesquisarem exaustivamente bases de dados científicas e estudos publicados em inglês entre janeiro de 2010 e abril de 2024, os autores selecionaram 45 estudos: 38 sobre poluição ambiental, três sobre poluição sonora e um sobre poluição luminosa. Destes, 29 foram incluídos numa meta-análise e 16 numa revisão.

A análise mostrou que a exposição a curto prazo, inferior a seis meses, a partículas finas PM2,5, com base em 13 estudos, e a PM10, com base em sete estudos, bem como a exposição a longo prazo, superior a seis meses, a PM2,5, em seis estudos, e a dióxido de azoto (NO2), em sete estudos, estavam associadas de forma “estatisticamente significativa” ao risco de morte por suicídio, tentativas de suicídio e pensamentos suicidas.

A revisão encontrou ainda associações com outros poluentes atmosféricos, como o dióxido de enxofre (SO2), o ozono (O3) e o monóxido de carbono (CO), e com a poluição sonora.

O número limitado de estudos disponíveis não permitiu avaliar os efeitos da poluição da água e da poluição luminosa.

A análise encontrou também associações entre o risco de morte por suicídio ou de pensamentos suicidas e fatores sociodemográficos.

Os autores apontam como possível explicação para a associação entre poluição e comportamentos suicidas o facto de alguns poluentes atmosféricos, incluindo PM2,5, PM10, NO2, SO2 e O3, e de a água contaminada com substâncias como arsénio, chumbo, lítio ou nitrato poderem provocar inflamação crónica e danos no sistema nervoso, afetando a função cerebral, o estado de ânimo e a capacidade de resistência ao stress.

Os investigadores recordam também que existem evidências de que a poluição sonora influencia algumas perturbações de saúde mental, como a ansiedade e a depressão, e que a exposição ao ruído ambiental, nomeadamente o tráfego noturno ou ferroviário, pode gerar stress crónico e alterar o relógio biológico.

Embora reconheçam várias limitações dos resultados, entre elas o reduzido número de estudos disponíveis para cada resultado analisado, os autores concluem que os dados “colocam em evidência a importância crucial de reconhecer as exposições ambientais como fatores de risco modificáveis nos esforços de prevenção do suicídio”.

“A integração da saúde ambiental nas políticas de saúde mental, através da colaboração intersetorial, das estratégias de redução da poluição e das intervenções de saúde pública poderia desempenhar um papel vital na redução do risco de suicídio e na melhoria do bem-estar mental geral da população”, escrevem os autores.

LUSA/SO

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