21 Mai, 2021

Mascne. A nova forma de acne provocada pela pandemia

O dermatologista Vasco Coelho Macias explica como se pode prevenir e tratar esta nova forma de acne trazida pela pandemia: a mascne.

A pandemia de covid-19 e a consequente necessidade de utilização generalizada e diária de máscara provocou o aparecimento e agravamento de lesões de acne localizadas nas áreas da face cobertas por este equipamento de proteção individual.

A acne é uma doença cutânea inflamatória, multifatorial, descrita pela primeira vez no século VI d.C. Afeta cerca de 85% dos jovens entre os 12 e os 24 anos (pico de incidência), mas diversos estudos demonstram que os adultos com mais de 25 anos também são afetados, particularmente as mulheres (estima-se que 40% das mulheres adultas tenham acne).

A explicação é de Vasco Coelho Macias, médico especializado em Dermatologia Cosmética, que acrescenta que “além de uma possível predisposição genética, na fisiopatologia da acne participam ainda a hipersecreção sebácea, a hiperqueratose folicular, a colonização bacteriana (Cutibacterium acne), a resposta inflamatória do sistema imunitário e ainda diversos fatores hormonais”.

Do ponto de vista clínico, avança o especialista, “habitualmente, as lesões de acne estão localizadas nos locais de maior concentração das glândulas sebáceas: face e porção superior do tronco”.

Uma variante mecânica da acne

Desde o surgimento da pandemia de covid-19, e a consequente necessidade de utilização diária de máscara, verificou-se um agravamento das lesões de acne localizadas nas áreas da face cobertas pela máscara.

Um estudo revela que 59,6% dos indivíduos que utilizam máscara regularmente sofreram aparecimento ou agravamento de acne, diz Vasco Coelho Macias, sublinhando que a elevada prevalência desta situação levou à designação de uma nova forma de acne – a mascne. “Esta forma de acne corresponde a uma variante mecânica da doença (anteriormente já estavam descritas outras formas de acne mecânica, nomeadamente associadas ao uso de capacetes ou outros materiais de proteção pessoal)”, explica.

De acordo com o dermatologista, “especula-se que a fisiopatologia da mascne esteja diretamente relacionada com a alteração do microclima cutâneo: é sabido que o aumento da temperatura pode afetar a secreção sebácea e que a humidade e a transpiração excessiva, além de aumentarem o esqualeno na pele, provocam ainda edema dos queratinócitos favorecendo desta forma a obstrução folicular”. Está ainda demonstrado, avança, que “a utilização de máscara induz desidratação, aumento da perda transepidérmica de água e aumento do pH cutâneo, fatores que promovem a proliferação de Cutibacterium acnes. A estes fatores somam-se ainda a pressão e fricção que a máscara exerce diretamente sobre a superfície cutânea”.

A importância do diagnóstico diferencial

Questionado sobre como se distingue a mascne de outras patologias dermatológicas como a dermatite de contacto (pelo uso de máscara), por exemplo, o especialista refere que “nos diagnósticos diferenciais da mascne destacam-se a dermatite periorificial (dermatose inflamatória caracterizada pelo aparecimento de múltiplas pápulas milimétricas e micropústulas, pruriginosas, agrupadas nas regiões perioral, periocular e perinasal, sem comedões), a dermatite seborreica (dermatose cronico-recidivante caracterizada pelo aparecimento de manchas eritematosas cobertas por escama amarelada, gordurosa, habitualmente assintomáticas, distribuídas pelas áreas seborreicas da face: supracílios, sulcos nasogenianos, área da barba e couro cabeludo), e a rosácea (dermatose cronico-recidivante que afeta os indivíduos com fotótipos baixos e que, habitualmente, envolve porção central da face, constituída eritema persistente, flushing e telangiectasias – rosácea eritematotelangiectásica, por vezes com pápulas eritematosas e micropústulas dispersas pela face – rosácea inflamatória)”.

No que respeita ao eczema de contacto provocado pela máscara “distingue-se pelo aparecimento de manchas eritematosas, intensamente pruriginosas com superfície finamente descamativa”, esclarece.

Duas formas de acne, o mesmo tratamento

Em termos de terapêutica, Vasco Coelho Macias adianta que “o tratamento da mascne baseia-se nos mesmos princípios que o tratamento da acne em geral”.

No entanto, adverte, “deve ser tido em conta o potencial irritativo de alguns fármacos como os retinoides e hidroxiácidos, que poderão agravar o desconforto cutâneo e, como tal, poderão ser mal tolerados”.

Em relação aos cuidados específicos a ter com a máscara, “é de salientar que as fibras naturais absorvem a humidade, mas favorecem a acumulação de fluídos, aumentando o desconforto e a sensação de pegajosidade. As máscaras com têxteis biofuncionais sintéticos têm um alto coeficiente de evaporação e são resistentes à água, evitando assim a propagação do biofluído”, especifica o médico, acrescentando ainda, a este respeito, que “as cores claras dispersam o calor limitando assim o aumento de temperatura local. Têxteis que incorporam prata, óxido de zinco e óxido de cobre, além de possuírem propriedades biocidas de amplo espectro poderão contribuir para a redução das resistências bacterianas aos antibióticos no tratamento da acne”.

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