Lápis Azul: O futuro passou

Rui Cernadas

Rui Cernadas

Competência em Medicina Farmacêutica da Ordem dos Médicos

Diz-se que a prática da nova Medicina é mais complexa, mais interdisciplinar e também mais multiprofissional. Provavelmente tudo isto será verdade, mas também vai ser mais caro e nem precisaria de evocar o impacto dos custos das tecnologias nos processos assistências, sejam diagnósticos, terapêuticos ou de monitorização das doenças crónicas.

E o espantoso aumento da esperança média de vida, a persistir, vai ainda acentuar mais a necessidade de compreender, antecipar e resolver a sustentabilidade financeira dos sistemas públicos de saúde, mesmo em cenários crescentes de custos suportados por doentes e cidadãos.

Os últimos anos, por exemplo, no tocante ao registo de novos medicamentos pela Food and Drug Administration (FDA), elucida a minha preocupação e ao mesmo tempo, a minha admiração: 22 em 2016, 46 em 2017 e 59 em 2018!

Afinal e ao invés do que se temia, a investigação farmacêutica e clínica não estagnou, nem entrou em hibernação.

Mas na verdade, num futuro próximo, o sector do medicamento sofrerá novas mudanças irreversíveis na linha e era da evolução tecnológica e científica, ou se preferirem, como resultado do êxito tecnológico e do aparecimento do big data e da definição de novos esquemas de desenvolvimento da inovação, seja a farmacológica, seja a dos dispositivos médicos.

A farmacogenética e a proliferação ou banalização dos testes genéticos pode prevenir ou prever reacções adversas a medicamentos ou dar a conhecer ou personalizar a dose que a cada doente deve ser administrada. Mas tais testes deverão ser feitos antes obviamente da prescrição médica…

A questão é a de que conhecemos muitos dos mecanismos que, no passado recente, produziram pressões inesperadas sobre as dimensões clínica, social e económica da saúde. Refiro-me por exemplo à abordagem do VIH, ou à necessidade de avaliar e tratar doenças raras, ou até ao que foi a introdução dos antivíricos para a hepatite C. Mais, claramente mais do que vai acontecendo em torno das novas vacinas.

Segue-se todo o impacto e promoção da impressão 3D e do conceito novo do lema “produzir de acordo com as necessidades e não com o estimado”.

Esta tecnologia já de hoje vai assentar em dois pilares fundamentais, a nanotecnologia e o uso da Internet, dizendo por outras palavras, em vez de ser o medicamento a viajar pelo mundo, é a informação que vai de viagem.

É de crer que já nos próximos anos, os medicamentos sejam maioritariamente produzidos em 3D.

Os custos e dificuldades, as controvérsias e a ética são factores que não só limitam ou atentam contra os ensaios clínicos, como os deslocam para novos mundos e países, mas confirmam uma outra “inovação”. Será a recentragem ou a reutilização sobre os fármacos já aprovados, buscando novas indicações, formulações ou aproveitamentos, ou sobre outros tantos ou mais que, entretanto foram abandonados durante o seu desenvolvimento, sob qualquer argumento ou justificação.

Isso já aconteceu, aliás e no passado com a finaste rida, com a talidomida ou com o sildenafil, para citar apenas alguns êxitos desta estratégia.

É lamentável que o poder político, aquele a quem cabe a decisão sobre os sistemas públicos de saúde, não compreenda ou não repare no que se passa no mundo.

A gestão da saúde não pode ser deixada a pessoas que usam vendas, anteriores ou laterais, estreitando-lhes as “vistinhas” e desgastando neurónios.

Ou pior, em obediências estranhas, indesejáveis e distantes da realidade dos países e das sociedades que deveriam servir e proteger.

O futuro passou assim, também para o SNS…

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