8 Abr, 2022

Já há 1,2 milhões de portugueses sem médico de família, o valor mais alto em oito anos

A região de Lisboa é a mais afetada. Este ano deve atingir-se o pico de reformas entre os médicos de família, sendo que os recém-especialistas não compensam estas saídas.

Um milhão e 235 mil portugueses não tinham médico de família atribuído no final do mês de março. Trata-se do valor mais elevado desde 2014, sublinha o jornal i. Destes, mais de 890 mil estão na região de Lisboa e Vale do Tejo, segundo dados do Portal da Transparência do Ministério da Saúde.

O número de utentes a descoberto, isto é, sem médico, tem vindo a aumentar paulatinamente desde o final de 2019, tendo-se agravado com a pandemia. No final de 2021, 1,1 milhões de pessoas estavam nesta situação em Portugal. Agora somam-se mais 135 mil pessoas. Não se atingia um valor tão elevado desde 2014, último ano do resgate da troika, em que registavam 1,4 milhões de pessoas sem médico.

Promessa de longa data dos executivos do PS, o objetivo de atribuir médico de família a todos os portugueses nunca foi atingido e está cada vez mais distante. O máximo que o Ministério de Marta Temido conseguiu foi reduzir o número de população a descoberto a 641 mil em setembro de 2019. Em dois anos e meio, esse número quase duplicou.

É a região de Lisboa e Vale do Tejo que concentra mais utentes sem médico. Foi, aliás, responsável pela grande maioria do aumento desde o final do ano passado. Vejamos: no final de 2021, havia nesta região 783 mil pessoas sem médico, agora são 890 mil, ou seja, mais 103 mil, de entre o aumento que foi de 135 mil pessoas em apenas três meses. Mais de 20% dos habitantes desta região não tem clínico atribuído, o pior rácio a nível nacional.

Em setembro, numa entrevista ao SaúdeOnline, o secretário de estado da Saúde Lacerda Sales garantia que o governo mantinha “a ambição” de cumprir o desígnio de atribuir médico de família a todos e justificava o deteriorar da situação com um aumento de inscrições no SNS e com “heterogeneidade do território”.

A verdade é que o problema é mais vasto e explica-se também pelo aumento das aposentações de médicos de família, que devem atingir o pico em 2022 – quase 1100 clínicos. “Este pico de reformas não é compensado pelo número de especialistas que vamos formando porque esses especialistas não ficam todos no SNS”, diz, ao SaúdeOnline, Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

Numa altura em que faltam 850 médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar para responder às necessidades da população residente em Portugal, os concursos para colocação de recém-especialistas não conseguem compensar as reformas, uma vez que há sempre uma parte muito significativa de lugares que ficam sem candidatos – no último, foram 30%. Assim, dos 500 médicos que deveriam entrar para o sistema todos os anos, só 350 são efetivamente retidos. “Nunca tivemos uma taxa de retenção tão baixa, não é coincidência”, diz o médico de Évora, ligando este fenómeno à pandemia e à forma como, diz, os médicos foram “maltratados”.

“Os médicos devem poder concorrer às vagas disponíveis e não só àquelas que o governo decidiu abrir. Se os médicos não podem ir para a vaga que ambicionam, acabam por sair do SNS e até do país”, diz ao SaúdeOnline, o coordenador do grupo para a reforma dos Cuidados de Saúde Primários, João Rodrigues, que defende ainda que ainda a revisão  da carreira de Medicina Geral e Familiar, de modo a “agilizar a progressão técnico-científica, tornando a carreira mais atrativa” e uma maior regularidade nos concursos de progressão.

SO

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