4 Jun, 2021

Investigação clínica. “Os recursos vão ser sempre limitados mas, com incentivos, só se pode evoluir no sentido favorável”

O método científico por "vezes vai sendo esquecido, uma vez que os profissionais estão assoberbados pela rotina", diz, ao SaúdeOnline, a Diretora da Unidade de Investigação Biomédica da Universidade do Porto. Mariana Monteiro destaca a importância do Prémio MSD de Investigação em Saúde, cujo prazo de candidaturas termina a 6 de junho.

Que expectativas tem em relação a mais uma edição do Prémio MSD Investigação em Saúde? Tem sido surpreendida pelos projetos apresentados nos últimas edições?

Nas duas primeiras edições, constatámos uma enorme adesão dos jovens médicos portugueses ao Prémio MSD de Investigação em Saúde. Na primeira edição, contabilizámos cerca de uma centena de candidaturas e na segunda edição mais do que uma centena. Este crescendo tem existido porque, de facto, o Prémio vem ao encontro da vontade dos jovens de contribuírem para o progresso da medicina.

Uma vez que estamos numa fase de mudanças do ponto de vista do conhecimento, das estruturas de prestação de serviços e até mesmo dos sistemas de saúde, a nossa expetativa para esta 3ª edição é de que tenha uma adesão ainda maior do que aquela que observámos em anos anteriores. Por outro lado, um outro aspeto que nos agrada particularmente é o facto de que temos tido candidaturas de áreas muito diversas, com uma grande distribuição de temas, o que mostra, uma vez mais, o entusiasmo e a vontade dos jovens médicos de todos os domínios em contribuir para a evolução da ciência.

 

“Temos recebido candidaturas de áreas bastante distintas, inclusive muitos projetos relacionados com os cuidados de saúde primários”

 

No que diz respeito aos projetos apresentados nas últimas edições, tenho sido surpreendida em três aspetos. Em primeiro lugar, pelo número de candidaturas. Desde a 1.ª Edição que este número tem surpreendido o júri e continua a surpreender em todas as edições. Em segundo lugar, pela diversidade das temáticas que se propõem estudar. Temos recebido candidaturas de áreas bastante distintas, inclusive muitos projetos relacionados com os cuidados de saúde primários. Em terceiro lugar, pela diferenciação e qualidade científica dos projetos. Nota-se cada vez mais, embora haja projetos muito heterogéneos em termos de qualidade, uma proporção considerável de projetos que têm um elevado nível científico e que são um grande desafio para o júri, uma vez que são difíceis de avaliar, tornando a tarefa de escolher um vencedor particularmente complicada.

 

“Nota-se cada vez mais, embora haja projetos muito heterogéneos em termos de qualidade, uma proporção considerável de projetos que têm um elevado nível científico2

Que avaliação faz da investigação clínica que se faz em Portugal? Falta investimento nesta área?

Estamos a atravessar uma fase de transição, sendo notória a implementação crescente e de uma maneira transversal da cultura de investigação médica. A medicina é uma ciência humanista, no fundo, é a mais científica das humanidades e a mais humana das ciências porque é focada no ser humano, mas na realidade é necessário não esquecer que em cada um ato médico estamos a aplicar o método científico que nos dá a possibilidade de prever com razoável segurança a probabilidade de sucesso. No entanto, o método científico por vezes vai sendo esquecido no dia-a-dia da clínica, uma vez que os profissionais estão muitas vezes assoberbados pela rotina e pela necessidade de dar resposta a um número muito elevado de pedidos. Neste sentido, o que nos falta é não deixar esmorecer a cultura científica na clínica médica portuguesa de uma maneira transversal.

 

“O que nos falta é não deixar esmorecer a cultura científica na clínica médica portuguesa”

 

Relativamente aos apoios financeiros … estes nunca são suficientes. Do ponto de vista da investigação em saúde, os recursos vão ser sempre limitados, mas se a cultura científica for incentivada e se forem conferidos mais apoios à semelhança do exemplo do Prémio MSD de Investigação em Saúde, a investigação médica em Portugal só pode evoluir no sentido favorável, como é inegável que tenha evoluído nas últimas décadas.

Neste contexto, que apelo gostaria de deixar às equipas médicas em Portugal no sentido de se candidatarem a este prémio?

Em primeiro lugar, gostaria de aconselhar as equipas de internos e orientadores de formação a reservarem parte do seu tempo para estruturar, planear, para colocar em papel as ideias de projetos a desenvolver e a submeterem a uma candidatura a este Prémio. Embora, frequentemente uma candidatura não seja bem-sucedida na primeira tentativa, devem ser resilientes e continuar a tentar aproveitando todas as oportunidades que surgirem.

Muitas vezes as apreciações/críticas que recebem podem ser utilizadas para melhorar os projetos e facilitando a aprovação futura. Deste modo, todos podemos ter um papel ativo no progresso da ciência e da medicina em Portugal. Estamos a falar do projeto e do conhecimento per si, mas também do nosso desempenho na prestação de cuidados e na organização de serviços, uma vez que a aquisição de competências de investigação também se reflete na melhoria do nível de cuidados médicos prestados. No fundo, todas as vertentes estão viradas para o nosso objetivo final que é o de melhorar o estado da saúde humana.

SO

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