4 Mar, 2019

“Horários desumanos” e salários baixos levam médicos a sair do SNS

Propostas chegam do estrangeiro e dos grupos privados e podem levar muitos médicos a deixar o SNS. Bastonário e sindicatos criticam falta de investimento da tutela.

De Espanha à Irlanda, passando pela Austrália. São vários os países interessados em contratar médicos portugueses. Ordem e sindicatos estão preocupados com a falta de condições de trabalho oferecidas em Portugal, o que, somado aos baixos salários, pode levar muitos profissionais a optar pela emigração, deixando o SNS com uma profunda carência de especialistas.

O recrutamento de médicos portugueses não é um fenómeno recente mas a situação parece estar a agravar-se com o aumento da desigualdade de condições oferecidas em Portugal em comparação com outros países. E não é preciso ir muito longe para encontrar propostas aliciantes. Na galiza, em Espanha, o governo regional está a recrutar jovens pediatras e médicos de família portugueses, pagando-lhe 61 500 euros anuais – mais do dobro que do que aquilo que ganha um médico em início de carreira em Portugal.

“É muito fácil desmembrar os serviços públicos de saúde”, alerta o presidente da Federação Nacional dos Médicos. Em declarações ao Jornal de Notícias, João Proença, critica os mais de 100 milhões de euros anuais que a tutela gasta com médicos tarefeiros para as urgências e centros de saúde. Ora, estes profissionais, que trabalham em regime de prestação de serviços, têm um custo/hora muito superior aos médicos do quadro.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, garante que o valor daria para contratar 2242 médicos, quase metade dos profissionais que a Ordem diz serem necessários para o SNS. João Proença fala em mais 400 clínicos com um salário mensal de 3 mil euros brutos.

Seja como for, um aspeto é consensual: é preciso mais investimento e um aumento dos vencimentos dos profissionais, se o SNS os quiser reter. Até porque, para além da emigração, os grupos privados são outro player que desvia muitos médicos do SNS. “Se houvesse um investimento em equipas e em condições de trabalho, não tenho dúvidas de que haveria uma maior capacidade de atração de médicos pelo SNS”, afirma Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos.

O Ministério da Saúde garante que está a desenvolver esforços para reter médicos no SNS mas os sindicatos dizem que não estão negociados aspetos importantes como a atualização salarial ou a redução das horas de urgência. A carga horária elevada é outra das queixas do profissionais. Miguel Guimarães diz mesmo que “os médicos estão a ser obrigados a cumprir horários desumanos”.

Tiago Caeiro

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