FALSA CIÊNCIA – Reflexões avulsas

Acácio Gouveia

Acácio Gouveia

Médico de família

“Há épocas em que a sociedade, tomada de pânico, se desvia da ciência e procura a salvação na ignorância”
Saltykov-StcherdineMikhail

Não tendo o autor formação em História ou Filosofia, a série textos que se seguem devem ser lidos à luz desta advertência. 

  1. Faz-se uma resenha breve da história da ciência no Ocidente realçando o conflito entre a tradição helénica do livre pensamento e a tradição judaico-cristã baseada na autoridade da verdade revelada, que legitimou o obscurantismo e fundamentou o nascimento da falsa ciência.
  2. Defende-se que há relação clara entre autoritarismo e o obscurantismo, mas que este não é exclusivo desses regimes e a sua presença é ubíqua.
  3. Reflete-se sobre o paradoxo do ceticismo.
  4. Tecem-se considerações sobre aspetos específicos do caso português.
  5. Especula-se sobre as consequências do impacto das falsas ciências.
  1. A génese

“O conhecimento do passado ajuda a compreender o presente e a prever o futuro.”
Maurice Tubiana

“(…) a partir da época dos padres da Igreja, tudo é relido à luz da nova religião.”
Umbero Eco

I – Poder-se-á defender, sem grande risco de errar, que ciência e civilização são inseparáveis. Fora dum contexto de civilização a ciência enquista e sem ciência a civilização fenece como peixe fora de água. Note-se que o termo ciência, no sentido que hoje lhe damos, só se consolidou o século XIX. Contudo, para facilidade de exposição, usar-se-á no texto presente, a par com o vocábulo conhecimento, por substituição às pretéritas designações de filosofia natural ou outras mais difusas.

Considera-se que a ciência, no Ocidente, nasce na Suméria, a par com o desabrochar das civilizações urbanas complexas. Curiosamente, os outros focos civilizacionais, que surgiram isolados do Médio Oriente, também criaram autonomamente as suas próprias versões da ciência. Citemos a título de exemplos o chamado teorema de Pitágoras – que era conhecido pelos babilónios, egípcios, indianos ou chineses (Sanchez, 2012) – e a matemática dos povos mesoamericanos.

Mas é a Grécia antiga que merece atenção especial, porque aí teve lugar o que Kuhn designa como salto de paradigma. Três caraterísticas tornam a ciência helénica particularmente interessante. Em primeiro lugar, o objetivo da busca do saber deixa de estar focado apenas na resolução prática de problemas concretos do dia-a-dia. Até aí, entre os outros povos citados era esse o único propósito da busca de conhecimento. Poderemos dizer que é na antiga Grécia que nasce a ciência pura, pelo menos no que ao Ocidente concerne. A busca do saber torna-se um fim em si mesma. Outra caraterística revolucionária do pensamento helénico tem a ver com o interesse com a própria atividade científica. Com Aristóteles nasce a filosofia da ciência (Loose, 1980), ou, se assim se quiser, a metaciência, que poderá ser vista como uma tentativa de legitimação da fiabilidade da ciência e reveladora de preocupação em relação à capacidade de atingir a verdade do real. Inquietação que ainda hoje se mantém atual. Em terceiro lugar, é espantosa a diversidade de correntes de opinião entre os vários filósofos e a quantidade de assuntos que atraíram a sua curiosidade. No domínio da medicina, por exemplo, verifica-se uma mudança de paradigma: a explicação da doença e a terapêutica saem do domínio mágico-religioso para o “científico” – chamemos-lhe assim (Tubiana, 1995). Esta mudança foi possível num contexto de mudanças no modo de ver o mundo por parte dos sábios helénicos.

Curiosamente, ou talvez não, é atribuída à antiga civilização grega a “invenção” da Democracia. Não será coincidência que o florescimento científico e o regime democrático tenham tido lugar sincronicamente e no mesmo espaço geográfico. Ambas só são possíveis graças ao livre pensamento.

O mundo helénico foi, como é sabido, incorporado no Império Romano podendo falar-se a partir daí em civilização latino-helénica à qual se virão a fundir, quatro séculos mais tarde, a cultura germânica (misturada ao que restava da cultura céltica) e o ideário judaico-cristão. Desse cadinho emergiu a Europa Medieval (Eco, 2010). No último século de vida do Império Romano instala-se progressivamente um período de obscurantismo que irá durar uma dúzia de séculos. O obscurantismo assenta na radicalidade do cristianismo. A rejeição de qualquer tolerância religiosa, por parte dos cristãos, estendeu-se a todos as vertentes da vida: dos costumes ao domínio filosófico-científico. O livre pensamento helénico não é compatível com mensagem evangélica baseada na verdade revelada. Em João 20, 29 lê-se “Bem-aventurados os que acreditam sem ver”. A censura, dirigida a Tiago, em Emaús, é inconciliável com o “ver para crer” dos filósofos helénicos, isto é, com o livre pensamento. É preciso acreditar sem questionar. A busca é abolida em favor da crença e a curiosidade passa a ser suspeita (Wootton, 2015).

Contudo, todo o acervo de conhecimento latino-helénico não podia ser suprimido de ânimo leve. Talvez melhor que ninguém, Agostinho de Hipona, um intelectual pagão convertido, o tenha compreendido e, portanto, tentado fazer a síntese entre a sabedoria   helénica e o cristianismo (Parodi, 2010). No que respeita ao conhecimento científico, prevaleceu o princípio da autoridade da verdade revelada, sendo recuperados como verdadeiros uns pedaços desirmanados do saber clássico: a cosmovisão de ptolomaico-aristotélica, a fisiologia e anatomia de Galeno, umas opiniões desgarradas de Aristóteles sobre ciência naturais, etc. (Wootton, Losee). O património do conhecimento euro-ocidental ficou reduzido a um amontoado de dogmas, imutável e sem possibilidade de contestação ou verificação. Protegido, literalmente, a ferro e fogo. Que o digam os fantasmas de Giordano Bruno ou de Tomás Munzer!

Ora isto é o contrário da ciência. Ciência é um método de busca dinâmica de conhecimento e não uma coleção estática de “verdades”.

De certa forma podemos especular que assim nasce, no que ao Ocidente concerne, quiçá a primeira falsa ciência, que se manterá firme mais de mil anos.

II – Mas a realidade histórica é bem mais complexa. Em boa verdade, o cristianismo não se limitou ao papel de guardião feroz do obscurantismo. Paradoxalmente, foi no seio da Igreja que as brasas do conhecimento encontraram abrigo durante estes mais de dez séculos (Corsi, Eco, 2010). Como mera curiosidade pode citar-se o caso do estádio-santuário de Olímpia, mandado arrasar por Teodósio II no final do século V, em contexto de perseguição ao paganismo, cujas ruínas foram localizadas por um monge católico, em 1723: Bernard de Montfaucon. Mas mais significativos serão os exemplos de Isidoro de Sevilha (560-636), que aí foi arcebispo e que escreveu Etymologiae, obra explicitamente classificada como enciclopédia por Umberto Eco, ou de Rábano Mauro (782-856), Beda o Venerável (673-735) e Hildegarda de Bingen (1098-1179). Todos eles figuras de topo do movimento monacal, a quem muito se deve pela conservação e desenvolvimento do conhecimento durante a alta Idade Média.

Bem mais significativo ainda será o facto do franciscano Francis Bacon, em pleno século XIII, defender a validade do método experimental que é, em boa verdade, incompatível com o princípio da verdade revelada. Aliás, há quem sugira que o movimento iniciado por Francisco de Assis teve um papel, ainda que involuntário, no renascimento científico da Europa (Almeida, 2018). Até aí o “mundo”, a par do demónio e da carne, era considerado “inimigo do homem”. Ao propor a contemplação da Natureza (ou seja: do “mundo”) como alternativa ao monopólio dos templos, enquanto local de vivência adorativa, S. Francisco foi inovador em mais do que um sentido. Inovador nos campos religioso e do conhecimento. Da contemplação facilmente se evolui para a observação, donde nasce a curiosidade e, seguidamente, a necessidade de explicar. Assim sendo, esta experiência religiosa inovadora evoluiu para o que poderíamos chamar protociência, ainda que de forma involuntária.

É curioso verificar que Copérnico (para além de matemático e médico) era formado em teologia e, até ao fim dos seus dias, esteve muito ligado à Igreja. Kepler era um místico, mas foi firme na defesa das suas teorias, apesar da condenação a que católicos e protestantes as votaram. Newton era profundamente devoto e, apesar de riquíssimo, vivia de forma relativamente modesta em consonância com o preceituado pela sua religião. Galileu não seria particularmente piedoso, mas era seguramente crente ao ponto de afirmar que buscava a linguagem de Deus. Pascal, outro místico, foi um percussor na aplicação rigorosa do método experimental (Wootton). Marin Marsenne (1588-1648), padre e teólogo, teve um papel decisivo na difusão das descobertas científicas em pleno século XVII. Era uma espécie de webmaster duma verdadeira rede social dos mais eminentes pensadores dessa época (Descartes, Fermat, Galileu, Torricelli ou Pascal), encarregando-se de remeter para todos os “associados” as cartas, que cada um destes lhe fazia chegar.

A este propósito vale também a pena referir que não há qualquer prova que a Igreja tenha proibido formalmente as autópsias até ao fim da Idade Média (Mandressi, 2005). Se, por um lado, o cristianismo trouxe um retrocesso no conceito de doença, que passa a ser vista como punição divina, por outro, institui a noção de caritas, que está na génese da instituição hospitalar no Ocidente (Conforti, 2010). Até aos finais do século XIII, os mosteiros, sobretudo nos países meridionais mais expostos aos conhecimentos islâmicos, dedicaram-se ao estudo e prática duma forma de medicina mais científica, digamos assim por oposição à superstição vigente. Contudo, por essa data o direito canónico estabeleceu limitações ao exercício da medicina por clérigos, revelador da faceta obscurantista da Vaticano (Mattoso, 2010).

Portanto, o cristianismo foi simultaneamente guardião do obscurantismo e curador do património intelectual latino-helénico.

A talho de foice recordemos o relevantíssimo papel do islão no renascer da ciência e da filosofia europeias, que não pode ser escamoteado, como o pretende a direita ultramontana, criadora duma falsificação histórica que atribui ao cristianismo o monopólio da entidade europeia.

Aos poucos a Igreja Católica, bem como diversas (mas não todas) correntes protestantes, compreenderam que a ciência, se bem que possa contradizer dogmas específicos, não põe em causa o hard core da qualquer religião: a crença na existência da Divindade. A ciência não tem potência para provar a existência ou não de Deus. Por outro lado, a religião não é dona da verdade científica. Portanto, o princípio da verdade revelada cinge-se estritamente ao domínio teológico (da crença na existência de Deus) e não ao do estudo da realidade, que é distrito da ciência.

Contudo, é manifesto que nos dias de hoje o obscurantismo continua indissociável das correntes fundamentalistas das várias religiões.

Bibliografia:
– Tubiana, Maurice “História da Medicina” Ed. Teorema, 1995
– Gonçalves, Raquel “Ciência, Pós-Ciência, Metaciência” Terramar,1991
– Almeida, Onésimo Teotónio “O Século dos Prodígios” Quetzal, 2018
– Woottoon, David “A Invenção da Ciência” Círculo de Leitores, 2015
– Losee, John “Introdução Histórica à Filosofia da Ciência” Terramar, 1998
– Eco, Umberto et alt “Idade Média” Leya, 2013
– Arasse, Daniel et alt “História do Corpo” Círculo de Leitores, 2013
– Mattoso, José et alt “História da vida privada em Portugal – Idade Média” Círculo de Leitores, 2010

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