9 Jun, 2021

“Existem múltiplos comportamentos de risco que podem causar, precipitar ou agravar a fibrilhação auricular”

A especialista Luísa Fontes, em entrevista ao Saúde Notícias, reforçou os sintomas associados à fibrilhação auricular e quais são os hábitos que podem ajudar na prevenção desta patologia.

A propósito da Semana Mundial do Ritmo Cardíaco, que decorre de 7 a 13 de junho, torna-se fundamental abordar a fibrilhação auricular (FA), uma patologia que representa a arritmia crónica mais frequente em todo o mundo e que está associada a várias complicações cardiovasculares.

Para tal, Luísa Fontes, interna de Medicina Geral e Familiar na USF Ponte, no ACeS do Alto Ave, em Guimarães, em entrevista exclusiva ao Saúde Notícias, explicou quais os sintomas associados a esta condição e de que modo os nossos hábitos influenciam o desenvolvimento deste tipo de arritmia:

Qual é a prevalência da FA em Portugal? Existe maior incidência em alguma faixa etária?

De acordo com o estudo SAFIRA, em Portugal, a prevalência global da FA ronda os 9% nos idosos, isto é, em pessoas com idade igual ou superior a 65 anos. A sua incidência aumenta com a idade. Segundo o mesmo estudo, a prevalência estimada será de 11,1% nos septuagenários e de 15,2% naqueles com idade igual ou superior aos 80 anos.

Quais são os sinais e sintomas frequentemente associados a esta condição?

Apesar de muitos doentes com FA serem assintomáticos, existem alguns sintomas ou sinais que devem dar o alerta ao doente e motivar consulta com o médico assistente. Sintomas como sensação de palpitações ou aperto no peito, tonturas, episódios de desmaio, dificuldade em respirar ou cansaço mantido poderão surgir. Objetivar, pela avaliação do pulso, a irregularidade dos batimentos cardíacos, habitualmente com uma pulsação rápida, será também um sinal de alerta a ter em consideração.

Por que razão o diagnóstico precoce é fundamental?

A FA caracteriza-se pela irregularidade da contração auricular, que provoca a estagnação do sangue e facilita a formação de coágulos no interior do coração. Se estes coágulos entrarem na corrente sanguínea, poderão chegar às artérias que irrigam o cérebro e causar um acidente vascular cerebral (AVC). Outras complicações incluem também a insuficiência cardíaca ou, até, a morte súbita.

Esta arritmia, se não devidamente tratada, está associada a hospitalizações frequentes e à redução da qualidade de vida. Contudo, para a tratar atempadamente é imprescindível diagnosticá-la antes de causar complicações. Assim, é recomendado que todos os indivíduos, principalmente a partir dos 65 anos de idade, avaliem o pulso: é um gesto simples que permite perceber se há alguma irregularidade no batimento cardíaco.

Uma vez detetada uma arritmia, esta poderá ser confirmada através de exames complementares de diagnóstico, como a eletrocardiograma ou o Holter de 24 horas, pedidos pelo seu médico assistente.

Que doenças e complicações cardiovasculares estão associadas a esta condição?

Comorbilidades como a obesidade, a diabetes, a insuficiência cardíaca, a hipertensão arterial, a síndrome de apneia obstrutiva do sono e a doença coronária representam um risco acrescido para o desenvolvimento desta arritmia. A principal complicação cardiovascular associada à FA é o acidente vascular cerebral.

De que modo se pode prevenir o desenvolvimento de FA?

Para além do avançar da idade, existem múltiplos comportamentos de risco que podem causar, precipitar ou agravar a FA. Entre estes destacam-se o tabaco, o consumo de cafeína, de bebidas alcoólicas ou de outro tipo de drogas, a manutenção de estilos de vida sedentários, o stress e a toma indevida de alguns medicamentos. Todos eles podem ser eliminados ou reduzidos.

Qual é o tratamento mais aconselhado para a patologia?

Os sintomas e as complicações da FA podem ser evitados, minorados ou controlados através de alterações nos hábitos de vida. Para além disso, a maioria dos doentes terá indicação para fazer terapêutica anticoagulante oral, sendo atualmente os anticoagulantes orais não antagonistas da vitamina K (também denominados de anticoagulantes orais diretos – DOAC), a classe terapêutica mais eficaz e segura na generalidade dos doentes (salvo algumas exceções). Para além disso, poderá também estar indicado a toma de outros fármacos que controlem a frequência cardíaca.

Quais são as vantagens e desvantagens do tratamento?

Os anticoagulantes orais diminuem a coagulação no sangue circulante nos vasos, evitando assim fenómenos tromboembólicos, prevenindo, por exemplo, como referido, o AVC, a principal complicação associada e que contribui para a mortalidade e importante perda de qualidade de vida destes doentes. Contudo, pelo mesmo princípio, poderão facilitar a existência de hemorragias. A decisão terapêutica caberá ao médico assistente, pesando os inúmeros benefícios e eventuais riscos destes fármacos nestes doentes.

ler mais

RECENTES

ler mais