Especialista alerta para aumento de HPV na laringe em crianças, com casos que exigem traqueostomia
A Unidade da Voz do Hospital Egas Moniz está a detetar mais casos de HPV na laringe, incluindo em crianças infetadas no parto. Em situações graves, o vírus pode obstruir a via aérea e obrigar a traqueostomia, alertou a coordenadora, Clara Capucho.

A coordenadora da Unidade da Voz do Hospital Egas Moniz alertou para o aumento de casos de infeção por Vírus do Papiloma Humano (HPV) na laringe, incluindo em crianças, algumas das quais chegam a necessitar de traqueostomia para conseguirem respirar.
Em declarações à Lusa, a cirurgiã otorrinolaringologista Clara Capucho explicou que há situações em que a transmissão ocorre no momento do parto, quando o bebé entra em contacto com o vírus presente no canal vaginal da mãe.
Segundo a especialista, esta é uma preocupação particular em grávidas com infeção ativa por HPV, sobretudo quando não foram vacinadas e o parto decorre por via vaginal, podendo o recém-nascido aspirar o vírus.
Muitas destas crianças desenvolvem manifestações laríngeas nos primeiros anos de vida, com formação de papilomas que podem obstruir a respiração e alterar a voz. Nos quadros mais severos, pode ser necessário recorrer a uma traqueostomia para manter a via aérea aberta.
Clara Capucho sublinhou, no entanto, que algumas crianças conseguem, com o desenvolvimento da imunidade, suprimir a manifestação do vírus ao longo do crescimento, embora o percurso clínico possa implicar várias cirurgias e vigilância prolongada.
Na Unidade da Voz, que integra a Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental, existem atualmente casos de crianças acompanhadas desde os quatro anos e que, já na adolescência, conseguiram retirar a traqueostomia e recuperar uma voz normal, embora mantenham seguimento apertado.
A especialista adiantou que já foram identificados muitos casos em Portugal, sobretudo em crianças oriundas da América Latina, Cabo Verde e Angola.
Além da realidade pediátrica, a unidade tem vindo também a registar um aumento expressivo de HPV na laringe em adultos, identificado nos rastreios anuais que realiza.
Segundo Clara Capucho, este crescimento está relacionado com alterações nos hábitos sexuais, mas também com a maior mobilidade internacional e o contacto com populações onde a infeção apresenta maior prevalência.
A médica alertou ainda que o HPV na laringe não deve ser encarado como uma situação totalmente benigna. Embora se manifeste frequentemente como papilomas nas cordas vocais, a multiplicação viral pode, em alguns casos, evoluir para lesões malignas e está associada ao risco de cancro da laringe.
Por isso, destacou a importância da vacinação contra o HPV em rapazes e raparigas, lembrando, contudo, que existe uma faixa etária mais velha que ficou fora da cobertura inicial do Programa Nacional de Vacinação.
No rastreio realizado pela Unidade da Voz no ano passado, o HPV foi identificado em 21% das 120 pessoas avaliadas. Foram ainda detetadas leucoplasias em 7% dos casos, lesões potencialmente malignas, e sinais de refluxo em cerca de 60%, outro fator de risco relevante para alterações celulares na laringe.
Fundada em 2005, a Unidade da Voz promove anualmente campanhas de rastreio com avaliação dos sintomas, hábitos vocais e observação direta das cordas vocais, com o objetivo de garantir diagnóstico precoce e reduzir a necessidade de intervenções mais mutilantes.
Para assinalar o Dia Mundial da Voz, celebrado a 16 de abril, o serviço vai realizar rastreios gratuitos entre os dias 14 e 17, no Hospital Egas Moniz, com apoio da Fundação GDA.
LUSA/SO
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