4 Dez, 2017

Edição Especial | Análise do estudo: “Envelhecer com o VIH… Desafios para o futuro”

Com a disponibilização de novos e mais eficazes medicamentos, a infeção por VIH deixou de ser uma condição terminal, para passar a ser uma doença crónica, permitindo aos doentes uma esperança de vida saudável de longo prazo, sobreponível à da população em geral. Leia a nossa edição especial!

Para estudar o fenómeno e as suas implicações, epidemiológicas, clínicas e sociais, o Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (UL) e o Centro de Estudos Avançados da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa (FEUCP) realizaram um estudo onde apresentam uma revisão da literatura para caracterizar os aspetos clínicos-epidemiológicos mais recentes e relevantes associados, bem como uma análise econométrica para a realidade nacional com o objetivo de estimar a evolução ao longo dos próximos 20 anos do número de pessoas infetada pelo VIH (PVIH), incluindo as envelhecidas.

O relatório é, assim, uma síntese dos estudos publicados sobre a matéria em análise, juntamente com um modelo preditivo demográfico para os próximos anos. Para obtenção dos dados os investigadores realizaram uma revisão das bases bibliográficas Medline, e Cochrane Library abrangendo todo o período entre janeiro de 2000 e janeiro de 2017 e ainda a DynaMed Plus, no sentido de identificar as principais recomendações terapêuticas internacionais. Foram ainda pesquisadas as fontes de dados nacionais sobre a doença e as publicações no índex das revistas médicas portuguesas online (indexrmp) no mesmo período.

Da pesquisa efetuada foi possível selecionar 3.853 referências, selecionadas em função da sua relevância.

No seu trabalho, os investigadores do CEMBE e FEUCP começam por apresentar o panorama epidemiológico da infeção por VIH, incluindo na pesquisa o critério idade.

A primeira informação disponibilizada vem do Joint United Nations Programme on HIV/AIDS (UNAIDS) e reporta a 2016. Segundo o relatório da agência das Nações Unidas para a infeção pelo VIH e SIDA, nos últimos anos, a idade média das PVIH tem vindo a aumentar. Em 2015, reporta a UNAIDS, nos países de elevado rendimento, aproximadamente 31% de todos os adultos infetados pelo VIH tinham 50 ou mais anos. Ainda segundo a agência das Nações Unidas, o número de novos casos em doentes mais velhos tem vindo igualmente a aumentar. É o que acontece na Europa (EU/AEE), onde em 2015 os doentes com ≥50 ou mais anos compreendiam 39% da população infetada e 17% dos novos diagnósticos.

Novos casos de infeção por VIH (idade igual ou superior a 15 anos) diagnosticados em 2015 – por rendimento.

Finalmente, com base nos resultados encontrados, a equipa de investigadores,116,  coordenada pelo Professor Doutor António Vaz Carneiro, Professor Miguel Gouveia, Dra. Rita Sousa, Professor João Costa, Dra. Francesca Fiorentina e Dra. Margarida Borges, apresenta os desafios atuais e futuros, quer para a gestão das PVIH envelhecidas, quer para os serviços de saúde.

Dentro de 20 anos, 80% dos doentes com VIH terão mais de 50 anos

Têm-se vindo a registar tendências crescentes na prevalência do VIH entre pessoas com idade igual ou superior a 50 anos: Uma realidade confirmada pelos resultados de estudos realizados recentemente, um dos quais mostra que em todo o mundo, mais de 4.2 milhões de pessoas infetadas pelo VIH (PVIH) têm mais de 50 anos de idade. E 26% do total terá mais de 70 anos.

Em Portugal, estimativas da evolução da prevalência por grupo etário revelam um cenário preocupante: segundo o nosso modelo, a proporção de PVIH com 50 e mais anos de idade aumenta dramaticamente ao longo dos anos, de 39% em 2015, para cerca de 80% em 2037.

Ao contrário do que acontecia nos primeiros anos da pandemia, a população mais jovem registará dentro de 20 anos uma prevalência reduzida, com o grupo de indivíduos até 29 anos a representarem apenas 2% do número total e o dos da faixa etária entre os 30 e os 49 anos de idade, 18%.

Esta verdadeira revolução epidemiológica suscita questões relevantes, que as autoridades e a sociedade no seu todo terão que equacionar. É que em 2037, dos mais de 30 mil “sobreviventes com mais de 50 anos de idade, a maioria apresentará risco acrescido para um vasto conjunto de comorbilidades”. Uma evolução expectável, ainda que pouco tratada, quer numa dimensão jornalística, quer ainda – e mais relevante – numa perspetiva de construção de programas de suporte de saúde. Uma lacuna confirmada por António Vaz Carneiro, Diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, que coordenou o estudo. “Se ainda há milagres em Medicina, a infeção pelo VIH/SIDA é um deles. Nos anos 80, era uma doença aguda com 100% de mortalidade e hoje em dia é uma doença crónica com uma baixíssima mortalidade. De facto, foi possível “agarrar” numa doença com a gravidade e especificidade da infeção pelo VIH/SIDA e através de uma investigação muito bem-feita obter medicamentos altamente potentes – e seguros – que permitem que as pessoas vivam mais três décadas do que no início da pandemia”, começa por apontar, para logo acrescentar: “Transformou-se numa doença crónica pelo que, o facto de as pessoas infetadas já não terem uma mortalidade elevada, irão desenvolver comorbilidades comuns à população geral mais idosa. Agravadas no caso da infeção por VIH/SIDA por existir evidência de que os riscos de desenvolvimento de doença cardiovascular, osteoporose, neoplasias não definidoras de SIDA, entre muitas outras são mais elevados em PVIH”. O problema, aponta Vaz Carneiro, é que o sistema de Saúde não está preparado, nem existem sinais de que o esteja a ser para acolher estas pessoas. “É necessário que se opere uma transformação no sistema”, defende.

“O próprio estudo sustenta a ideia de que temos que organizar os serviços às PVIH, mais velhos ou mais novos. Isto porque”, defende o Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, “o local natural para tratar de doenças crónicas, riscos de saúde, e aumento de incidência de doença são os Cuidados de Saúde Primários e não os hospitais como hoje acontece relativamente às pessoas com infeção por VIH/SIDA”.

“Sabemos que irá ocorrer um crescimento de uma população adulta mais envelhecida com 50 ou mais anos, que vive com o VIH e que apresenta e apresentará taxas de comorbilidades ainda mais elevadas, conduzindo à transformação da infeção por VIH numa doença crónica complexa, com multimorbilidade associada, que irá requerer atenção e especialização em múltiplos domínios do sistema de saúde e seus responsáveis”, alerta Vaz Carneiro, que acrescenta: “A somar a tudo isto, verificar-se-á, nestes doentes, uma menor qualidade de vida e o isolamento social por estigma, que algumas das PVIH apresentam, o que condiciona o seu apoio regular. Sem suportes sociais funcionais a partir dos quais se possam obter cuidados e assistência, esta população buscará apoios mais formais num período de reduzidos recursos económicos”. Desta forma, aponta o investigador, “estes doentes serão relegados em idades precoces para serviços de cuidados de saúde domiciliar onerosos, assim como para cuidados continuados comunitários”.

Esperança de vida aumentou 34 anos entre 1996 e 2011

Com o aparecimento de novos e mais eficazes antirretrovirais, a taxa de mortalidade das PVIH diminui drasticamente, particularmente nos países com alto rendimento. No seu trabalho, os autores referem os resultados de um estudo realizado na Suíça numa coorte de 16134 doentes infetados pelo VIH com idade ≥18 anos, entre 1988 e 2010. Deste estudo, é possível concluir que a taxa de mortalidade relacionada com SIDA variou entre 11,0/100 pessoas ano em 1992 e 0.14/100 pessoas ano em 2006. Uma redução notável. A mesma tendência registou-se na taxa de mortalidade não relacionada com SIDA com as taxas a diminuírem, de 1.74/100 pessoas ano em 1993 para 0.78/100 pessoas ano em 2008. Em 2010, os mesmos dados apontam para taxas de mortalidade relacionada e não relacionada com SIDA respetivamente de 0.21/100 pessoas ano e 0.86/100 pessoas anos.

Um outro estudo que analisou a mortalidade em 11 coortes na Europa, EUA e Austrália entre 1999 e 2011, mostra uma redução da taxa de mortalidade global de 17.5/100 pessoas em 1999-2000 para 9.1/100 pessoas em 2009-2011.

Um outro estudo, mais recente, apresentado em 2016, que comparou a esperança de vida de PVIH quando emparelhados com pessoas não infetadas, entre 1996 e 2011, mostra que nesse período, o número de mortes por 100 mil pessoas/ano diminuiu de 7.077 para 1.054, no grupo infetado por VIH. Já no grupo de pessoas não infetadas, o declínio da esperança de vida não foi significativo.

Neste estudo, foi possível estimar a esperança de vida dos indivíduos infetados aos 20 anos aumentou de 19 anos em 1996-1997, para 53 anos em 2011. Já no grupo dos não infetados, a diferença foi muito menos significativa: de 63 para 65 anos. Contas feitas, a diferença entre a esperança de vida dos indivíduos com e sem infeção por VIH reduziu de 44 anos em 1996-1997 para 12 anos em 2011.

Viver mais anos… Não saudáveis

Como se viu, a par com o aumento da esperança de vida das PVIH, aumentam também as comorbilidades presentes na população em geral, só que em formas agravadas. “Envelhecem como o resto da população, desenvolvendo as mesmas comorbilidades que marcam a nossa população idosa. Com uma agravante: vários estudos mostram um aumento do risco de comorbilidades relacionadas com a idade nas PVIH” aponta Vaz Carneiro. Rasmussen et al, por exemplo, avaliaram uma coorte dinamarquesa entre aos anos de 1995 e 2014, que incluiu 5.897 indivíduos PVIH e 53.073 indivíduos controlo. Neste estudo, as PVIH apresentaram um risco aumentado de desenvolvimento de comorbilidades relacionadas com a idade, incluindo doença cardiovascular, doença neurocognitiva grave, doença renal crónica, doença hepática crónica e fraturas osteoporóticas.

Numerosos estudos estimam risco acrescido para cada uma das comorbilidades.

Na doença cardíaca isquémica, por exemplo, o risco acrescido atingirá, em 2037, quase 12% nos homens e cerca de 8% nas mulheres. No que respeita à taxa de prevalência da hipertensão arterial, que em 2015 era de 39% nos homens e de 34% nas mulheres, estima-se que em 2037, seja 63% nos homens e de 53% nas mulheres.

Na Diabetes de tipo 2, os investigadores, suportados em estudos prospetivos, estimam que a taxa crescerá mais de 120%, sendo os valores previstos para 2037 de 21% nos homens e de 13.1% nas mulheres. Em 2015 eram, respetivamente, de 9.4% e 6.1%.

A prevalência de insuficiência renal irá duplicar, passando de 8% para 16% nas mulheres e de 7.7% para 16.4%, nos homens.

Em alguns casos, as estimativas situam-se muito acima daquilo que poderia colher razoabilidade clínica, apontam os autores. É o caso da osteoporose, cuja prevalência nas mulheres com VIH era, em 2015, de 16.5% e que dentro de 20 anos crescerá mais de 150%, para 40.8%.

No mesmo patamar estão os acidentes cerebrovasculares, que aumentarão, nos homens de 80 para 222 eventos-ano em duas décadas e nas mulheres, de 25 para 61 eventos-ano, o que corresponde a um crescimento da incidência superior a 160%.

Risco de cancro aumenta até 250%

O envelhecimento das PVIH será responsável, também no que respeita ao risco de doença oncológica. De acordo com os estudos analisados, o número de novos casos de carcinoma anal em PVIH irá aumentar entre 2015 e 2037 de 6 para 15 casos-ano nos homens e de 3 para 8 casos-ano nas mulheres, que corresponde a uma taxa de crescimento em número absoluto de casos nos próximos 20 anos de cerca de 250%.

As projeções para as neoplasias da vagina e vulva apontam para uma evolução da incidência de aproximadamente 10 casos em 2017 para 23 em 2037.

De acordo com os autores, as neoplasias do pénis, em que o risco das PVIH já é superior ao da população em geral, irão triplicar nas próximas duas décadas.

Contra corrente, a prevalência de linfoma não-Hodgkin, muito prevalente nos anos iniciais da pandemia, irá diminuir de 5 novos casos-ano em 2015 para 4 novos casos-ano em 2037. O linfoma não-Hodgkin é, aliás, a única comorbilidade oncológica que apresenta uma tendência decrescente no horizonte temporal avaliado. Uma situação explicada com o facto de esta condição apresentar maior incidência em grupos etários mais jovens, pelo que com o envelhecimento previsto da população infetada, a incidência apresentará, naturalmente, uma tendência decrescente.

Pelo contrário, a incidência de casos de carcinoma hepatocelular irá aumentar no período analisado, de 6 novos casos-ano em 2017, para 13, nos homens e de 1 para 2 casos-ano nas mulheres.

Um pouco menos expressivo é o aumento projetado de novos casos de cancro da pele, estimando-se que a incidência anual entre 2017 e 2037 evolua de aproximadamente 3 novos casos-ano quer para o melanoma, quer para o cancro não melanoma para quase 6 casos (na população masculina).

Já o número de casos de cancro do pulmão registará mais do que uma duplicação nas mulheres, de cerca de 3 casos-ano em 2017 para 7 novos casos-ano em 2037. Nos homens o crescimento será ainda mais significativo: dos 23 atuais para 55 dentro de duas décadas.

Muito mais expressivo é o aumento da incidência do cancro da próstata, que deverá mais do que triplicar no período considerado. Atualmente, a incidência deste tipo de cancro em PVIH é de 14 casos-ano.

Risco de morte num ano aumenta 14 vezes nos casos de diagnóstico tardio

Apoiando-se em estimativas recentes, o European Centre for Disease, Prevention and Control (ECDC) os investigadores responsáveis pelo estudo em análise concluíram que a principal via de transmissão no ‘Velho Continente’ nos indivíduos com ≥50 anos de idade foi o contacto heterossexual. Já na população total, a principal via de transmissão foi entre homens que têm sexo com outros homens, representando 42% do total.

A alteração do perfil epidemiológico reflete-se, de acordo com os dados obtidos, no diagnóstico tardio nos indivíduos com ≥50 ou mais anos de idade, particularmente nos doentes mais idosos. De facto, a percentagem de doentes com uma contagem de CD4 ≤ 350 células/mmᶾ aumenta com a idade do diagnóstico, sendo de 63% nos doentes com ≥50 anos de idade.

As razões para este diagnóstico mais tardio dos doentes com idades mais avançadas, prende-se, segundo os autores do estudo suportados em diversos dados, com o facto de estes indivíduos não serem percecionados pelos profissionais de saúde como população de risco, principalmente quando comparados com a população mais jovem, pelo que a probabilidade de serem avaliados para o VIH é menor.

A evidência disponível confirma a perceção dos investigadores. De facto, um estudo realizado em Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte, que avaliou a transmissão de VIH e as taxas de diagnóstico tardio entre adultos com idades ≥50 anos, revelou que cerca de metade dos doentes (48%) com idade ≥50 anos foram diagnosticados tardiamente, apresentando contagens de linfócitos CD4 < 200 células/mmᶾ. Já no grupo dos adultos mais jovens, o diagnóstico tardio verificou-se apenas em cerca de um terço dos indivíduos (33%).

Um atraso com consequências dramáticas em termos de prognóstico. De facto, informam os investigadores, os doentes com ≥50 anos diagnosticados tardiamente apresentavam em média uma probabilidade 14 vezes superior de virem a morrer dentro de um ano do que os indivíduos na mesma faixa etária diagnosticados precocemente.

Números vão reduzir nos próximos 20 anos

E em Portugal, qual o cenário encontrado pelos investigadores do CEMBE e da FEUCP? A análise dos casos registados na base de dados de vigilância epidemiológica da Infeção pelo VIH/SIDA (INSA 2016) notificados até 30 de junho de 2016, mostra que foram diagnosticados 990 novos casos de infeção por VIH, valor correspondente a uma taxa de 9.6 caso por 100 mil habitantes, uma das mais elevadas da Europa Ocidental. A mediana da idade à data do diagnóstico foi de 39 anos, sendo que 25,5% dos casos respeitavam a indivíduos com ≥50 anos.

Ainda de acordo com os dados do Instituto Ricardo Jorge, a evolução das idades medianas à data do diagnóstico, revelou um aumento temporal para os casos diagnosticados entre 1990 e 2015 para o total e para todos os subgrupos, com exceção para o grupo dos homens que têm sexo com outros homens.

Uma análise mais aprofundada dos dados mostra que os casos que referem transmissão heterossexual (aproximadamente 60% do total) são os que se apresentam mais tardiamente aos cuidados de saúde.

Apesar de Portugal apresentar as mais elevadas taxas de novos casos de infeção por VIH e SIDA da Europa Ocidental, a verdade é que entre 2005 e 2014 registou-se uma redução de 50% no número de novos casos de infeção por VIH e de 69.3% no de novos casos de SIDA.

Portugal: em 2037 prevalência será apenas 2% superior à de 2015

Partindo da prevalência calculada pela DGS para 2015 (30956 PVIH), os autores do estudo preveem que irá aumentar lentamente até 2025, ano em que o número de PVIH será cerca de 10% superior ao de 2015. Após 2025, apontam os autores, o número total de PVIH irá diminuir de forma lenta, apontando as estatísticas para que em 2037, o número total de PVIH estará apenas 2% acima do valor inicial, em 2015.

A proporção das PVIH com 50 ou mais anos pelo contrário irá aumentar significativamente, representando 80% do total de stock de PVIH.

Causas de morte vão alterar-se

Outro dos dados apurados pelo estudo coordenado pelo Professor António Vaz Carneiro foi o de que, além do aumento da idade de diagnóstico e da esperança de vida, também o padrão das principais causas de morte das PVIH em Portugal tem vindo a alterar-se, sendo cada vez mais influenciada como se viu, por doenças que também afetam a população não infetada.

São muitos os estudos que avaliaram as causas de morte de PVIH, tendo sido alcançados resultados diversos de acordo com as coortes selecionadas, nomeadamente quanto à coinfecção pelo vírus da hepatite C, utilizadores de drogas por via endovenosa ou a idade dos doentes.

Um desses estudos, que analisou as causas de morte de PVIH em 2010, permitiu apurar que as principais causas foram SIDA (25%), NNDS (9%) e suicídio (5%). De salientar que, mesmo após ajustamento de idade e sexo, a distribuição das causas de morte apresentou diferenças significativas quando comparada com a distribuição das causas de morte para os anos 2000, 2005 e 2010.

Nas PVIH com ≥50 anos a principal causa de morte foram as NNRS já em indivíduos com menos de 50 anos de idade, a principal causa de morte foi a SIDA.

Outro estudo, já referido atrás, que avaliou a coorte ART-CC, as causas de morte mais frequentes foram as NNRS (231%), SIDA (16%), DCV (10%) e hepáticas (8%).

Em Portugal, os dados disponíveis mostram que em 2015 se registaram 192 óbitos em PVIH, a maioria dos quais homens (75,5%) tendo a idade mediana à data do óbito sido de 52 anos. De assinalar que a maioria dos óbitos em PVIH ocorreu em casos referenciados como heterossexual (51%). Foi também entre o grupo dos heterossexuais que se verificou a maior proporção de óbitos nos cinco anos subsequentes ao diagnóstico por VIH nos 5 anos subsequentes ao diagnóstico da infeção (34,7%). Um número que poderá não refletir a realidade, dada a reconhecida subnotificação de óbitos ao INSA. Daqui, também aventam os autores do estudo, as diferenças registadas entre os números do INE e os do INSA.

23% dos portugueses em tratamento tem mais de 55 anos de idade

Em termos de prevalência, os números encontrados para Portugal refletem a má prestação em termos de incidência da infeção por VIH e SIDA. De facto, os dados do sistema de informação para o VIH/SIDA revelam que no final de 2014 encontravam-se em seguimento ambulatório 30.956 pessoas infetadas pelo VIH. A distribuição etária destes doentes reflete a evolução da epidemia em Portugal, com um aumento da esperança de vida. Dos doentes em seguimento, 7.050 (23%) tinham idades ≥ 50 anos.

Uma tendência que os estudos disponíveis revelam ser idêntica à registada a nível europeu e mesmo mundial, particularmente em países com elevado rendimento.

É urgente um novo modelo de Gestão Integrada da doença crónica

No estudo, são apresentadas algumas propostas para a resolução do problema através de um modelo de gestão da doença crónica (GDC), “porque este permite captar a complexidade e as exigências de cuidados desta população específica”, defende Vaz Carneiro.

O Professor da Faculdade de Medicina explica que estes modelos de GDC, recomendados para a população VIH/SIDA, “são conjuntos proactivos e organizados de intervenções focadas nas necessidades de uma população definida de doentes (por exemplo, com uma determinada patologia) e incluem, normalmente, múltiplos complementos, onde pontificam a coordenação de serviços de saúde por equipas multidisciplinares de profissionais, práticas de educação e de autogestão dos doentes, sustentadas em sistemas de informação abrangentes e detalhados”.

O estudo sugere ainda que “as intervenções realizadas no âmbito das GDC podem basear-se em modelos de cuidados crónicos, identificando vínculos a recursos comunitários, suporte ao sistema de saúde, autocuidados e suporte à decisão profissional (por exemplo, através de Normas de Orientação Clínica), assim com a utilização de sistemas de informação clínica como elementos essenciais para que os sistemas de saúde apoiem o tratamento de doenças crónicas com elevada qualidade.

António Vaz Carneiro defende o seguimento desta população, de alto risco, pelos cuidados de saúde primários. “Esta passagem vai obrigar a um treino específico dos especialistas em Medicina Geral e Familiar para que possam lidar corretamente com estes doentes, que apresentam os fatores de risco com que eles estão habituados a lidar, a que acresce a terapêutica antirretroviral. Penso que não levará muito tempo a que esta mudança venha a estar estabilizada”, afirma. “Compreendo que presentemente os médicos hospitalares responsáveis pelos cuidados a estes doentes possam discordar desta proposta, mas o número dos doentes a tratar irá pura e simplesmente obrigar a essas mudanças.

No fundo, propõe-se “retirar do hospital, que é um sítio onde não se deve ir, a não ser em casos de evidente necessidade, e alocá-los aos cuidados de saúde primários.

Não faz sentido que todas as comorbilidades não relacionadas com a infeção pelo VIH, como a hipertensão arterial, a diabetes e outras, sejam tratadas pelo infeciologista/especialista hospitalar. Não faz qualquer sentido, insiste Vaz Carneiro, que acrescenta: “O médico de família pode muito bem – e se calhar até melhor – gerir essas comorbilidades, que são, no fundo, as mesmas que afetam a população idosa da sua lista de utentes. Se a infeção está controlada… Tudo o resto pode ser tratado pelo médico de família”, defende, para logo acrescentar: “O prognóstico final destes doentes não é morrer com SIDA. A maioria há-de morrer das mesmas causas que afetam a população em geral. De doença cardiovascular, de doenças respiratórias, de complicações resultantes de osteoporose, de patologia neurológica… Não há diferença nenhuma”, acentua. “Apenas um risco mais elevado para muitas destas comorbilidades relativamente à população em geral”, acrescenta.

Para o Diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada da Faculdade de Medicina de Lisboa, o principal resultado do estudo agora apresentado é o modelo preditivo do número de doentes com mais de 50 anos que irão existir dentro de 15 ou 20 anos. “O que mais me impressionou foi o modelo matemático que me informa que mais de 80% dos doentes terá mais de 50 anos em 2037. Esta constatação irá obrigar a uma transformação profunda do Serviço Nacional de Saúde, de modo a tratar estes doentes” aponta, para logo acrescentar: “Relativamente às patologias concomitantes, nós já sabíamos que esta infeção tem a particularidade de ativar um mecanismo de inflamação crónica, característica que leva a um aumento do risco de algumas doenças, como o enfarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral, e algumas neoplasias não definidoras de SIDA (ainda que a relação entre estas e a inflamação crónica que afeta as PVIH não se encontre bem estabelecida). É também de esperar um aumento, nesta população, da prevalência de alterações neurocognitivas, que poderão assumir uma relevância muito grande em doentes com 30 ou 40 anos de infeção”.

Em conclusão, aponta: “No futuro, o acompanhamento dos doentes com 50 ou mais anos de idade, que serão a maioria, enquadrar-se-á no modelo de gestão da doença crónica hoje existente em Portugal, com intervenção dos cuidados de saúde primários, a que acresce, periodicamente, a referenciação ao hospital, ao infeciologista, para monitorização da infeção por VIH/SIDA”.

António Vaz Carneiro assinala ainda a necessidade de se estudar com mais detalhe do que o que foi dado neste estudo, às questões sociais que esta “nova” população de doentes, idosos, irá suscitar. “Este estudo não se debruçou sobre a questão do isolamento social e da segregação com impacto direto no dia-a-dia destes doentes, um problema que os idosos não infetados não têm. É uma situação, a meu ver, dramática, uma vez que neste grupo temos também um risco acrescido de disfunções no sistema nervoso central. São doentes mais “deteriorados”, com mais dificuldade em pensar, em raciocinar, e com mais demência. A própria terapêutica dá azo a isso. São doentes mais confusos, com déficit de memória. Tudo isto os torna mais frágeis…. A tal frailty de que nos fala o estudo” explica Vaz Carneiro, que acrescenta: “é uma consequência natural das idades mais avançadas, que se reflete em dificuldade em ver e ouvir, em coordenar movimentos. E uma diminuição dramática da massa muscular, que origina quedas, por vezes com consequências muito graves. Preocupa-me muito a possibilidade de estas pessoas não terem apoio social, que sejam socialmente marginalizadas. Estamos a falar de mais de 30 mil pessoas, uma parte importante das quais estão completamente isoladas. Ou por segregação social ou por isolamento voluntário. E são estados de isolamento que muitas vezes resultam de décadas de segregação, agravada pelo facto de se ter uma doença que foi “moendo” ao longo dos anos, e que para muitos começou quando o prognóstico era a morte certa. É uma carga emocional muito grande, que é necessário ter em conta nas intervenções que se vierem a desenvolver.

Tudo isto agravado com o facto de ainda hoje muita gente continuar a pensar que o VIH/SIDA é uma doença de jovens, homossexuais, ou utilizadores de drogas por via endovenosa. “Quando na verdade, a maioria dos casos atuais de infeção ocorre entre a população heterossexual, cada vez mais idosa. Temos novas infeções em pessoas com 65 ou mais anos de idade”, sublinha o professor universitário.

“Pessoas que em muitos casos fogem ao “radar” da saúde, que não são avaliadas pelos serviços como sendo de risco para a infeção pelo VIH. É necessário que se faça o switch de modo a que estas pessoas sejam mais rapidamente diagnosticadas e tratadas”, defende Vaz Carneiro.

 

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