6 Mai, 2021

Entrevista ao presidente do Santa Maria. “Pico da terceira vaga foi o maior desafio da minha carreira”

O presidente do Conselho de administração do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN) admite que o Hospital de Santa Maria ficou “muito próximo do limite”, mas garante que “não ficaram doentes para trás”. Daniel Ferro salienta que o hospital vai recuperar todas as consultas e cirurgias atrasadas até ao final de 2021.

O mês de janeiro de 2021, quando se registou o pico da terceira vaga, foi o período mais difícil da sua carreira como administrador hospitalar?

Sem dúvida. Foi um momento em que senti as maiores ameaças à gestão no sentido em que tivemos de montar, num curto espaço de tempo, um dispositivo que mobilizou centenas de profissionais e alterou estruturas com requisitos mito apertados do ponto de vista da segurança. Foi o maior desafio da minha carreira até hoje.

Como foram vividas essas semanas de grande pressão sobre o Hospital de Santa Maria?

Nesse período nem tempo para dormir tínhamos. Muitas vezes, o meu dia de trabalho começava a meio da noite. Houve uma mobilização de 24 sobre 24 horas. Implicou muita ansiedade do ponto de vista da concretização. Estivemos todos no nosso limite. Os profissionais estiveram nos seus limites físico e psicológico para enfrentar a afluência de doentes e também os gestores estiveram no limite do esforço emocional que esta situação exigiu.

 

“Muitas vezes, o meu dia de trabalho começava a meio da noite”

Que lições considera que há a retirar desta pandemia, nomeadamente na resposta dada a nível hospitalar?

Várias. Desde logo, esta pandemia deu-nos a conhecer os nossos limites. Ao fazer isso, criou em todos (profissionais de saúde e gestores) um nível de confiança maior. Sabemos em que situação estivemos e, ao pensar em tudo o que aconteceu, hoje sinto mais confiança em relação ao que foi possível fazer.

 

 

Considera, portanto, que não era possível ter feito mais, nomeadamente em relação aos doentes que ficaram para trás?

Não ficaram doentes para trás. Houve sempre capacidade de atendimento em todas as áreas do hospital. Nunca preenchemos todas as camas em UCI, em enfermaria e nunca chegámos a preencher todo o espaço físico. Isso deu-nos uma margem de adaptação permanente até ao pico. Não penso que fosse possível uma mobilização maior do que a que foi feita. Das oito unidades de UCI que colocámos em funcionamento, cinco eram novas – sendo que foram ativadas no espaço de seis semanas. No entanto, ficámos muito próximos do limite.

 

“Temos um serviço de saúde com demasiada ocupação”

Na sua opinião, que erros não podem voltar a ser cometidos do ponto de vista da gestão hospitalar?

Nós temos um serviço de saúde com demasiada ocupação. Se entramos numa situação de pandemia com uma ocupação de 90% no internamento, corremos um enorme risco. A recomendação é que a ocupação fique abaixo desse nível. Temos de ter uma margem maior, de no mínimo 15%. É uma situação que é obrigatório rever depois da pandemia.

 

Essa elevada taxa de ocupação no internamento acontece porque se estão a internar demasiados doentes ou porque a capacidade de internamento é curta?

Deve-se a três fatores. O primeiro tem a ver com o facto de, por vezes, não termos os processos devidamente otimizados. Temos um a dois dias de protelamento do internamento dos doentes, que nos faz falta para que, com os mesmos doentes, em vez de termos 90% de ocupação podermos ter 85%.

Por outro lado, podemos ambulatorizar, recorrendo menos ao internamento [no hospital]. É um caminho que não está esgotado. Portugal tem feito um progresso assinalável, mas há uma margem por preencher.

O terceiro fator é pontual nos hospitais das regiões que, mesmo com estas otimizações, apresentem 90% de ocupação. Esse é um sinal de que estamos a trabalhar com uma capacidade de internamento inferior à que deveríamos ter.

A segunda ilação que devemos tirar é que a mobilização de que podemos precisar em pandemias desta ordem pode levar a mobilizar praticamente todos os recursos. Se até agora os planos de contingência preparavam mais 30 ou 40% de recursos, esta pandemia diz-nos que não podemos ficar por aí. Temos de preparar cenários a nível bastante mais exigente, alargando os planos de contingência.

 

Cirurgias e consultas adiadas: “Temos a expectativa de recuperar até ao final do ano o que se perdeu em janeiro, fevereiro e março”

 

A que ritmo está a o Hospital de Santa Maria a recuperar a atividade assistencial (consultas e cirurgias)?

O Hospital tem já um nível de recuperação total. Já estamos ao nível pré-pandemia a nível de consultas e cirurgias. O nosso objetivo é recuperar tudo aquilo que ficou temporariamente por fazer, sendo que os nossos níveis de otimização estão no máximo. Isto apesar de algumas estruturas ainda não estarem disponíveis – ainda temos blocos operatórios encerrados, ocupados com doentes covid.

Temos vindo a registar uma trajetória positiva no que diz respeito à acessibilidade. Temos hoje, em lista de espera para cirurgia, menos dois mil doentes em relação ao período pré-pandemia, bem como menos dez mil doentes a aguardar consulta. No entanto, isto é efeito de dois fatores: por um lado, do nível de atividade elevado que mantivemos.

Quando diz que o CHULN manteve um nível de atividade elevado, está a falar de que valores? Qual a dimensão da quebra prevista para o ano de 2021?

Em janeiro e fevereiro, tivemos áreas onde o decréscimo de atividade chegou aos 50% – por exemplo, na área cirúrgica. Isto porque tivemos de mobilizar blocos, enfermeiros, anestesistas para as UCI.

Temos a expectativa de alcançar níveis de 2019 em 2021, recuperando o que se perdeu em janeiro, fevereiro e março até ao final do ano.

 

“Não perdemos recursos. Temos mais 40 enfermeiros do que antes da pandemia”

 

Preocupa-o que muitos doentes não-covid tenham visto adiadas as suas consultas e cirurgias, prejudicando o prognóstico das suas doenças?

Os nossos serviços fizeram sempre a triagem do que podia ou não esperar. A nossa resolução dos tratamentos, intervenções e diagnósticos dos doentes por níveis de gravidade foi melhor durante a pandemia do que antes. Isto é, uma situação prioritária (por exemplo, uma cirurgia oncológica) teve uma capacidade de resolução maior durante a pandemia, por termos o foco nessas situações. Tentámos que a cirurgia ou a consulta adiada nunca pusesse em causa a vida das pessoas. Mais de 80% das cirurgias que se fazem em Portugal são adiáveis. Os outros 20% tiveram uma via verde durante a pandemia.

No que diz respeito aos recursos humanos, o CHULN perdeu profissionais durante a pandemia?

O nosso saldo é positivo neste último ano. Não perdemos profissionais. Temos mais 40 enfermeiros do que antes da pandemia e sensivelmente o mesmo número de médicos. No entanto, houve alguns atrasos nos concursos [para a colocação de médicos], pelo que, quando esse atraso for recuperado, vamos ter um crescimento do quadro clínico.

 

“A pandemia reforçou o contrato psicológico dos profissionais com o SNS”

 

Mas, considera que o CHULN tem uma crónica limitação a nível de recursos humanos?

O CHULN tinha, antes da pandemia, áreas com maiores necessidades. Essa situação não se alterou com a pandemia. Hoje em dia, os nossos recursos são limitados em áreas muito pontuais.

Quais?

Anestesiologia, Imagiologia, Radiologia.

Teme que muitos profissionais de saúde possam vir a sair do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no pós-pandemia?

Penso que não. Acho que a pandemia reforçou o contrato psicológico dos profissionais com o SNS. O facto de terem vencido com sucesso esta batalha deu-lhes autoestima. Tratámos no CHULN 3700 pessoas com uma taxa de sucesso muito elevada. Essas pessoas reforçaram a sua relação de pertença.

Portanto, não considera que as situações de carga excessiva de trabalho possam ter um impacto negativo na permanência dos profissionais?

Penso que não.

 

“Quem procura formações técnicas para se ‘realizar’ dificilmente encontra melhores condições do que as do CHULN”

 

Não se sentirão atraídos por melhores condições oferecidas pelo setor privado, por exemplo?

Quando os profissionais saem, não saem apenas porque vão ganhar mais 10 ou 20%, mas sim pelo o que vão conseguir do ponto de vista profissional, da formação. Os profissionais do CHULN sabem que aqui temos padrões muito elevados de formação e aprendizagem. Quem procura formações técnicas para se ‘realizar’ dificilmente encontra melhores condições do que as do CHULN.

O Dr. Daniel Ferro está à frente do CHULN há quase dois anos. Como está a situação financeira da instituição? Continua a gerar défice todos os anos?

Por mais paradoxal que pareça, conseguimos, apesar de uma despesa adicional decorrente da pandemia, uma melhoria de resultados face a 2019. Diminuímos o défice da instituição, o que é notável, mas também tem de ser compreendido pelo facto de termos diminuídos os níveis de assistência.

 

 

Isso significa que num cenário normal, sem pandemia, é inevitável que o CHULN gere défice?

Não. Nós temos, na sustentabilidade, tudo o que é diminuição da despesa e aumento da receita e esse objetivo não afrouxou durante a pandemia. Uma das áreas de diminuição da despesa é, por exemplo, a substituição de medicação biológica de marca por biossimilares. Esta estratégia progrediu em 2020.

Numa altura em que se assiste a uma tendência de concentrar serviços num só hospital (com os projetos de construção de grandes hospitais), faz sentido manter o Hospital Pulido Valente?

Faz muito sentido. O Hospital Pulido Valente tem ótimas condições para desenvolver cuidados em regime de ambulatório. A área da Oftalmologia tem consultas e opera doentes no Pulido Valente, o que não acontecia há dois anos. O mesmo se passa com a Dermatologia ou a Estomatologia. Estamos a dar melhores condições ao hospital em várias especialidades.

Além disso, o Pulido Valente aumentou a sua capacidade de internamento, até em cuidados intensivos.

TC/SO

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