15 Out, 2021

“É preciso desmistificar o processo do envelhecimento e dissociá-lo de valor negativo”

Em entrevista, a médica de família e coordenadora do Núcleo Sul do Grupo de Estudos da Saúde do Idoso/Geriatria (GESI) da APMGF aponta algumas medidas no sentido de responder ao desafio demográfico do envelhecimento populacional, no plano da Saúde.

Que desafios coloca atualmente o idoso na consulta de Medicina Geral e Familiar (MGF) e ao sistema de saúde?

O envelhecimento da população, a par do aumento da longevidade dos mais idosos, transporta para o sistema de saúde um conjunto vasto de desafios, multissetoriais, complexos de organizar em respostas prontas e eficazes.

Com o aumento da idade, acresce o peso das doenças crónicas e suas complicações, assim como a vulnerabilidade e incapacidades várias, condições de predisposição à maior dependência dos cuidados de saúde. Na consulta de MGF, os profissionais reconhecem a complexidade clínica crescente da gestão da saúde do idoso, além da maior procura dos cuidados assistenciais por esta faixa etária. Na minha opinião, é requerida a evolução e adaptação do sistema de cuidados e da forma como são prestados, em articulação multiprofissional e com prestadores sociais e da comunidade, de forma a assegurar equidade na acessibilidade, continuidade, proximidade e monitorização a um grupo muito heterogéneo nas suas necessidades e com graus variáveis de incapacidade, física e mental.

Qual o papel do MF na abordagem do doente idoso?

A abordagem da pessoa idosa pelo MF é essencialmente oportunista, com identificação de fatores de risco e ação reparadora nas intercorrências, de caráter sempre, multidimensional e globalizante, com o objetivo maior da manutenção da funcionalidade, a base da saúde das pessoas mais velhas.

Que trabalho tem desenvolvido o GESI no sentido de melhorar a prestação dos cuidados ao doente idoso?

O Grupo de Estudos de Saúde do Idoso da APMGF – congregando médicos de MGF com interesse particular nesta fase da vida – tem essencialmente dinamizado atividades de caráter técnico-científico para profissionais de saúde, assim como diversas iniciativas de educação para a população.  No conjunto das suas ações, pretende sensibilizar para a especificidade das necessidades de saúde dos mais velhos, a par da divulgação de boas práticas de acordo com a melhor evidência, de forma a que nos locais onde se prestam cuidados a idosos se possam introduzir melhorias organizacionais e operacionais, em prol da melhoria da sua qualidade assistencial e resultados.

Em que consiste o Guia de Avaliação Geriátrica, elaborado pelo GESI e apresentado no 38.º Encontro Nacional de MGF? Considera que se reveste de particular relevância no atual contexto pandémico?

O Guia de Avaliação Geriátrica Global (pocket card) é um documento-resumo, elaborado para apoio à consulta da pessoa idosa, de forma a operacionalizar a avaliação multidimensional, facilitando a identificação de problemas de saúde menos aparentes (mas com risco) e a elaboração atempada de plano de cuidados, com preservação da funcionalidade e prevenção de desfechos adversos.

Apesar de ser um projeto do GESI já com algum tempo, apenas agora foi concluído. Na época atual assume particular importância, na medida em que o confinamento, a par da interrupção dos cuidados de saúde regulares, resultou com frequência em declínio do nível de saúde dos nossos idosos e na retoma da assistência médica, as queixas se avolumam, mas nem sempre são diagnósticas da sua causa.

Doença crónica, multipatologia, polimedicação, síndrome de fragilidade… Como resolver este círculo vicioso, dando mais vida aos anos e não apenas mais anos à vida?

O ciclo assim é, mas não inevitável… O processo de envelhecimento é inexorável e implica algumas perdas, mas não significa doença, no sentido de sofrimento e incapacidade. O conhecimento científico enfatiza a oportunidade da prática de estilos de vida saudável como alavanca para um processo de envelhecimento bem-sucedido. O MF, com o seu envolvimento ao longo do ciclo de vida, tem oportunidade atempada de promover este objetivo, desafiando a pessoa a comportamentos adequados, sensibilizando para os desafios que a idade implica e o reconhecimento precoce de fatores desencadeantes de doença, e sua correção, permitindo a conservação da funcionalidade e vida autónoma.

 

O impacto da pandemia nos idosos é inegável. “Em que estado” estão os idosos a voltar às consultas nos cuidados de saúde primários (CSP)?

Os idosos regressam à consulta, no geral, com maior número de sintomas e incapacidades, pior adesão terapêutica e, com frequência, alguma resistência em retomar hábitos anteriores, nomeadamente os que implicam a frequência de espaços públicos. Acrescem ainda os novos diagnósticos de doença oncológica em fases mais avançadas, por omissão de procura de cuidados mais atempados.

Que estratégias considera que podem ser implementadas no sentido de responder ao desafio demográfico do envelhecimento populacional, no domínio da Saúde?

Em termos gerais, e na minha opinião, deverão cada vez mais passar pela diferenciação técnico-científica dos prestadores de cuidados por equipas multidisciplinares, garantindo resposta efetiva à complexidade das necessidades, e em integração com recursos de proximidade das pessoas com algum grau de dependência, de modo por um lado a evitar a sua fragmentação.

A literacia da população em saúde é também uma dimensão deste desafio ainda com um longo percurso a percorrer, que pode e deve ser assumida por outros atores além dos médicos e enfermeiros.

No seu entender, qual a importância de se assinalarem efemérides como o Dia Mundial do Idoso?

Naturalmente importante, não apenas pela celebração da conquista de uma vida longa, mas também pela valorização da pessoa idosa pela sociedade, numa altura da sua vida em que muitas experiências e crenças a levam a viver os anos com perdas, limitação e exclusão. O reconhecimento, com respeito e admiração, do que “chegar a velho” significa, nem que seja um dia por ano apenas, é devido, oportuno e merecido. É preciso desmistificar o processo do envelhecimento e dissociá-lo de valor negativo. Hoje, pode parecer-nos distante, mas todos nós estamos a envelhecer e vamos querer que aconteça para nós, incluso, de forma digna e com qualidade de vida.

SO

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