6 Mar, 2025

DGS avança com medidas para obesidade que afeta um em cada quatro adultos

A Direção-Geral da Saúde (DGS) lançou um conjunto de medidas para acelerar a prevenção e o controlo da obesidade, um dos principais problemas de saúde pública, que afeta mais de um em cada quatro adultos em Portugal.

DGS avança com medidas para obesidade que afeta um em cada quatro adultos

No Dia Mundial da Obesidade, que se assinalou no dia 4 de março, a DGS avançou com o “Roteiro de Ação para Acelerar a Prevenção e Controlo da Obesidade em Portugal”, que prevê 10 medidas em várias áreas para os próximos três anos.

Segundo os dados agora divulgados, a obesidade afeta 28,7% dos adultos portugueses, com mais de dois terços da população a apresentar excesso de peso (67,6%). Os dados de 2022 indicam que a obesidade infantil atinge também proporções elevadas em Portugal, com a prevalência de excesso de peso a atingir os 31,9%, sendo que 13,5% das crianças dos 6 aos 8 anos vivem com obesidade. Esta elevada prevalência e os fatores de risco modificáveis, como a alimentação inadequada e a inatividade física, têm contribuído para a “desaceleração ou até reversão dos avanços em saúde” registados nas últimas décadas, salientou a DGS, ao alertar que esse impacto tem sido visível em indicadores de saúde materno-infantil e da esperança média de vida.

De acordo com o roteiro, apesar das medidas de prevenção já implementadas em Portugal, as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, este ano, nenhum país europeu está em condições de alcançar a meta relativa ao não crescimento da obesidade. “Este cenário mostra a necessidade de intensificar os esforços nesta área da prevenção e controlo da obesidade”, justificou a DGS, adiantando que foi neste contexto que Portugal aderiu ao Acceleration Plan to STOP Obesity, uma iniciativa da OMS que reúne um conjunto de países ao nível global.

Na prática, o roteiro prevê ações para melhorar a saúde nos primeiros 1.000 dias de vida, através da promoção do aleitamento materno e do desenvolvimento e digitalização de modelos de aconselhamento materno-infantil para a alimentação saudável. Nas creches, escolas e universidades, será fortalecida a promoção da alimentação saudável e da atividade física, adiantou a DGS, que pretende ainda estabelecer critérios para as compras públicas alimentares e orientações para a oferta alimentar em diversos estabelecimentos, como as creches.

Além de reforçar a prevenção da obesidade nos cuidados de saúde primários, com o aconselhamento para a atividade física e alimentação saudável, o plano estabelece ainda mecanismos de apoio à implementação do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, através da criação de Centros de Responsabilidade Integrada para o Tratamento Não Cirúrgico da Obesidade. Está também prevista a capacitação dos municípios para a promoção da alimentação saudável e da atividade física, com o reforço dos mecanismos de apoio técnico e de financiamento, que poderá ser assegurado com contratos-programa com o Ministério da Saúde.

De acordo com o documento, a obesidade tem um impacto significativo na carga da doença da população portuguesa, sendo o segundo fator de risco que mais contribui para a perda de anos de vida saudáveis. Apresenta ainda, segundo os dados da DGS, um impacto económico relevante, com os seus custos a representarem 10% da despesa total em saúde, 207 euros per capita por ano e 3% do produto interno bruto (PIB) nacional. Cada euro investido na prevenção da obesidade promove um retorno de até seis euros, adianta o roteiro, que, com as novas medidas, pretende contribuir para atingir as metas definidas para 2030, no âmbito do Plano Nacional de Saúde e dos programas prioritários de saúde para a alimentação saudável e atividade física.

Cinco entidades ligadas à obesidade, diabetes e cardiologia apelaram também para um combate “urgente e eficaz” à “epidemia da obesidade”, com mudanças no sistema de saúde, lembrando que se trata de uma doença e não culpa da pessoa.

Num comunicado conjunto, a Plataforma Recalibrar a Balança, que envolve a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), a ADEXO – Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade, a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), a Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) e a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), lembra que tratar a obesidade é “prevenir o desenvolvimento de muitas outras doenças crónicas” e “salvar vidas”.

Em declarações à Lusa, no Dia Mundial da Obesidade, José Silva Nunes, presidente da SPEO, lembrou que há 20 anos Portugal foi pioneiro no reconhecimento da obesidade como doença, mas “apenas no papel”. “Há um tratamento discriminatório da obesidade relativamente às outras doenças crónicas, nomeadamente, àquelas não transmissíveis, em que o estilo de vida também pode ter o seu contributo”, considerou o responsável, lembrando: “Ninguém questiona se se deve ou não tratar uma pessoa com hipertensão. Não se questiona se se deve ou não tratar uma pessoa com dislipidemia – com alteração dos níveis de gordura no sangue – ou com diabetes, mas questiona-se se se deve tratar uma pessoa com obesidade” lamentou.

José Silva Nunes deu conta que 20 anos depois “grande parte da sociedade” continua a não reconhecer a obesidade como uma doença” e lamentou que o problema parta do sistema de saúde. “Muitos profissionais também não reconhecem a obesidade como uma doença”, precisou.

O responsável lembrou que a obesidade é fator de risco para muitas outras doenças e disse que, para a diabetes, “é a ligação mais forte”, contribuindo para cerca de 80% dos casos. “Portanto, se nós conseguíssemos erradicar a obesidade, teríamos menos 80% dos casos de diabetes, que é também uma outra pandemia”, afirmou.

Recordando que foram “muitos anos” de uma narrativa que consistia em ver a obesidade como um problema de falta de motivação e de força de vontade em que as pessoas tinham obesidade porque tinham um estilo de vida erróneo, sublinhou que hoje se sabe que “há um fundo genético” que condiciona um aumento do risco para desenvolver obesidade que pode chegar aos 70%. “A pessoa que tem o azar de ter uma ‘má genética’, no fundo, vai passar a vida toda a lutar contra a sua natureza”, acrescentou.

No documento conjunto, a plataforma Recalibrar a Balança apela a uma mudança no sistema de saúde, que comece pela publicação do Processo Assistencial Integrado (PAI) para a Prevenção e Tratamento da Obesidade, que define o percurso da pessoa com esta doença no Serviço Nacional de Saúde (SNS). “Sem uma definição de como é que deve ser o seguimento da pessoa com a obesidade, no fundo, cada um faz como acha que deve fazer ou não faz absolutamente nada”, afirma.

As organizações pedem igualmente que se criem ferramentas no SNS para incentivar uma adequada gestão das pessoas com obesidade e que seja acautelado o acesso. “Um acesso atempado, mas também equitativo”, referiu Silva Nunes, frisando que “hoje há uma iniquidade social e quem tem dinheiro consegue comprar os fármacos, mas quem não tem não consegue”.

O responsável disse que a farmacoterapia é, atualmente, reconhecida como um “pilar fundamental” do tratamento da obesidade – a par das mudanças no estilo de vida (exercício e alimentação) e, nos casos elegíveis, da cirurgia.

Para José Silva Nunes, a narrativa de que apenas com dieta e exercício se consegue tratar a pessoa é, hoje em dia, “pura ficção”. “Consegue-se, eventualmente, que durante um curto período de tempo a pessoa consiga reduzir o seu peso, mas depois a natureza fala por si e há um reganho total desse peso perdido”, explicou.

O quarto e último fator apontado pela plataforma é a concretização do programa prioritário para o combate e controle da obesidade, que estava previsto no Plano de Emergência e Transformação de Saúde e que “ainda não saiu do papel”.

Atualmente, a prevalência da obesidade em Portugal é uma das mais altas da Europa, com quase 29% dos portugueses entre os 25 e os 74 anos a viver com a doença.

 

LUSA

Notícia relacionada

Associação Protetora dos Diabéticos pede mudanças urgentes no tratamento da obesidade

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais