20 Mai, 2021

Cancro. Centros portugueses aplicam medicina de precisão mas têm falta de recursos

Portugal “acompanha a evolução da medicina moderna” na área do cancro mas subsistem dificuldades como a carência de recursos humanos e o acesso a tecnologias de ponta, admite o diretor clínico da Fundação Champalimaud, instituição que se encontra na ‘onda da frente’ dos tratamentos inovadores nesta área.

Em que ponto está a aplicação da medicina de precisão em Portugal?

A medicina de precisão tem-se tornada cada vez mais necessária no tratamento de muitas doenças, nomeadamente na área do cancro. A medicina deve ser feita centrada no doente e lidando com as características particulares de cada pessoa. No que diz respeito à oncologia, isto ainda se torna mais importante. Os cancros são heterogéneos e essa heterogeneidade é reforçada pela interação entre as células cancerosas e o microambiente particular de cada doente. À medida que se tornam acessíveis tratamentos mais dirigidos, isso reforça a noção de personalizar o tratamento.

No que diz respeito a Portugal, eu diria que estamos a acompanhar a evolução da medicina moderna de uma forma paralela à vasta maioria dos países desenvolvidos. Na maior parte dos centros onde faz oncológicos, tem havido uma tendência para seguir a medicina de precisão. A generalidade dos doentes oncológicos tem acesso a todos os medicamentos disponíveis.

Em Portugal, em que tipos de cancros já usada a medicina de precisão atualmente?

O diagnóstico de muitos tipos de cancro já não é só baseado na biópsia. Muitos casos têm de ser caracterizados por determinadas subtilezas de expressão genética ou anomalias genéticas das células. Esta diferenciação induz a necessidade de fazer tratamentos diferentes. Isto passa-se com o cancro da mama, com o cancro do pulmão, com os cancros digestivos, com os cancros hematológicos.

 

Regra geral, as equipas médicas em Portugal já fazem a diferenciação genética do cancro, de modo a personalizar o tratamento?

Sim, a vasta maioria dos centros oncológicos portugueses estudam a caracterização molecular do cancro. Em paralelo com o conhecimento acumulado na área do diagnóstico, há também um enorme progresso no desenvolvimento de novos medicamentos. Isto faz com o que o panorama de evolução de cancro seja muito diferente daquele que era há 40 anos.

Desse modo, podemos concluir que foi feito um investimento na medicina de precisão em Portugal nos últimos anos?

Sim, sem dúvida.

Considera que esse investimento é suficiente?

Nunca é suficiente. O investimento em ciência é fundamental. Portugal não se compara com outros países europeus no que diz respeito à alocação de recursos em ciência e na sua aplicação nos cuidados médicos. O investimento continua a ser pequeno.

Os centros oncológicos em Portugal têm experiência para praticar uma medicina moderna mas enfrentam dificuldades, quer em termos de recursos humanos quer em termos de acesso a tecnologias de ponta. Generalizar a realização de exames mais caros, por exemplo, implica investimento e dedicação.

Há limitações orçamentais que impedem que Portugal avance mais nesta área?

Eu sempre vivi na circunstancia de não termos os recursos necessários para enfrentar os desafios que temos pela frente. Na oncologia, sempre tivemos a noção de que havia necessidade de termos mais recursos para podermos responder de forma mais eficaz. Nunca tivemos excesso de nada.

Neste contexto, onde se posiciona a Fundação Champalimaud? É uma instituição que está na vanguarda do tratamento do cancro?

Estamos orientados numa lógica de prestação de cuidados clínicos focados em inovação, quer nas áreas de diagnóstico quer nas áreas de aplicação terapêutica. A nossa missão é fazer investigação. As nossas equipas estão focadas na aplicação da inovação aos doentes tão cedo quanto possível. É um cenário que não é igual ao das instituições públicas.

A Fundação Champalimaud realiza tratamentos que não são feitos em mais nenhum centro em Portugal?

Nalgumas áreas sim. Estamos na onda da frente de tratamentos inovadores que ainda estão acessíveis a outras instituições. Posso citar, por exemplo, tratamentos em radioterapia de alta precisão, soluções de cirurgias inovadoras (como a cirurgia robótica), tratamentos medicamentosos dos mais avançados que existem no mundo.

Procuramos também desenvolver ensaios clínicos numa série de cancros (mama, pulmão, hematológico). Em oncologia, os ensaios são particularmente importantes porque podem proporcionar aos doentes o acesso a medicamentos que ainda não estão no circuito normal de utilização clínica.

Acredita que poderemos atingir um ponto em que todos os cancros serão curáveis?

Acho que não. O cancro é uma doença muito complexa e que resulta de anomalias nas nossas próprias células. Tem por isso um tratamento complicado quando comparado, por exemplo, com infeções – que são causadas por um agente externo e que podemos eliminar com um antibiótico.

No entanto, os progressos no controlo do cancro são muitos e a proporção de doentes que podem beneficiar de tratamentos curativos tem vindo a aumentar. Isso faz-se, essencialmente, à custa do diagnóstico precoce e dos rastreios. Por outro lado, conseguimos, mesmo nos doentes que não têm essa oportunidade, ter tratamentos eficazes.

Genericamente, a sobrevivência na área do cancro é calculada aos cinco anos, ou seja, considera-se que um cancro está curado se estiver cinco anos sem doença. No entanto, isso esta em grande discussão e fará sentido termos de perspetivar os resultados terapêuticos com 10, 15 ou mesmo 20 anos de diferença sobre o diagnóstico.

TC/SO

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