2 Fev, 2022

Atlas ibérico do cancro. Portugal melhor que Espanha no pulmão e pior no cancro da próstata

Estudo analisou dados relativos aos cancros de esófago, estômago, colorretal, pâncreas, laringe, pulmão, mama, próstata, bexiga e leucemia nos dois países. Veja os mapas.

Na foto, dados relativos ao risco e probabilidade de morte por cancro da próstata

 

Um Estudo, o Atlas da Mortalidade por Cancro em Portugal e Espanha 2003-2012 realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e pelo Instituto de Saúde Carlos III (em Espanha), comparou as taxas de mortalidade por vários tipos de cancro nos dois países, através de manchas geográficas que revelam se a mortalidade causada por um certo cancro é superior ou inferior ao esperado em cada concelho da Península Ibérica.

Portugal e Espanha têm “fatores de risco comuns” no que respeita à mortalidade causada por alguns dos principais cancros, conclui o estudo ibérico, que analisou dados relativos aos cancros de esófago, estômago, colorretal, pâncreas, laringe, pulmão, mama feminina, próstata, bexiga e leucemia.

Em declarações à Lusa, Carlos Dias, coordenador do Departamento de Epidemiologia do INSA e um dos autores do estudo, assinalou que “o Atlas não se foca diretamente sobre os fatores de risco”, mas olha “para a mortalidade por cancro em Portugal e Espanha ao nível dos municípios”, para “calcular se, comparativamente ao que seria de esperar, a mortalidade num determinado município está acima ou abaixo”.

Isso permite “lançar hipóteses sobre os fatores de risco que poderão estar subjacentes” à distribuição observada, realça o especialista.

Dados relativos ao cancro do esófago

 

Por exemplo, há uma mortalidade acima do esperado por cancro do esófago no Norte de Portugal e Espanha, enquanto nas regiões Sul isso se verifica para o cancro da laringe.

Em ambos os casos, o Atlas permite dizer que “essa diferença se reflete tanto em Portugal como Espanha, não respeita fronteiras”, evidenciando “fatores que são comuns”, assinalou Carlos Dias.

Outro exemplo: há uma mortalidade do cancro da laringe superior ao esperado nos homens – mas não nas mulheres – no Sul da Península, o que indicia “um papel para a exposição ao fumo do tabaco e ao consumo de álcool, que se verifica tanto em Portugal como em Espanha, que são dois conhecidos fatores de risco”, adiantou.

Outros cancros exibem padrões diferentes. Por exemplo, a mortalidade por cancro de estômago “é muito superior ao esperado em Portugal do que na generalidade de Espanha”, o que abre caminho a outros fatores, “de comportamento, estilos de vida, acesso aos cuidados de saúde, que são diferentes” nos dois países.

O importante é que, observadas as “manchas” do risco de morte por cancro na Península Ibérica, se abrem “pistas para investigação” futura, disse o coordenador do Departamento de Epidemiologia do INSA.

 

Dados relativos ao cancro do pulmão

 

Segundo o estudo, o cancro mais mortífero em ambos os países é o do pulmão, com incidência e mortalidade superiores nos homens. Porém, enquanto em Espanha se verifica uma tendência de diminuição nos homens e uma subida nas mulheres, em Portugal a tendência de aumento persiste em ambos os sexos desde 2001. Ainda assim, a mortalidade por cancro do pulmão em Espanha continua a ser proporcionalmente superior à de Portugal.

Tendo por referência o ano de 2018, e ambos os sexos no seu conjunto, o cancro colorretal foi o mais diagnosticado tanto em Portugal como em Espanha — e o segundo mais mortal (mais nos homens do que nas mulheres).

Se tivermos por referência apenas os homens, então o cancro da próstata foi o mais diagnosticado em ambos os países – e o terceiro mais mortal. Contudo, no caso deste cancro, Portugal apresenta taxas muito mais elevadas de risco e mortalidade.

 

Dados da mortalidade esperada relativos ao cancro da mama

 

Exclusivamente nas mulheres, o cancro da mama é o de maior incidência em Portugal e o que mais novos casos registou em Espanha em 2018. Em ambos os países, é o segundo cancro mais mortal para as mulheres.

A publicação deste estudo sofreu algum atraso, em parte devido à pandemia de covid-19, que mobilizou “quase totalmente” as equipas de investigação nos dois países, disse Carlos Dias, adiantando que a necessidade de ajustar metodologias e homogeneizar dados explicam o intervalo 2003-2012.

Dados da mortalidade esperada relativos ao cancro do estômago

 

Os dados de mortalidade específicos por causa são muito mais demorados do que os da mortalidade geral, acrescentou Carlos Dias, sublinhando que “os padrões de distribuição [do cancro] não se alteram de um ano para o outro” e, portanto, “não perdem atualidade num espaço de cinco, dez anos”, porque a doença revela “uma relativa tendência”.

SO/LUSA

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