Alterações na função tiroideia na gravidez e pós-parto: o papel da Medicina Geral e Familiar
Médica assistente de Medicina Geral e Familiar, ULS Santa Maria (Lisboa); Membro Grupo Estudos de Saúde da Mulher APMGF

A gravidez e o período pós-parto estão associados a alterações fisiológicas significativas da função tiroideia, colocando desafios diagnósticos e terapêuticos e exigindo um acompanhamento próximo, contínuo e centrado na pessoa. O aumento da hCG, sobretudo no 1.º trimestre, conduz a uma estimulação transitória do recetor da TSH, resultando numa redução fisiológica da TSH e, por vezes, num aumento discreto da tiroxina livre.
O aumento dos estrogénios promove a elevação da globulina ligante da tiroxina, alterando os valores laboratoriais habituais. Estas alterações tornam fundamental a utilização de valores de referência específicos por trimestre, evitando situações de sobre ou subdiagnóstico.
O hipotiroidismo é a disfunção tiroideia mais frequente na gravidez, sendo a tiroidite autoimune (tiroidite de Hashimoto) a principal causa. O hipotiroidismo não tratado associa-se a maior risco de abortos espontâneos; pré-eclâmpsia; parto pré-termo; baixo peso ao nascer e défices no desenvolvimento neurocognitivo da criança.
Apesar disso, permanece subdiagnosticado, sobretudo as suas formas subclínicas. O debate sobre o rastreio universal versus rastreio dirigido mantém-se atual, mas a prática clínica demonstra que muitas mulheres com fatores de risco não são identificadas atempadamente. O médico de família, pela sua proximidade e acompanhamento longitudinal, encontra-se numa posição privilegiada para poder identificar de forma precoce as mulheres com fatores de risco (idade >30 anos, história pessoal ou familiar de doença tiroideia, doenças autoimunes, obesidade, infertilidade, abortos de repetição) ou sintomatologia sugestiva, solicitando avaliação da função tiroideia; realizar o ajuste precoce da terapêutica com levotiroxina em grávidas com hipotiroidismo conhecido e que engravidam (sabemos que podemos aumentar logo a dose de levotiroxina, pois as necessidades tiroideias aumentam) e monitorizar a TSH ao longo da gravidez, em articulação com os cuidados hospitalares.
O hipertiroidismo é menos frequente, sendo a doença de Graves a causa mais comum, podendo também ocorrer hipertiroidismo transitório no 1.º trimestre associado a hCG. O correto diagnóstico diferencial entre alterações fisiológicas e patológicas é essencial, devendo existir referenciação precoce sempre que haja suspeita clínica.
Também no período pós-parto, a avaliação da função tiroideia deve ser realizada. A tiroidite pós-parto, de provável etiologia autoimune, é frequentemente subdiagnosticada devido à sobreposição dos seus sintomas com as alterações do puerpério.
Para além do diagnóstico e tratamento, o médico de família tem um papel central na educação para a saúde e na articulação de cuidados. Porém, existe ainda potencial de melhoria, devendo o médico de família assumir um papel mais assertivo e precoce no diagnóstico e tratamento de eventuais disfunções tiroideias, evitando muitas vezes a inércia terapêutica que ainda persiste com potencial impacto nos outcomes materno-infantis.
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