19 Nov, 2025

Algoritmos da OMS podem duplicar número de crianças diagnosticadas com tuberculose e tratadas

Os algoritmos da OMS, que são sistemas de pontuação orientados, permitem aos médicos iniciar o tratamento para a tuberculose em crianças com sintomas claros da doença, mesmo na ausência de testes laboratoriais ou quando os resultados dos testes são negativos.

Algoritmos da OMS podem duplicar número de crianças diagnosticadas com tuberculose e tratadas

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou para falhas significativas no diagnóstico de tuberculose (TB) em crianças, sublinhando que a adoção dos algoritmos de diagnóstico recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) poderia quase duplicar o número de doentes identificados e, consequentemente, salvar muitas vidas.

Num comunicado divulgado, a MSF revela os resultados de uma investigação realizada que confirma que a utilização dos algoritmos da OMS para o diagnóstico de tuberculose em crianças pode “aumentar significativamente o número de crianças que podem iniciar um tratamento que salva vidas”. A organização apela a uma ação urgente dos decisores políticos, instando-os a implementar estas diretrizes nos seus países e a garantir o fornecimento contínuo de medicamentos essenciais para evitar a falta de stock.

“Todas as crianças com tuberculose devem ter acesso ao tratamento necessário para lhes salvar a vida”, afirmou a MSF, sublinhando que a tuberculose é uma das doenças infecciosas mais mortais do mundo. Estima-se que, em 2024, cerca de 1,2 milhões de crianças e adolescentes menores de 15 anos terão sido diagnosticados com TB, sendo que a doença mata uma criança a cada três minutos.

A organização ressalta que os testes laboratoriais atuais, projetados principalmente para adultos, são ineficazes no diagnóstico da tuberculose em crianças. “A maioria dos testes exige uma amostra de expetoração, que as crianças têm dificuldade em produzir. Mesmo quando conseguem, os baixos níveis bacterianos nos seus pulmões dificultam a deteção nos testes laboratoriais”, explicou a MSF.

Os algoritmos da OMS, que são sistemas de pontuação orientados, permitem aos médicos iniciar o tratamento para a tuberculose em crianças com sintomas claros da doença, mesmo na ausência de testes laboratoriais ou quando os resultados dos testes são negativos. Esta abordagem poderia, segundo a MSF, aumentar significativamente o número de diagnósticos precoces e salvar muitas mais vidas.

A investigação TACTiC (Test, Avoid, Cure Tuberculosis in Children), que decorreu entre agosto de 2023 e outubro de 2025 em cinco países africanos – Guiné, Níger, Nigéria, Sudão do Sul e Uganda – testou a eficácia destes algoritmos em 1.846 crianças com menos de 10 anos, incluindo aquelas com desnutrição aguda grave e crianças vivendo com o VIH. Os resultados mostraram que a utilização dos algoritmos da OMS permitiu identificar corretamente a maioria das crianças com tuberculose e duplicar, em média, a proporção de crianças que puderam iniciar o tratamento.

“Antes, os profissionais de saúde confiavam principalmente na tosse para diagnosticar a tuberculose. Mas, como muitas crianças não apresentam tosse, eram muitas vezes diagnosticadas erroneamente”, afirmou Angeline Dore, participante no estudo TACTiC na Guiné. “Agora, com os algoritmos da OMS, sabemos que não devemos depender apenas da tosse. Existem outros sinais da doença que devemos considerar.”

A OMS reviu em 2022 as suas orientações para o diagnóstico, tratamento e prevenção da tuberculose em crianças, com base na ciência mais recente. No entanto, muitos países ainda não implementaram estas novas diretrizes, o que tem levado à subnotificação e ao tratamento inadequado de muitas crianças com tuberculose.

De acordo com o último relatório da OMS sobre a tuberculose, divulgado na semana passada, 43% das crianças com tuberculose não foram diagnosticadas em 2024 e, como resultado, não tiveram acesso ao tratamento que poderia salvar as suas vidas. “Muitas crianças com tuberculose continuam a passar despercebidas devido à falta de ferramentas de diagnóstico eficazes”, afirmou Helena Huerga, investigadora principal do estudo TACTiC. “Os nossos resultados demonstram que os algoritmos da OMS funcionam em contextos reais e podem salvar muitas mais vidas de crianças se forem implementados. O que falta agora é a vontade política para pôr estas diretrizes em prática”, concluiu.

Os dados do estudo estão a ser apresentados na Conferência Mundial sobre Saúde Pulmonar, que está a decorrer até sexta-feira em Copenhaga, na Dinamarca.

SO/LUSA

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