Executive Board Member da Glintt

A importância da telemedicina no contexto de pandemia

A pandemia do novo coronavírus tem causado enormes transformações nas relações sociais em todo o mundo. Em confinamento, muitas pessoas estão a descobrir como é que as ferramentas digitais podem, de facto, ajudar a manterem-se contactáveis sem se exporem à Covid-19, tanto em relação ao contexto de trabalho, ao funcionamento de aulas, como a manterem-se em contacto com familiares e amigos – tudo isso tem sido feito online, de forma a incentivar as pessoas a cumprir as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), no que ao distanciamento físico, diz respeito.

Relativamente aos cuidados de saúde, o cenário também não é assim tão diferente. Embora esta crise tenha colocado uma enorme pressão nos sistemas de saúde europeus, os esforços conjuntos para acelerarem a rápida transformação do setor têm sido muitos, assim como se tem dado primazia à implementação de ferramentas digitais para enfrentar os desafios provocados por esta pandemia, na qual ainda muito pouco se conhece.

No início do aparecimento deste vírus, a OMS e o Ministério da Saúde definiram o isolamento social como uma das medidas mais eficazes para impedir que o número de infetados aumentasse. Desta forma muitos dos serviços presenciais e programados foram adiados e cancelados. Perante este contexto, tornou-se urgente implementar novas soluções que possibilitassem continuar a prestar cuidados de saúde mesmo que à distância.

Desta forma, é aqui que surge o eHealth e um caso particular a Telemedicina e a Telemonitorização enquanto potenciais alternativas para o sistema de saúde. Ainda que estas ferramentas não sejam exatamente uma novidade, não era até agora uma prática tão recorrente quanto se gostaria. Portugal enfrenta, atualmente, ainda alguns desafios em relação a um maior desenvolvimento neste campo. Apesar de 87% dos hospitais públicos recorrerem à telemedicina – de acordo com uma pesquisa realizada – apenas 44% dos profissionais de saúde estão, realmente, motivados para a sua utilização, segundo o Barómetro de IA e Telessaúde, desenvolvido pela Glintt em conjunto com a APAH. Além disso, ainda existe uma visível falta de know-how e de infraestruturas de TI adequadas nesta valência. Porém, e se antes já se tinha identificado que 64% dos consumidores afirmavam que era conveniente ter acesso à saúde virtual, agora, mais do que nunca, faz todo o sentido o desenvolvimento e adoção de soluções digitais neste setor.

Tendo em conta, a alta taxa de transmissão deste vírus, é assim essencial que se otimize a assistência à saúde e se crie novos modelos de assistência populacional. Neste contexto, a telemedicina e telemonitorização podem ser, sem dúvida, fortes aliados dos sistemas de saúde, principalmente quando se considera a importância da quarentena e da necessidade de não sobrecarregar os hospitais e outras entidades de saúde.

Apesar das exigências colocadas, o sistema nacional de saúde está a conseguir mudar rapidamente. E vários são já os exemplos implementados: médicos, enfermeiros, farmacêuticos e psicólogos, e nutricionistas que, de forma rápida, se reinventaram e estão a dar as suas consultas online. Nas redes sociais, vários são os profissionais de saúde que se oferecem para tirar dúvidas sobre a covid-19, a mais de 27 mil “utentes” com o intuito de diminuir o peso na linha SNS24. Por outro lado, também foi criado um novo sistema online de triagem no site do SNS, específico para a doença e grupos de médicos voluntários que estão a prestar apoio gratuito à população, quer por email, telefone ou videochamada, em várias áreas da saúde.

De acordo com um estudo realizado pela NYU Langone Health (NYULH) – um enorme sistema académico de saúde na cidade de Nova York, 8.077 profissionais de saúde em 4 hospitais e mais de 500 unidades ambulatoriais, todos interligados por um único sistema eletrónico de registo de assistência médica, verificou que entre 2 de março e 14 de abril de 2020, as visitas de telemedicina aumentaram de 369,1 para 866,8 diárias (aumento de 135%) em atendimento de urgência, após a integração de todo o sistema de saúde de visitas virtuais face ao COVID-19 e de 94,7 diárias para 4209,3 (4345 % de aumento) nos cuidados não urgentes após a expansão. Este estudo refere ainda que de todas as visitas virtuais, após a expansão deste serviço, 56,2% e 17,6% das visitas urgentes e não urgentes, respetivamente, foram relacionadas com a COVID-19.

Por outro lado, os regulamentos de telemedicina preexistentes também permitiram que os médicos de cuidados primários do hospital mudassem as consultas presenciais agendadas com pacientes conhecidos para as teleconsultas reembolsadas, quando adequado. Esse modelo foi assim, posteriormente, implementado no maior hospital público académico (AP-HP) de Paris, de forma a incentivar o uso em massa de teleconsultas ambulatoriais para reduzir as visitas de pacientes ao hospital. De acordo com outro estudo da NCBI, entre 23 e 29 de março, na segunda semana de confinamento, 486.369 teleconsultas foram realizadas, representando cerca de 11% de todas as consultas da semana.

Para garantir a sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde, cada país deve garantir que a saúde é hoje e no futuro suportada por tecnologias de informação que facilitem a jornada de cada pessoa e de cada profissional nas unidades de Saúde e fora delas.

As ferramentas de ehealth (telemedicina, telemonitorização, IA, …) vieram claramente para ficar muito para além da pandemia atual de COVID-19. Com um crescente interesse e disponibilidade entre médicos, consumidores e pagadores, é o momento de estimular e garantir a continuidade destas tecnologias no ecossistema alargado da saúde. Como referiu Robert Schuller, Tough Times Never Last, but Tough People Do.

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