3 Nov, 2026

“O SNS dispõe de profissionais altamente qualificados, mas continua a existir uma insuficiência de psicólogos face às necessidades da população”

O papel dos psicólogos é cada vez mais relevante numa sociedade onde tem aumentado a procura por cuidados psicológicos e quando se assiste à evolução de práticas de intervenção. Raíssa Santos, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicoterapia e coordenadora do livro “Borderline - Dos Casos Clínicos às Estratégias Terapêuticas” fala, entre outros, da necessidade de haver mais psicólogos no Serviço Nacional de Saúde. A autora foi uma das oradoras do primeiro seminário da PACTOR Editora, dedicado ao tema “Saúde Mental – Novos Desafios para a Psicologia”, que decorreu no passado dia 30 de outubro.

“O SNS dispõe de profissionais altamente qualificados, mas continua a existir uma insuficiência de psicólogos face às necessidades da população”

Quais são os principais desafios da Psicologia Clínica e da Saúde?

Diria que um dos principais desafios é conseguirmos responder a uma procura crescente de cuidados psicológicos, garantindo simultaneamente qualidade, equidade e continuidade dos cuidados. Hoje existe maior literacia em saúde mental e maior disponibilidade para procurar ajuda, o que é muito positivo, mas os serviços nem sempre têm capacidade para responder atempadamente.

Há ainda desafios relacionados com a prevenção e a intervenção precoce. Continuamos, muitas vezes, a intervir quando o sofrimento psicológico já é significativo. Precisamos de investir mais na promoção da saúde e na prevenção, ao longo de todo o ciclo de vida, e de integrar de forma mais consistente a dimensão psicológica nos diferentes contextos de saúde.

 

Quais os problemas mais prevalentes e que mais preocupam os psicólogos?

As perturbações de ansiedade e depressivas continuam a assumir particular relevância, mas preocupa-nos também o aumento do sofrimento psicológico associado à solidão, ao stress, à precariedade e às dificuldades de conciliação entre as várias dimensões da vida. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de uma em cada seis pessoas na região europeia viva com uma condição de saúde mental.

Merecem igualmente particular atenção as crianças e os jovens, bem como as pessoas em situações de maior vulnerabilidade social ou com doença crónica. E não podemos esquecer os problemas de saúde mental grave: em Portugal, estima-se que cerca de 4% da população adulta viva com doença mental grave. 

“Temos hoje intervenções psicológicas eficazes para diferentes problemas e níveis de gravidade, incluindo intervenções estruturadas e breves. Ao mesmo tempo, a tecnologia abriu novas possibilidades”

Como vê a situação dos profissionais que trabalham no SNS e de que forma se pode tornar o SNS mais atrativo?

O SNS dispõe de profissionais altamente qualificados, mas continua a existir uma insuficiência de psicólogos face às necessidades da população, particularmente nos Cuidados de Saúde Primários. Em 2026, continua, aliás, em discussão o reforço do número de psicólogos e a revisão da respetiva carreira.

Tornar o SNS mais atrativo implica valorizar efetivamente estes profissionais: carreiras que reconheçam a diferenciação e a especialização, remuneração e progressão adequadas, estabilidade contratual, condições para formação contínua e investigação e, muito importante, tempo e condições para realizar trabalho clínico de qualidade. É também fundamental garantir autonomia técnica e uma verdadeira integração da Psicologia nas equipas multidisciplinares.

 

Relativamente à evolução das práticas de intervenção, o que gostaria de destacar?

Destacaria uma evolução muito positiva no sentido de intervenções cada vez mais sustentadas pela evidência científica, mas também mais personalizadas. Não basta perguntar se uma intervenção funciona; importa perceber para quem funciona, em que circunstâncias e através de que mecanismos.

Temos hoje intervenções psicológicas eficazes para diferentes problemas e níveis de gravidade, incluindo intervenções estruturadas e breves. Ao mesmo tempo, a tecnologia abriu novas possibilidades – telepsicologia, intervenções digitais e, mais recentemente, Inteligência Artificial (IA). São oportunidades importantes, desde que utilizadas com critérios científicos, éticos e de segurança e não como substitutos indiscriminados da relação e do julgamento clínico.

“A facilidade com que hoje circula informação permite democratizar o conhecimento, mas também disseminar muito rapidamente desinformação e práticas sem suporte científico. A resposta passa, em primeiro lugar, por aumentar a literacia psicológica da população”

Em termos de acessibilidade, qual o ponto de situação?

Temos ainda um caminho importante a percorrer. O acesso aos cuidados psicológicos continua condicionado pelo local onde se vive, pelos recursos existentes nos serviços públicos e pela capacidade económica para recorrer ao setor privado. A própria distribuição dos recursos não é homogénea no território.  Por isso, aumentar a acessibilidade não significa apenas contratar mais profissionais. Implica reforçar os cuidados de saúde primários, aproximar os cuidados das comunidades, melhorar a articulação entre níveis de cuidados e utilizar, quando adequado, modelos presenciais, remotos e híbridos.

 

O conhecimento científico é cada vez mais importante, sobretudo numa época em que há oferta de pseudociência, inclusive na Psicologia. O que se pode fazer para que as pessoas tenham acesso a cuidados com evidência científica?

Este é um desafio absolutamente central. A facilidade com que hoje circula informação permite democratizar o conhecimento, mas também disseminar muito rapidamente desinformação e práticas sem suporte científico. A resposta passa, em primeiro lugar, por aumentar a literacia psicológica da população: ajudar as pessoas a distinguir uma opinião ou testemunho de evidência científica e a perceber que uma intervenção psicológica deve ser realizada por profissionais devidamente habilitados. Passa também pela responsabilidade das universidades, das ordens profissionais, dos serviços de saúde e dos próprios psicólogos em comunicar ciência de forma clara e acessível.

E inclui ainda uma exigência dentro da própria profissão: formação contínua, pensamento crítico, avaliação sistemática dos resultados das intervenções e atualização das práticas à luz da melhor evidência disponível.

 

Nos próximos anos, o que se pode esperar da Psicologia?

Espero uma Psicologia cada vez mais integrada nos cuidados de saúde e menos centrada exclusivamente na resposta à doença. A Psicologia tem muito a oferecer na prevenção, na promoção da saúde, na mudança de comportamentos, na adesão aos tratamentos, na doença crónica, no envelhecimento, nos cuidados paliativos e na redução das desigualdades em saúde.

Teremos também uma crescente integração das tecnologias digitais e da IA. O desafio será utilizá-las para aumentar o acesso e melhorar os cuidados sem perder aquilo que é essencial: a qualidade da relação terapêutica, a individualização da intervenção, a ética e a supervisão humana.

Acima de tudo, acredito que o futuro passará por uma Psicologia cada vez mais científica, interdisciplinar, preventiva e acessível. O grande objetivo não deve ser apenas termos mais respostas quando as pessoas adoecem, mas conseguirmos criar condições para promover saúde psicológica, identificar precocemente as dificuldades e garantir que, quando alguém precisa de ajuda, encontra uma resposta qualificada e em tempo útil.

Maria João Garcia

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