3 Nov, 2026

Número de médicos dentistas triplicou em 20 anos, mas desigualdades no acesso persistem

O número de médicos dentistas em Portugal quase triplicou nas últimas duas décadas, passando de 5.056 profissionais em 2005 para 13.876 em 2025. No entanto, a concentração destes profissionais nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto continua a contrastar com a escassez registada em regiões do interior, segundo um estudo divulgado pela Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).

Número de médicos dentistas triplicou em 20 anos, mas desigualdades no acesso persistem
O estudo “Os Números da Ordem”, que compara a evolução da profissão entre 2005 e 2025, revela que o crescimento do número de médicos dentistas não foi acompanhado por uma distribuição equilibrada no território nacional, persistindo desigualdades no acesso aos cuidados de saúde oral. “Estamos com um número excessivo de médicos dentistas e temos paralelamente um problema de má colocação e fixação e dispersão destes médicos dentistas no território nacional”, alertou o bastonário da OMD, Miguel Pavão, em declarações à agência Lusa.

De acordo com o relatório, Portugal contabiliza atualmente 16.571 médicos dentistas inscritos na Ordem, dos quais 13.876 têm inscrição ativa e exercem no país. Os restantes apresentam a inscrição suspensa, podendo exercer a profissão no estrangeiro, mas não em Portugal.

As assimetrias regionais são um dos principais problemas identificados no estudo. Na Área Metropolitana do Porto existe um médico dentista por cada 557 habitantes, enquanto na Grande Lisboa o rácio é de um profissional por cada 827 habitantes. Em contrapartida, no Alentejo Litoral existe apenas um médico dentista por cada 2.287 habitantes e no Baixo Alentejo por cada 2.028 habitantes.

Estes valores contrastam com os rácios de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS), apontados pela OMD, que situam a proporção recomendada entre um médico dentista por cada 1.500 a 2.000 habitantes. Miguel Pavão salientou que, enquanto Lisboa e Porto apresentam uma elevada concentração de profissionais, algumas regiões do Alentejo continuam a enfrentar falta de médicos dentistas. Para corrigir estas desigualdades, o bastonário defende a necessidade de um planeamento estratégico que tenha em consideração as necessidades da população, as assimetrias regionais e as condições de trabalho e fixação dos profissionais.

Emigração de médicos dentistas aumentou nas últimas duas décadas

Outro dos fenómenos identificados no estudo é o crescimento do número de profissionais que optam por exercer fora de Portugal. As inscrições suspensas na OMD aumentaram de 532, em 2005, para 2.583, em 2025, sendo que 72,6% destas suspensões estão associadas à saída do país. “Portugal está a formar médicos dentistas, mas já não é para seu benefício. Está a formar médicos dentistas para a emigração”, criticou Miguel Pavão. França surge como o principal destino dos profissionais portugueses com inscrição suspensa, acolhendo 387 médicos dentistas, seguindo-se Itália, com 236, o Reino Unido, com 225, e Espanha, com 193.

Paralelamente ao aumento da emigração, o relatório revela um crescimento significativo da presença de profissionais estrangeiros entre os novos inscritos na Ordem. Em 2005, os médicos dentistas estrangeiros representavam 8,5% das novas inscrições na OMD, percentagem que aumentou para 32% em 2025. O bastonário relaciona esta evolução com os custos das propinas em Portugal, que considera mais baixos quando comparados com os praticados noutros países europeus.

O estudo revela ainda alterações no perfil demográfico dos médicos dentistas portugueses ao longo dos últimos 20 anos. Atualmente, as mulheres representam 63,2% dos profissionais com inscrição ativa na OMD, confirmando a predominância feminina na profissão.

A idade média dos médicos dentistas também aumentou, passando de 35,8 anos, em 2005, para 42 anos, em 2025, uma evolução que, segundo a Ordem, reflete o progressivo envelhecimento da classe. Os resultados do relatório evidenciam, assim, que o crescimento expressivo do número de médicos dentistas em Portugal não foi suficiente para assegurar uma distribuição territorial equilibrada, reforçando a necessidade de medidas que promovam a fixação de profissionais nas regiões com maiores carências e melhorem o acesso da população aos cuidados de saúde oral.

SO/LUSA
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