Exercício físico deve ser prescrito como tratamento para a saúde cerebral, defendem investigadores
A prática de exercício físico deve deixar de ser encarada apenas como uma recomendação sobre estilos de vida saudáveis e passar a ser prescrita como uma intervenção terapêutica para promover a saúde cerebral. A proposta é defendida por investigadores das universidades canadianas de Otava e Toronto, num artigo publicado na revista científica Brain Health.

Segundo os autores, a atividade física influencia diferentes mecanismos essenciais ao funcionamento do cérebro, incluindo a saúde vascular, o equilíbrio metabólico, o controlo da inflamação e a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro para se adaptar e reorganizar. Como exemplo, referem um ensaio clínico aleatorizado publicado em 2011, realizado com adultos mais velhos, que demonstrou que o exercício aeróbico aumentou o volume do hipocampo anterior, uma região cerebral fundamental para a memória, contribuindo para melhorias nesta função cognitiva.
Para os investigadores, a evidência científica disponível justifica uma mudança na forma como os profissionais de saúde abordam a atividade física durante as consultas. “Ainda tendemos a tratar o exercício como um conselho geral sobre o estilo de vida. As provas que analisámos apoiam uma prescrição que especifique o tipo de atividade, a frequência, a intensidade, a duração, as considerações de segurança e um plano de seguimento, tal como faríamos com um medicamento”, afirmou Carl Zhou.
Os autores defendem, assim, que a prescrição de exercício deve ser adaptada às necessidades, capacidades e condições clínicas de cada pessoa, incluindo objetivos concretos e acompanhamento da evolução.
O artigo destaca igualmente os benefícios do exercício físico na saúde mental, apontando evidências de ensaios clínicos aleatorizados e meta-análises que associam a atividade física à redução de sintomas depressivos, ansiedade e sofrimento psicológico, bem como a melhorias em indicadores relacionados com o suicídio. Uma meta-análise de ensaios clínicos publicada em 2024 concluiu que atividades como caminhar, correr, praticar ioga e realizar treino de força podem reduzir os sintomas de depressão, com efeitos geralmente mais expressivos quando o exercício é realizado com maior intensidade.
Os investigadores dão especial atenção às pessoas com esquizofrenia e outras doenças mentais graves, populações que apresentam frequentemente níveis elevados de sedentarismo, doenças cardiometabólicas e maior risco de mortalidade prematura. “Na esquizofrenia, o exercício pode atuar nos sintomas psiquiátricos, na cognição e na saúde física simultaneamente, numa população com necessidades substanciais não satisfeitas em todas as três áreas”, salientou Stanley Wong, da Universidade de Toronto. Neste contexto, os autores consideram que a atividade física poderá constituir uma intervenção complementar relevante, com benefícios em diferentes dimensões da saúde.
Pequenos passos podem fazer a diferença
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os adultos pratiquem entre 150 e 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada por semana ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa, complementados por exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana. No entanto, os investigadores reconhecem que estas metas podem ser difíceis de alcançar para pessoas com problemas de saúde mental, sobretudo em situações de depressão, nas quais a falta de energia e de motivação constitui frequentemente uma barreira à prática de exercício.
Nestes casos, defendem que o início da atividade física pode passar por objetivos simples e acessíveis, como uma caminhada de cinco minutos, exercícios realizados numa cadeira ou atividades quotidianas, como passear o cão. “O ponto de partida não tem de ser impressionante. Tem de ser o possível. Pequenos sucessos repetidos constroem a autoeficácia e o hábito e é isso que cria as condições para uma atividade sustentada”, afirmou Nicholas Fabiano, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Otava.
Para os autores, a integração do exercício físico nos cuidados de saúde, através de prescrições individualizadas e acompanhamento regular, poderá contribuir para melhorar a saúde cerebral e mental ao longo da vida, deixando de depender exclusivamente da iniciativa dos próprios doentes.
SO/LUSA
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