Doença renal crónica. “O momento do diagnóstico deixou de ser apenas vigilância, passou a ser janela de oportunidade terapêutica”
A doença renal crónica (DRC) é uma “epidemia silenciosa”, sendo fundamental apostar-se no rastreio e no diagnóstico precoce, face às novas terapêuticas que permitem atrasar a progressão desta patologia. Quem o afirma é Sónia Sousa, assistente graduada de Nefrologia e diretora de Serviço de Nefrologia da ULS Gaia Espinho.

Porque é que a doença renal crónica tem impacto nos cuidados de saúde mesmo antes de falarmos de doença avançada ou diálise?
A DRC é frequentemente descrita como uma “epidemia silenciosa”. Em Portugal, estima-se que cerca de 10% da população adulta viva com algum grau de doença renal, muitas vezes sem o saber, uma vez que nos estádios iniciais raramente existem sintomas. Esta ausência de sinais de alarme é, paradoxalmente, uma das razões pelas quais a doença tem tanto impacto no sistema de saúde. Da inexistência de um rastreio ativo sistemático, sobretudo em grupos de risco, resulta que a maioria dos casos só é identificada quando já existe doença renal com relevância clínica.
Mas o impacto não se limita ao atraso no diagnóstico. Mesmo em estádios precoces, a DRC é um multiplicador de risco: aumenta significativamente o risco cardiovascular independentemente de outros fatores e associa-se com frequência a diabetes e hipertensão, criando um ciclo de pluri-morbilidade. A esta realidade acresce a organização atual do sistema, que frequentemente conduz a um seguimento fragmentado por várias especialidades, um fator igualmente relevante no aumento dos custos e no esgotamento dos recursos assistenciais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Cada consulta, cada exame laboratorial de rotina, cada ajuste terapêutico nestes doentes representa já um custo acrescido para o SNS, muito antes de se equacionar diálise ou transplante. A DRC aumenta a complexidade e a utilização dos cuidados de saúde mesmo antes da necessidade de diálise.
Há também uma dimensão terapêutica relativamente recente, pois dispomos hoje de fármacos capazes de atrasar de forma significativa a progressão da DRC quando iniciados precocemente. Isto significa que o momento do diagnóstico deixou de ser apenas uma questão de vigilância, passou a ser uma janela de oportunidade terapêutica que, se perdida, tem custos clínicos e económicos a jusante.
Por este motivo, o investimento no rastreio e na prevenção deve constituir uma prioridade de saúde pública, devendo dar-se ênfase às estratégias de atraso da progressão da doença nos estádios precoces da DRC. Com o aumento da prevalência de patologias como a diabetes e a obesidade, é expectável que nos próximos anos assistamos a um crescimento significativo da DRC, o que representará um desafio económico assinalável. Portugal tem, aliás, uma das taxas de incidência e prevalência de doença renal terminal mais elevadas da Europa, o que agrava ainda mais este cenário.
“Importa sublinhar também que, do ponto de vista da gestão clínica, o diagnóstico tardio e a referenciação tardia à consulta de Nefrologia estão associados a piores desfechos clínicos. O doente apresentará múltiplas comorbilidades por resolver”
Quando o diagnóstico de DRC é feito tardiamente, quais são as consequências que mais se fazem sentir nos cuidados de saúde, desde a gestão clínica até à utilização de recursos?
A consequência mais imediata é a perda da janela terapêutica e oportunidade de diagnóstico. Muitas das intervenções que atrasam a progressão da doença perdem eficácia ou deixam de ser aplicáveis quando a função renal já está muito comprometida. Isto traduz-se, na prática, numa progressão mais rápida para diálise do que aquela que poderia ter sido alcançada com um diagnóstico e tratamento precoces. Para além de limitar ou impedir a implementação de medidas de prevenção e de atraso da progressão da doença, condiciona algumas estratégias diagnósticas, nomeadamente a realização de biópsia renal, cujo valor informativo diminui em fases mais avançadas.
Importa sublinhar também que, do ponto de vista da gestão clínica, o diagnóstico tardio e a referenciação tardia à consulta de Nefrologia estão associados a piores desfechos clínicos. O doente apresentará múltiplas comorbilidades por resolver, exigindo uma abordagem mais complexa, mais dispendiosa e com menor margem de manobra para intervenções, e terá maior risco de início não programado de diálise, menor preparação para a terapêutica de substituição renal e menor probabilidade de transplantação renal preemptiva. O reforço da articulação entre os cuidados de saúde primários e a Nefrologia, nomeadamente através do rastreio sistemático, é fundamental para antecipar o diagnóstico e otimizar a gestão da doença.
“… a 31 de dezembro de 2025 encontravam-se em diálise cerca de 14.000 doentes tendo iniciado tratamento nesse ano 2494, com custos diretos elevados suportados pelo SNS”
Tendo acompanhado doentes em hemodiálise, considera que existe ainda uma perceção insuficiente do impacto que a progressão da DRC tem na qualidade de vida dos doentes e na utilização de recursos de saúde?
Sim, e diria que esta é talvez a maior lacuna de literacia em saúde nesta área. A DRC é uma patologia ainda pouco compreendida pela população em geral e não tem a visibilidade pública de outras doenças crónicas. Não há para ela o equivalente ao rastreio do cancro da mama ou à monitorização da tensão arterial como gesto rotineiro na consciência coletiva. As doenças assintomáticas, sobretudo quando não têm impacto imediato nas atividades diárias, são habitualmente desvalorizadas. Na minha experiência clínica, muitos doentes só percebem verdadeiramente a gravidade da situação quando confrontados com a proximidade da diálise, altura em que grande parte das opções preventivas já não está disponível.
Quanto ao impacto na qualidade de vida, a hemodiálise convencional (tipicamente 4 horas, três vezes por semana, num centro de diálise) e a diálise peritoneal, reestruturam por completo a vida do doente: condiciona a atividade profissional, dificulta a mobilidade e a possibilidade de viajar, impõe restrições alimentares e hídricas rigorosas, e obriga a um planeamento constante em torno do horário do tratamento. A isto acresce um impacto psicológico significativo, frequentemente subestimado, associado à cronicidade da dependência de um tratamento e à perda de autonomia.
Em termos de recursos de saúde, segundo os dados da SPN, os números são elucidativos: a 31 de dezembro de 2025 encontravam-se em diálise cerca de 14.000 doentes tendo iniciado tratamento nesse ano 2494, com custos diretos elevados suportados pelo SNS. A isto somam-se os custos indiretos: transporte para o tratamento, absentismo laboral do doente e, muitas vezes, de um cuidador, e a maior taxa de hospitalização associada às morbilidades destes doentes. Creio que só um investimento mais consistente na literacia sobre DRC e no rastreio sistemático, equiparável ao que já existe para outras doenças cardio-metabólicas, permitirá antecipar diagnósticos e reduzir esta pressão sobre o sistema.
SO
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