2 Jul, 2026

“O Centro de Saúde Sexual pretende providenciar uma resposta integrada às diferentes dimensões da saúde sexual”

O ‘Centro de Saúde Sexual’, da ULS de Braga, foi um dos dois projetos vencedores da 6.ª edição da Bolsa Capital Humano em Saúde, uma iniciativa da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH). Sofia Lopes, médica de Saúde Pública da ULS Braga, fala-nos sobre esta iniciativa que poderá fazer a diferença num momento em que as infeções sexualmente transmissíveis estão a aumentar.

“O Centro de Saúde Sexual pretende providenciar uma resposta integrada às diferentes dimensões da saúde sexual”

Como surgiu e em que consiste o projeto Centro de Saúde Sexual da ULS Braga?

Na ULS Braga, a saúde sexual foi identificada como uma prioridade estratégica, tanto pelo aumento sustentado das infeções de transmissão sexual (IST) como pela crescente procura por cuidados diferenciados para as disfunções sexuais e pelo impacto destas patologias na saúde pública.

Verifica-se um contexto epidemiológico caracterizado pela tendência crescente sustentada da notificação de IST, constituindo o grupo de doenças de notificação obrigatória (DNO) com maior magnitude na área da ULS. Em 2024, registaram-se 207 casos confirmados de VIH e outras IST – um volume de notificações aproximadamente duas vezes superior ao segundo grupo mais notificado, num contexto marcado por subnotificação e, por isso, com valores reais provavelmente superiores. Este cenário reforça a necessidade de diagnóstico precoce, rastreio e intervenção atempada.

Persistem também desafios relevantes, como o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) em contexto comunitário e uma resposta ainda pouco estruturada às disfunções sexuais nos cuidados de saúde primários. Estas disfunções têm um impacto relevante na qualidade de vida e podem traduzir-se em custos acrescidos para o sistema de saúde, sobretudo porque as disfunções sexuais constituem frequentemente um reflexo da saúde geral e um sinal precoce de doenças crónicas.

O contexto sociodemográfico dos concelhos da ULS (Amares, Braga, Póvoa de Lanhoso, Vila Verde, Vieira do Minho e Terras de Bouro) também influencia a saúde sexual: uma população jovem e universitária, com maior mobilidade e exposição a comportamentos de risco coexiste com grupos mais vulneráveis – como migrantes, trabalhadores do sexo e consumidores de substâncias psicoativas – que enfrentam maiores barreiras de acesso aos cuidados, contribuindo para atrasos no diagnóstico e menor utilização dos serviços.

Fenómenos emergentes como o chemsex – o consumo de substâncias psicoativas em contexto sexual – reforçam a necessidade de uma resposta integrada e multidisciplinar. Atualmente, os serviços e programas direcionados para a saúde sexual estão dispersos na instituição, nomeadamente o Centro de Aconselhamento e Deteção Precoce do VIH (CAD), o Programa Autoestima (da extinta ARS Norte), a Consulta Comunitária de Medicina Sexual e as Consultas de profilaxia pré-exposição à infeção por VIH (PrEP) e a das Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST) do Serviço de Infeciologia do Hospital de Braga.

No contexto da recente organização das ULS, com a consequente oportunidade para aumentar a integração entre Cuidados Hospitalares, Cuidados de Saúde Primários e Saúde Pública, foi criado o projeto do Centro de Saúde Sexual. O projeto visa estruturar, num modelo único, estes serviços e programas, propondo uma resposta verdadeiramente integrada à saúde sexual, em contexto comunitário e prestada por uma equipa multidisciplinar, composta por Médicos (Saúde Pública, Infeciologia e Sexologia), Enfermeiros, Psicólogos, Assistentes Sociais e Fisioterapeutas Pélvicos. O Centro irá localizar-se num espaço fixo (no edifício da Unidade de Saúde Pública), sendo apoiado por uma unidade móvel.

Quais as mais-valias quer para utentes quer para os profissionais de saúde?

A integração neste Centro de Saúde Sexual representa uma mais-valia para utentes e profissionais, ao concentrar num único espaço respostas especializadas, acessíveis e articuladas.

Para os utentes, o modelo melhora o acesso aos cuidados, com horários alargados, consulta aberta e uma unidade móvel que aproxima os serviços das comunidades. Permite ainda uma resposta mais rápida em situações como profilaxia pós-exposição (PPE), sintomas de IST e outras necessidades urgentes, evitando recurso ao serviço de urgência.

Ao reunir equipas multidisciplinares, o Centro reduz barreiras como o estigma e a menor privacidade sentida pelos utentes na sua unidade de saúde, facilitando a procura de cuidados em saúde sexual. Garante também circuitos assistenciais mais claros, melhor continuidade de cuidados e maior efetividade no rastreio e na interrupção de cadeias de transmissão. Possibilita, ainda, a construção de uma resposta mais estruturada e culturalmente adequada ao consumo de drogas em contexto sexual (chemsex), com uma abordagem multidisciplinar e articulada com a área dos comportamentos aditivos.

Para os profissionais, a integração permite uma consultoria próxima entre áreas clínicas e não clínicas e a articulação com outros programas existentes na ULS (como a Saúde Escolar) e com parceiros comunitários estratégicos (como autarquias e organizações não-governamentais), potenciando intervenções coordenadas de promoção da saúde e prevenção da doença. Criará, neste contexto, condições privilegiadas para a formação pós-graduada e para o desenvolvimento da investigação, permitindo produzir um diagnóstico de saúde populacional mais rigoroso sobre os fatores determinantes, barreiras, facilitadores e crenças em saúde sexual — essencial para o desenho de intervenções em saúde pública mais robustas e ajustadas à realidade da população.

A consulta aberta na comunidade poderá contribuir para reduzir a taxa de faltas às primeiras consultas, aumentando a eficiência da resposta da ULS nesta área. A implementação de um centro de referência nesta área constitui também um importante fator de valorização e motivação dos profissionais, ao permitir desenvolver competências altamente diferenciadas e acompanhar os utentes desde a prevenção e diagnóstico até ao tratamento e seguimento.

“Parte do aumento de infeções notificadas reflete também uma realidade positiva: o maior acesso às consultas de IST, consultas de PrEP e rastreio, permitindo diagnosticar infeções que, anteriormente, permaneceriam por identificar”

Os casos de IST têm aumentado. Tendo em conta a sua experiência, o que poderá estar a contribuir para esta realidade?

O aumento das IST resulta de um conjunto de fatores. Persistem desafios ao nível da prevenção, nomeadamente uma utilização consistente do preservativo e a ausência de cultura enraizada de rastreio antes do início de novas relações sexuais. Adicionalmente, o estigma associado à saúde sexual continua a constituir uma barreira importante ao diagnóstico precoce. Muitas pessoas adiam a realização de testes ou procuram cuidados de saúde apenas na presença de sintomas, apesar de várias IST poderem permanecer assintomáticas durante longos períodos. Esta realidade favorece o diagnóstico tardio e contribui para a manutenção de cadeias de transmissão não identificadas na comunidade.

Em alguns grupos, observa-se uma maior multiplicidade de parceiros sexuais e uma maior dinâmica das redes sexuais, em parte facilitada pelo recurso a aplicações de encontros. Acrescem fenómenos como o chemsex, em que o consumo de substâncias em contexto sexual pode aumentar a probabilidade de relações sexuais desprotegidas e, consequentemente, o risco de transmissão de IST. Outro fator relevante prende-se com o facto de a notificação da maioria destas infeções ser anónima, o que limita a capacidade das Autoridades de Saúde para identificarem a origem da infeção e realizar um rastreio de contactos. Em consequência, torna-se mais difícil interromper cadeias de transmissão e implementar medidas de prevenção dirigidas, o que pode contribuir para a persistência e disseminação destas infeções na comunidade.

Do ponto de vista dos cuidados de saúde, continua a ser essencial reforçar a abordagem clínica da saúde sexual pelos profissionais de saúde, considerando-a como mais uma dimensão habitual da vida dos seus utentes. Estes profissionais têm um papel fundamental no incentivo ao rastreio, especialmente em pessoas com novas relações sexuais ou com outros possíveis fatores de risco. Importa, contudo, interpretar estes números com algum cuidado. Parte do aumento de infeções notificadas reflete também uma realidade positiva: o maior acesso às consultas de IST, consultas de PrEP e rastreio, permitindo diagnosticar infeções que, anteriormente, permaneceriam por identificar.

Este tipo de projetos integrados poderão ser mais um apoio no combate às IST?

Sim, projetos integrados em saúde sexual podem ser uma estratégia muito relevante no combate às IST, sobretudo porque atuam simultaneamente na prevenção, diagnóstico precoce, tratamento e interrupção de cadeias de transmissão. O Programa Nacional para o VIH e IST da Direção-Geral da Saúde aponta neste sentido. Nos seus eixos para o triénio 2026-2028 estão incluídas a “criação de centros de resposta às IST, com vista à descentralização efetiva da PrEP, permitindo cuidados de saúde de proximidade e maior acesso à testagem ao VIH e outras IST.”, assim como o “apoio à população vulnerável e migrante”, a “redução do estigma” e a “vigilância epidemiológica, monitorização e avaliação”.

A principal mais-valia destes projetos integrados reside na articulação de respostas que, frequentemente, estão dispersas e são menos acessíveis. Quando o rastreio, a vacinação, a profilaxia pré e pós-exposição (PrEP e PPE, respetivamente), o tratamento e o seguimento de contactos são organizados num mesmo circuito funcional, é possível reduzir perdas no percurso do utente e otimizar intervenções populacionais em saúde pública. Permitem ainda diminuir barreiras de acesso, estruturar respostas que sejam culturalmente adequadas e facilitar a abordagem de populações mais vulneráveis ou com comportamentos de maior risco, habitualmente menos frequentadoras das respostas tradicionais de cuidados de saúde.

Neste Centro, o foco serão as IST ou também se pensará em dar resposta a outros níveis como, por exemplo, dificuldades sexuais associadas às mais diversas causas?

O Centro de Saúde Sexual pretende providenciar uma resposta integrada às diferentes dimensões da saúde sexual. As IST constituem, de facto, uma das áreas centrais de intervenção, dada a sua relevância em saúde pública e o aumento da sua incidência. A abordagem às dificuldades sexuais de natureza multifatorial, incluindo as disfunções sexuais individuais e de casal e o impacto de doenças crónicas na saúde sexual, farão também parte da carteira de serviços deste Centro, dada a incorporação da Consulta Comunitária de Medicina Sexual nesta resposta.

Um dos elementos diferenciadores desta abordagem é precisamente a capacidade de olhar para a saúde sexual de uma forma global, colocando grande foco na perspetiva populacional de saúde pública, articulada com a resposta clínica individual nas suas diferentes vertentes. Isto é possível devido a uma equipa multidisciplinar, que permite uma abordagem contínua às temáticas, um pensamento “de montante e a jusante”: desde a prevenção e redução de risco, ao diagnóstico precoce, tratamento, seguimento, bem como à interrupção de cadeias de transmissão quando aplicável.

Este foco parte do reconhecimento de que a sexualidade é uma dimensão fundamental da condição humana e uma necessidade básica, presente na base da hierarquia de necessidades de Maslow. Nesse sentido, o Centro encara a saúde sexual não apenas como ausência de doença, mas como uma componente essencial do bem-estar e da qualidade de vida. O projeto aposta, por isso, no reforço da ação comunitária, envolvendo parceiros externos e a própria população na identificação de necessidades e na conceção das respostas, promovendo a educação sexual, reduzindo o estigma, aproximando os serviços das pessoas e reorientando os cuidados de saúde — valorizando o bem-estar, a qualidade de vida e a saúde sexual como componentes fundamentais da saúde global.

“O objetivo será disponibilizar um instrumento prático de apoio ao rastreio, diagnóstico, tratamento e seguimento das IST para toda a ULS, promovendo uma atuação mais uniforme, baseada na melhor evidência científica e articulada entre os diferentes serviços”

Sem a Bolsa da APAH, o projeto de integração iria avançar ou não seria possível por questões financeiras?

O projeto de integração não dependia exclusivamente da Bolsa da APAH para avançar, nem o financiamento foi um fator limitante. A iniciativa já tinha uma base conceptual, um diagnóstico dos problemas e necessidades identificadas no terreno e tinha já iniciado o seu desenvolvimento no sentido da integração, ou seja, a sua implementação estava prevista independentemente do prémio.

O que a Bolsa da APAH proporcionou foi sobretudo um impulso estratégico do projeto, reforçando a sua capacidade de operacionalização e disponibilizando ferramentas adicionais à equipa. Este prémio – um programa de consultoria com a Nobox – irá apoiar a consolidação da visão, a definição da estrutura do projeto e do plano de mudança, assim como a sua implementação ao longo de 2026, com o nível de qualidade que pretendemos assegurar.

De futuro, já pensam em mais alguma iniciativa no âmbito do projeto?

Neste momento, o nosso foco é construir e consolidar um modelo sólido, estruturado e operacional para o projeto, com o apoio do Conselho de Administração da ULS, garantindo que a sua implementação assenta numa abordagem centrada na promoção da saúde e prevenção da doença, na integração efetiva de cuidados e na articulação com os diferentes níveis de resposta dentro e fora da ULS.

Numa fase inicial, a prioridade é assegurar que este modelo responde de forma consistente às necessidades da população e dos profissionais. A partir dessa base, e numa perspetiva de melhoria contínua, será possível desenvolver novas iniciativas que reforcem a diferenciação do Centro e o seu impacto na saúde pública. Uma dessas iniciativas, que começa agora a ser equacionada, é a elaboração de um manual de IST para toda a ULS. O objetivo será disponibilizar um instrumento prático de apoio ao rastreio, diagnóstico, tratamento e seguimento das IST para toda a ULS, promovendo uma atuação mais uniforme, baseada na melhor evidência científica e articulada entre os diferentes serviços.

Estamos convictos de que, à medida que o projeto evoluir e forem identificadas novas necessidades, surgirão outras oportunidades de melhoria capazes de reforçar a monitorização epidemiológica, a qualidade dos cuidados prestados e a literacia em saúde sexual, gerando ganhos em saúde para a população.

Maria João Garcia

 

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