23 Abr, 2026

Consumo de psicofármacos atinge máximo e SNS gasta 152 milhões em 2025

Especialistas apontam várias razões para este consumo de psicofármacos, incluindo o aumento do diagnóstico de perturbações mentais, maior acesso a tratamento e a substituição progressiva das benzodiazepinas por outros fármacos.

Consumo de psicofármacos atinge máximo e SNS gasta 152 milhões em 2025

Cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos foram dispensadas por dia em 2025 em Portugal continental, totalizando quase 29,4 milhões — o valor mais elevado dos últimos dez anos — com encargos para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) a rondarem os 152 milhões de euros. Os dados, divulgados à agência Lusa pelo Infarmed, revelam que, ao longo da última década, a venda de antidepressivos e antipsicóticos aumentou significativamente, enquanto o consumo de benzodiazepinas registou uma ligeira descida.

Entre 2015 e 2025, o número total de embalagens de psicofármacos subiu de 21,6 milhões para cerca de 29,4 milhões, um crescimento de 36%. No mesmo período, a despesa do SNS aumentou 24%, passando de 123,1 milhões para 156,6 milhões de euros.

Os antidepressivos lideraram a subida, com um aumento de 82%, de cerca de 7,6 milhões para 13,8 milhões de embalagens. A despesa associada quase duplicou, crescendo 89%, para 63,6 milhões de euros. Também os antipsicóticos registaram uma subida expressiva de 72%, passando de 3,2 milhões para 5,5 milhões de embalagens. No entanto, a despesa pública com estes medicamentos diminuiu ligeiramente, cerca de 4,5%, fixando-se nos 65,7 milhões de euros. Em sentido contrário, as benzodiazepinas — utilizadas como ansiolíticos, sedativos e hipnóticos — registaram uma descida de 6,9% no consumo, apesar de os encargos terem aumentado 13,5%, para 23,4 milhões de euros.

Especialistas apontam várias razões para esta evolução, incluindo o aumento do diagnóstico de perturbações mentais, maior acesso a tratamento e a substituição progressiva das benzodiazepinas por outros fármacos. Também fatores demográficos, como o crescimento do número de residentes e turistas, ajudam a explicar a tendência.

A psiquiatra Ana Matos Pires, da coordenação nacional das políticas de saúde mental, considerou que o aumento da prescrição pode indicar mais pessoas em sofrimento, mas também uma melhoria no diagnóstico e tratamento precoce. “É muito pior que a doença exista e não seja tratada”, afirmou, sublinhando que os antidepressivos são utilizados em várias condições além da depressão, como ansiedade grave ou dor crónica. Destacou ainda como positiva a redução do uso de benzodiazepinas, devido ao risco de dependência.

Por sua vez, Albino Oliveira-Maia, presidente eleito da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, defendeu que os dados devem ser analisados à luz de fatores como alterações demográficas e inflação, admitindo que o aumento pode refletir também melhorias no acesso aos cuidados. Ainda assim, alertou que o acesso a alternativas terapêuticas, como a psicoterapia, continua limitado.

Na mesma linha, Miguel Ricou, da Ordem dos Psicólogos Portugueses, defendeu um maior investimento em intervenções não farmacológicas, considerando que a dificuldade de acesso a psicólogos e psiquiatras leva muitas vezes à prescrição de medicamentos como primeira resposta. “Sem acesso rápido, cria-se um ciclo de medicação e recaída que é difícil de quebrar”, alertou.

Os especialistas convergem na necessidade de reforçar os cuidados de saúde mental, nomeadamente através da expansão da psicoterapia e de equipas especializadas, para garantir respostas mais completas e sustentadas aos doentes.

SO/LUSA

Artigo relacionado

Depressão funcional – será a nova epidemia camuflada?

 

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais