28 Jan, 2026

“Empoderar os CSP é melhorar cuidados, a seleção de doentes e o trabalho da Unidade de Dor”

Marta Isidoro, presidente da ASTOR, enaltece o papel da multidisciplinaridade no diagnóstico e tratamento da dor. Em entrevista, destaca a importância dos cuidados de saúde primários e, apesar de reconhecer os avanços na área, reconhece que ainda é preciso apostar na formação e lutar para que haja recursos humanos suficentes dedicados a esta competência.

“Empoderar os CSP é melhorar cuidados, a seleção de doentes e o trabalho da Unidade de Dor”

Porquê a temática “Back to the roots”?

Se a vida é um ciclo, com frequência temos de passar pela casa partida. E na realidade é algo que fazemos com frequência em Dor: vemos um doente, escolhemos um caminho terapêutico, mas quando ele falha, o caminho leva-nos de volta ao início: à história clínica, ao exame objectivo, à etiologia, às hipóteses diagnósticas. Tão importante como trilhar o futuro, é desafiar-mo-nos constantemente a olhar para trás e voltarmos às raízes. E é isso que pretendemos no ASTOR 2026: vamos olhar para o futuro, discutir o presente, mas vamos voltar às raízes – à farmacologia, à ciência básica, à saúde mental. Tudo no mesmo congresso.  

Vai voltar a decorrer o Curso EcoASTOR? Que balanço faz do mesmo ao longo destes anos de evento?

Atrevo-me a dizer que neste momento são momentos indissociáveis – não há EcoASTOR sem Congresso ASTOR, nem Congresso sem EcoASTOR. Faz parte da imagem de marca criada há 33 anos pela Dra. Beatriz Craveiro Lopes. Se o Congresso ASTOR vai na 33.ª edição, o EcoASTOR já está na 11.ª. A equipa do EcoASTOR tem feito um esforço por criar temas diferentes e momentos formativos, com novas ideias, novas técnicas, para se sair apenas do momento do curso e levar os formandos ao bloco in loco. E o caminho, quanto a mim, está ainda no início. Este ano queremos trazer novos colegas como formadores. Ainda temos mais ideias, mais novidades pelo caminho. Talvez 2027 traga novas evoluções.

Uma das sessões intitula-se “Doente com dor crónica – desde há 30 anos”. Quais os principais passos que foram dados ao longo de três décadas?

Os últimos 30 anos de história de dor trazem vários pontos marcantes:

– O reconhecimento da dor crónica como doença, ao invés de apenas sintoma, como acontecia anteriormente, e com isto a mudança de paradigma no tratamento, na assistência aos doentes e na forma de encarar a doença e o doente;

– A expansão das Unidades de Dor – passamos a ter uma abordagem multidisciplinar, com múltiplos intervenientes no tratamento do doente com dor, bem como o crescimento das mesmas em números e abrangência;

– Evolução farmacológica – talvez não tanto inovação com múltiplas novas moléculas, mas a utilização de fármacos de outras áreas no tratamento dos nossos doentes;

– Intervencionismo: técnicas como a radiofrequência e a neuromodulação passam a fazer parte do dia a dia do tratamento dos doentes;

– Modelo biopsicossocial: passamos a ver a dor sob um prisma não causa-efeito, mas a integrar os fatores psicológicos e sociais no quadro do doente e inclusive a integrar intervenções nestes fatores no programa de tratamento dos doentes.

“Diria que a ausência de um médico central no acompanhamento do doente tem um efeito dominó no curso da sua saúde”

Apesar dos avanços farmacológicos e não farmacológicos, considera que a dor já é mais valorizada atualmente, quer por parte dos profissionais de saúde quer da população?

Está, sem dúvida, mais valorizada. Já falamos em dor, no seu impacto (inclusive, funcional) e na perda de qualidade de vida. Já formamos as diferentes carreiras da saúde em dor, desde a formação pré-graduada à formação contínua pós-graduada. Há guidelines de tratamento e abordagem e os riscos de tratar mal ou não tratar a dor são conhecidos e discutidos. Mas continuamos a sentir desvalorização das queixas do doente. O “é normal para a idade” ou o “tem de se habituar” são correntes. Se as pessoas estão mais informadas e procuram cada vez mais tratamento, por um lado, por outro continuamos a ter mitos relacionados com a intervenção da Medicina da Dor ou expectativas inadequadas de cura total e imediata. Estamos melhor. Mas não chegamos onde devemos estar.

Em termos de diagnóstico, quais os principais desafios que ainda se enfrentam, sobretudo quando não se tem médico de família?

Diria que a ausência de um médico central no acompanhamento do doente tem um efeito dominó no curso da sua saúde. E porquê? Porque perdemos a figura do integrador, com doentes fragmentados e tratados, às vezes de forma antagónica, em diferentes consultas; porque atrasamos diagnósticos, seja pela falta de acesso ou pela perda de informação clínica dos doentes; porque perdemos seguimento e timings (há doentes que precisam de integração de cuidados: intervenção e cuidados de fisioterapia, por exemplo); porque temos desigualdades no acesso, em que quem não tem médico de família fica dependente da urgência ou de cuidados privados. O papel da MGF é muitas vezes a peça-chave para despistar sinais de alarme, reconhecer padrões e encaminhar e acompanhar de forma continuada.

“Esta carência de recursos humanos é uma ameaça ao funcionamento dos serviços, mas tem de ser encarada também como oportunidade. Oportunidade para trabalhar em rede”

Que medidas poderiam ser adotadas para que o diagnóstico fosse mais precoce e para que se iniciasse o tratamento nos cuidados primários, ficando para o hospital apenas os casos mais complexos?

Na realidade em saúde nós precisamos de otimizar, não de reinventar cuidados. Nós sabemos o que fazer aos doentes, não conseguimos é entregar cuidados a todos os doentes que precisam deles. E para isso temos de trabalhar de forma mais inteligente.

Sabemos que a base dos cuidados deve ser entregue nos cuidados de saúde primários (CSP) e que não há, de forma alguma, capacidade nos cuidados hospitalares de dar resposta a todos os doentes que nos podem procurar. Assim devemos ajudar a melhorar os cuidados na base do sistema. E como podemos e devemos fazer isto? Existem múltiplas alternativas:

  1. Criar protocolos claros de triagem e tratamento de dor, acompanhados de critérios claros de referenciação;
  2. Dar formação aos colegas que veem os doentes: de farmacologia, de terapêutica, de tratamento, de investigação e diagnóstico diferencial, de educação para a dor, de gestão de expectativas;
  3. Usar o digital a nosso favor, com ferramentas de apoio à decisão;
  4. Criar vias verdes funcionais com canais de comunicação bidirecionais;
  5. Criar canais de comunicação entre os CSP e as Unidades de Dor, onde os colegas peçam apoio, coloquem dúvidas, discutam doentes – para muitos não haverá depois necessidade de admissão às Unidades de Dor.

Empoderar os CSP é melhorar a entrega de cuidados, a seleção de doentes e o nosso trabalho enquanto Unidade de Dor.

As Unidades/Centros Multidisciplinares de Dor são muito importantes. Como vê a sua evolução ao longo dos últimos anos, nomeadamente numa altura em que o SNS está a enfrentar graves problemas de recursos humanos?

A evolução é positiva, mas não é consistente. Temos unidades que se afirmaram como centros de referência, com equipas multidisciplinares, com investigação, ensino. E temos outras onde a dor ainda é encarada como atividade extra e onde a atividade é cancelada perante a necessidade de recursos noutras áreas (como é o caso da Anestesiologia e o bloco operatório). Esta carência de recursos humanos é uma ameaça ao funcionamento dos serviços, mas tem de ser encarada também como oportunidade. Oportunidade para trabalhar em rede entre unidades, tanto dentro da mesma unidade de saúde como fora. Oportunidade para usar e criar tecnologia que efetivamente apoie o trabalho – telemedicina, registos mais inteligentes e estruturados, transcrição de registos, automação de follow-up. Oportunidade de integrar cuidados: cuidados primários – hospitalares, públicos – privados, entre especialidades hospitalares.

Esta escassez, inclusive na Anestesiologia, poderá pôr em causa o tratamento dos casos mais graves?

As Unidades de Dor partem da Anestesiologia, mas não se esgotam na Anestesiologia. Temos outras especialidades, cada vez de forma mais ativa, a partilharem o palco com a Anestesiologia no tratamento dos doentes. Mas é da multidisciplinaridade que nascem os melhores cuidados.

Portanto, unidades que nascem da Anestesiologia e dependem unicamente desta para tratar doentes podem efetivamente estar a pôr em risco o tratamento dos seus doentes, caso desloquem meios apenas para suprir atividade cirúrgica.

Mas se o staff das Unidades de Dor for constantemente deslocado para suprir outras necessidades identificadas como mais urgentes, o resultado do seu trabalho está em risco, bem como o tratamento dos doentes. Se pensarmos que muitos dos que recorrem à urgência o fazem por dor, não fará sentido apoiá-los mais, para não terem de o fazer?

Há diferentes tipos de dor. Além da dor crónica, quais as que mais preocupam as equipas?

A resposta deve ser TODAS. Todo o sofrimento deve ser aliviado. Seja ele agudo ou crónico, físico ou mental. Claro que as prioridades estão definidas e a gestão de acesso faz-se sempre com essas prioridades em mente: a dor oncológica, que pode no limite impactar no resultado do tratamento da patologia de base; a dor neuropática persistente ou a síndrome de dor regional complexa de difícil controlo, que pode necessitar inclusive de intervenção; a dor de membro fantasma ou a dor pós-cirúrgica, que compromete o resultado cirúrgico e a satisfação dos doentes. A dor é muito mais que avaliar uma escala. É avaliar função e impacto, é gerir expectativas e é tratar o doente de forma holística, tendo em atenção o modelo biopsicossocial.

“Mas se o staff das Unidades de Dor for constantemente deslocado para suprir outras necessidades identificadas como mais urgentes, o resultado do seu trabalho está em risco, bem como o tratamento dos doentes”

Daqui a 30 anos, como imagina o mundo do diagnóstico e tratamento da dor?

O que penso sempre é que o meu objetivo final é deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei. E é nessa perspetiva que pretendo continuar a pautar a minha atividade clínica e trabalhar para um futuro melhor. Quero acreditar que daqui a 30 anos vamos ter:

  1. Um diagnóstico mais precoce e personalizado, possivelmente apoiando a nossa prática em ferramentas digitais que cruzem dados clínicos, exames complementares e eventualmente marcadores biológicos que tenhamos disponíveis nessa altura;
  2. Planos de tratamento taylor-made, baseados em dados biométricos, psicológicos e sociais individuais e que abordem a complexidade da experiência que é a dor;
  3. Integração de cuidados entre CSP, hospitalares, privados, reabilitação, farmácia, saúde mental. Uma verdadeira comunidade que trabalha em rede e coloca o doente no centro;
  4. Mais regeneração e menos ablação. Mais modulação e menos invasão. Mais precisão e menos dispersão. Monitorização de eficácia e de efeitos adversos e menos manutenção de tratamentos que não servem o doente;
  5. Uma esperança: mais literacia. Não é só mais acesso a informação. São doentes que sabem o que querem e não querem e profissionais com um papel de facilitador e menos paternalista.

Nos últimos anos, focámo-nos nas tecnologias e perdemos o foco do doente. Espero que passemos os próximos 30 anos a voltar às raízes de ouvir o doente, o que ele quer e o que lhe importa e usarmos a tecnologia para nos ajudar e não para substituir o doente. Temos de voltar ao foco, a quem nos faz trabalhar todos os dias: o doente.

 

Maria João Garcia

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais