A tecnologia ao serviço de cuidados de qualidade, baseados na evidência e centrados na pessoa

Eduardo Freire Rodrigues

Eduardo Freire Rodrigues

CEO da UpHill

A transformação digital no setor da saúde não é uma novidade. Grandes avanços tecnológicos, como a cloud, SaaS (software as a sevice) ou IoT, que impulsionaram serviços tão quotidianos como a Netflix ou a Uber, chegaram também aos hospitais. Um estudo recente da Global Market Insights, estima que o mercado de computação em cloud no setor da saúde ultrapasse os 13 mil milhões de dólares até 2023.

Por cá, o Barómetro da Associação Portuguesa de Administração Hospitalar (APAH) revela que cerca de 47% dos hospitais já tem projetos de inteligência artificial. Num sector onde o custo de oportunidade é alto e o tempo dos profissionais cada vez mais limitado, a tecnologia não pode ser vista como uma finalidade, quando é, na verdade, apenas um meio. As equipas de Saúde são, e serão sempre, o garante da qualidade dos cuidados prestados e a tecnologia não é mais do que um aliado para a potenciar.

Recuemos aos anos 60: Avedis Donabedian, médico e pai da garantia de qualidade em saúde, estipulava que a qualidade era dependente de três factores: infra-estrutura, processos e resultados.

Hoje, muita atenção é dada à infraestrutura, basta apreciar os hospitais-escultura, obras Pritzker, em construção de norte-a-sul do país. Mais destaque é atribuído aos resultados em saúde, alinhados com a tendência da medicina baseada no valor (Value Based Healthcare), por Michael Porter, e à medição de satisfação reportada pelo doente.

No entanto, pouca atenção é dada ao processo e aos seus intervenientes. Um paradoxo de difícil explicação, pois os resultados em Saúde são produto dos processos – da organização dos recursos em torno do doente – e das pessoas que os executam. O foco dos projetos tecnológicos na Saúde, para uma utilização custo-efectiva, deve ser o de maximizar este terceiro pilar da qualidade, através da capacitação dos profissionais de Saúde.

Os médicos, bem como outros intervenientes da Saúde, são o garante da qualidade assistencial e os esforços tecnológicos deverão estar centrados no seu empoderamento. Numa era caraterizada por doentes cada vez mais complexos e exigentes, mas também melhor investigação e mais certezas do ponto de vista científico, as iniciativas tecnológicas de incremento contínuo da qualidade serão tanto mais importantes quanto mais sinergias tiverem com as equipas em Saúde. Estes constituem o agente de melhoria e também o repositório de conhecimento e competências.

É crucial que o setor da Saúde acompanhe os avanços tecnológicos destinados a capacitar as equipas através de treino avançado. Para que a tecnologia possa potenciar o que de melhor se faz: cuidados de qualidade, baseados na evidência e centrados na pessoa.

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