Ser Disléxico

Prof.ª Doutora Helena Serra

Prof.ª Doutora Helena Serra

Presidente da Associação Portuguesa de Dislexia

O que é? Que manifestações?

 

O que é:

A dislexia não tem cura, mas atenuam-se os seus efeitos. As dificuldades podem ser contornadas, o impacto negativo pode ser anulado.

Não é uma deficiência, é uma disfunção neurológica que altera o funcionamento do cérebro quanto ao processamento de símbolos. Afirma-se em diferentes graus de severidade. Há grandes probabilidades de transmissão genética. A dislexia só pode ser referida à aprendizagem e desenvolvimento da capacidade leitora.

De forma preventiva, a educação nas famílias e no centros infantis pode ter um papel fulcral na promoção de melhores aprendizagens por estas crianças: i) na aquisição e desenvolvimento da linguagem (articulação dos sons da fala, promoção e enriquecimento da linguagem espontânea); ii) no reconhecimento de cores e formas; iii) na aquisição das noções de tempo partindo de histórias e vivências do dia a dia; iv) na compreensão de orientações espaciais e no reconhecimento de direita-esquerda; v) na maior destreza e controle do gestos finos e no pegar de forma correta no lápis, partindo de atividades simples, de natureza lúdica. Todas estas competências necessitam de estar bem desenvolvidas para se ler e escrever.

Que manifestações

Na aprendizagem, nos primeiros anos da escolaridade, surgem alterações inesperadas. Ao iniciar o processo de leitura e escrita, apesar do bom ensino, a criança faz erros de forma recorrente e persistente:

. troca letras equivalentes no som (c-g, x-j, t-d) ou na forma (f-t, d-b, p-q);

. inverte letras na sílaba ou sílabas na palavra (ar-ra, mos-som);

. escreve com erros ortográficos típicos (entam-então, veia-feia);

. lê ou escreve números alterando a posição (76-97)

. ou troca sinais (+ por -)

Nos anos seguintes, os erros de escrita podem persistir, a estrutura das frases e textos continuar com nível muito elementar, o automatismo em leitura não ter sido alcançado, a compreensão dos textos lidos revelar-se incompleta ou confusa, a escrita continuar descontrolada, porque alterada na direção dos traçados, no tamanho ou forma das letras.

Mais adiante, já adolescentes, podem ter progredido na velocidade e precisão em leitura, mas não estar conseguida a compreensão leitora simultânea (para interpretar, necessitam de ler várias vezes os enunciados), e podem não ter conseguido ainda o domínio das regras da escrita em ortografia, acentuação e pontuação, e pode a sua expressão ser pouco elaborada. Em alguns casos a própria expressão e compreensão da linguagem oral pode ser pobre. As maiores dificuldades podem revelar-se na articulação de conteúdos, na síntese de ideias, na análise de enunciados. Muitas vezes não conseguem acompanhar a explanação oral do professor na aula, nem tirar apontamentos ou passar do quadro a informação.

A atenção só conseguem mantê-la por períodos curtos, “desligando” nas aulas. A memória de trabalho é fraca.  Mantêm as dificuldades na perceção do tempo e de espaço. O esforço investido para obter resultados mínimos ou médios, por vezes é muito superior. A família vive intensamente com eles as suas dificuldades. Não há tempo para distrações ou convívio. O desgaste e a pressão podem tornar-se desmedidos. A sua vida de estudante torna-se muito esforçada e angustiante. Abandonam a escola ou decidem-se por um projeto de vida mais simples, para evitar grandes textos escolares.

Casos há que conseguem resistir e, ano após ano, vão vencendo obstáculos de todo o tipo, enriquecendo-se nessa luta quotidiana, tornando-se resilientes, saindo fortalecidos. Passado o período escolar, seguem caminhos bem-sucedidos, porventura de produção notável, pondo a sua criatividade em ação. Acreditar em si pode ter resultado do olhar compreensivo de um dado professor que encontrou um dia e lhe manifestou apreço por algo por si produzido.