Vacinação após diagnóstico de HSIL
Hospital Lusíadas Porto/Faculdade de Medicina da Universidade do Porto/Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade de Ghent/Presidente eleito da International Society for the Study of Vulvovaginal Disease

Vacinação após diagnóstico de HSIL

O papel da vacinação contra o HPV enquanto ferramenta de prevenção primária contra o desenvolvimento de lesões de alto grau e invasivas associadas àquele vírus é hoje insofismável. Nunca é demais lembrar que Portugal se encontra entre os líderes em termos de taxa de cobertura das populações-alvo, embora a guarda não possa nunca ser descurada.

A experiência clínica e os estudos de monitorização têm confirmado a enorme segurança das vacinas contra o HPV e uma eficácia acima do esperado aquando da sua concepção, mesmo em cenários para os quais não foram inicialmente pensadas. Os dados disponíveis até ao momento, ainda que maioritariamente oriundos de estudos observacionais, demonstram eficácia na redução de recorrência de lesões de alto grau do colo uterino.

Num estudo conduzido em Portugal, e que se encontra sob apreciação para publicação, avaliou-se o potencial impacto da vacinação sistemática contra o HPV em 170 mulheres com diagnóstico de lesão de alto grau do colo uterino e não previamente vacinadas. Para tal, compararam-se os resultados com uma coorte histórica de 655 mulheres, não vacinadas. Conclui-se que a taxa de persistência/recorrência de lesão de alto grau cervical, até aos 18 meses, foi 2,9 versus 7,0% (p=0,049), respectivamente. No modelo de regressão logística aplicado, apenas a vacinação e o estado das margens da peça de excisão da zona de transformação estiveram significativamente associados a menor risco daquele desfecho. O número necessário para tratar foi de 18,4 (IC 95% 15,3-53,8).

Apesar das limitações (estudo observacional, dimensões relativamente pequenas, duração do seguimento curta), os resultados são encorajadores e favorecem a recomendação da manutenção deste tipo de programas.

Diminuir o surgimento de novas lesões evitará ansiedade e conduzirá a poupança – sendo as verdadeiras dimensões desta última dificilmente mensuráveis e indo muito para além do que se gastaria em exames e tratamentos (incluindo de cancros de colo do útero). Os procedimentos excisionais do colo do útero aumentam o risco de parto pré-termo, especialmente nos casos em que há lugar a repetição dos mesmos.

A publicação de vários estudos aleatorizados é aguardada para este ano, destacando-se o NOVEL, que contribuirá para esclarecer o papel da vacinação neste contexto. Contudo, à data, a vasta maioria dos estudos mostrou eficácia. São ainda muitas as questões que se mantêm em aberto, incluindo: a idade até à qual valerá a pena vacinar, número de doses necessárias e esquema vacinal ideal, eventual papel da revacinação, altura ideal para vacinar (a evidência sugere que o início da vacinação deverá preceder o tratamento), papel nas mulheres com lesão de alto grau em atitude expectante, resposta nas mulheres imunodeprimidas, vacinação nos estádios iniciais de cancro do colo do útero, entre outras.

A evidência relativa a lesões similares na vulva, vagina, região perianal e ânus é mais limitada, mas existem alguns pareceres de peritos e sociedades científicas internacionais a recomendar a vacinação.

Os estudos disponíveis à data permitem recomendar a vacinação de mulheres com lesão de alto grau do colo uterino, não previamente vacinadas, com o intuito de prevenir as recorrências. Havendo confirmação destes dados e demonstrado o custo-eficácia nos estudos aleatorizados, será desejável que a vacinação neste contexto passe a ser gratuita ou comparticipada.

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