Qual a importância da vacinação antipneumocócica, até tendo em conta o cenário de pandemia que atravessamos?

A vacinação antipneumocócica protege-nos de formas graves e potencialmente fatais de doença pneumocócica como é o caso da Pneumonia, da Meningite ou da Septicémia. A pandemia que vivemos atualmente veio reforçar ainda mais a nossa fragilidade perante este tipo de acontecimentos.

E se é um facto que a vacina antipneumocócica não tem ligação ao coronavírus, a realidade também nos mostra que, se contrairmos uma Pneumonia, uma Meningite ou uma Septicémia nesta altura, a recuperação estará dificultada. Não nos esqueçamos de que existe uma elevada sobrecarga dos serviços de saúde e de que os equipamentos disponíveis poderão não ser suficientes. Para o coronavírus ainda não temos, vacina, mas felizmente ela é uma realidade no caso de outras doenças como a Pneumonia. Apostemos na sua prevenção.

Que grupos devem fazer a vacina?

Entre os mais vulneráveis à Pneumonia, temos os que se encontram mais fragilizados pelo seu sistema imunitário: extremos das idades (crianças e pessoas a partir dos 65 anos), e adultos com doenças crónicas como diabetes, asma, DPOC e outras doenças respiratórias crónicas, doença cardíaca, doença hepática crónica, doentes oncológicos, portadores de VIH e doentes renais. São considerados grupos de risco e devem estar particularmente protegidos. Existe, inclusivamente, desde junho de 2015, uma Norma da Direção Geral da Saúde que recomenda a vacinação antipneumocócica a todos os adultos pertencentes aos grupos de risco.

Em que moldes a vacina deve ser administrada, por exemplo em que período do ano?

Tal como a Pneumonia não é sazonal – existem casos ao longo de todo o ano – também a vacinação antipneumocócica pode ser realizada em qualquer altura. E se no caso das crianças e de alguns grupos de risco está em PNV, obedecendo naturalmente a um esquema vacinal, no caso dos adultos tem a vantagem de ser toma única. Ou seja, basta uma dose para ficar protegido contra as principais formas de doença pneumocócica, ao longo da vida.

A vacina é gratuita para os grupos de risco? Onde pode ser administrada?

A vacina é gratuita e está em PNV para crianças e para alguns grupos de risco, segundo a Norma 011/2015 da Direção Geral da Saúde. Para a restante população tem uma comparticipação de 37%. A sua eficácia está comprovada em todas as faixas etárias, incluindo na prevenção das formas mais graves da doença. Uma das nossas “batalhas” é conseguir estender a sua gratuitidade a partir dos 65 anos, medida que beneficiaria cerca de 21% da população e que reduziria os custos fixos com a doença: só em internamentos por Pneumonia gastamos uma média de 80 milhões de euros por ano.

Qual é a taxa de eficácia conhecida desta vacina? Existem estimativas sobre o número de, por exemplo, infeções respiratórias graves ou internamentos que evita em Portugal a cada ano?

Segundo um estudo recente* que avaliou a eficácia da vacina antipneumocócica conjugada 13 valente na população adulta, o simples ato de imunização pode reduzir o risco de hospitalização por pneumonia em 73%. Esta redução nos internamentos leva-nos a crer que a imunização pode prevenir milhares de hospitalizações, absentismo e, no limite, as irreversíveis mortes.

Qual a adesão dos doentes de risco à vacinação?

No ano passado o MOVA avaliou as perceções da comunidade sobre vacinação, através de um inquérito aos nossos seguidores e seus contactos. Os resultados falaram por si: começamos, como comunidade, a ter uma boa consciência da importância da vacinação, não só nos mais novos, mas em todas as faixas etárias. Continua a haver, no entanto, algum desconhecimento entre quem devia estar mais informado, no caso, os grupos em maior risco. Entre os inquiridos mais vulneráveis à Pneumonia (quem sofre de doenças crónicas como diabetes, asma, DPOC, doença respiratória crónica, doença cardíaca, doença hepática crónica, é doente renal ou portador de VIH ou tem mais de 65 anos), apenas 44,62% tinha sido aconselhado pelo seu médico a vacinar-se contra a doença. 55,38%, apesar de ter maior probabilidade de a contrair, não tinha sido aconselhado.

Os médicos têm um papel importante no aconselhamento para a toma da vacina. Ainda existe alguma desvalorização/não aconselhamento da parte dos médicos?

Os profissionais de saúde são fundamentais na divulgação da informação e no aconselhamento da vacinação. Mais do que os constrangimentos económicos, que existem naturalmente, diferentes estudos como o PneuVUE®** mostram que a falta de informação é a principal causa apontada para a baixa taxa de imunização contra a pneumonia. Segundo o PneuVUE®, em Portugal, 84% dos vacinados contra a pneumonia afirmaram tê-lo feito no seguimento de aconselhamento médico, o que reforça a importância da educação pelos profissionais de saúde na proteção dos grupos de risco.

O mecanismo que mais frequentemente conduz à vacinação contra a pneumonia é a recomendação pelo médico. Dos inquiridos vacinados contra a pneumonia, 71% indicaram recomendação pelo médico de Medicina Geral e Familiar, e 20% foram aconselhados por outro médico especialista. Por outro lado, 55% das pessoas que ainda não tinham feito a vacina indicaram a falta de indicação pelo médico como o principal motivo.

 

*McLaughlin J, et al. Effectiveness of 13-Valent Pneumococcal Conjugate Vaccine Against Hospitalization for Community-Acquired Pneumonia in Older US Adults:  A Test-Negative Design. Clin Infect Dis 2018 doi: 10.1093/cid/ciy312.

**Ipsos MORI: Conclusões para Portugal do PneuVUE® (Adult Pneumonia Vaccine Understanding in Europe – Conhecimento da vacinação contra a pneumonia para adultos na Europa)

TC/SO

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