8 Jun, 2020

Tratar o doente hemato-oncológico em tempos de pandemia

Quando o SNS está a retomar a atividade clínica, importa fazer o balanço do que foi necessário alterar desde o início da pandemia causada pelo novo coronavírus e perceber como os serviços de hematologia se prepararam para assegurar os tratamentos dos doentes hemato-oncológicos.

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Este foi o mote para o webinar “COVID-19 e Hematologia: Qual o novo normal?” em três perspetivas: o tratamento de linfomas, a transplantação e o tratamento com células CAR-T. Tratou-se de uma iniciativa do jornal SaúdeOnline que contou com o apoio da Gilead Sciences.

No passado dia 3 de junho o jornal SaúdeOnline juntou três hematologistas para uma conversa sobre a forma como os serviços de hematologia estão a fazer frente ao contexto da pandemia causada pelo novo coronavírus. Os convidados foram a Prof.ª Doutora Maria Gomes da Silva, diretora do Serviço de Hematologia do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, o Prof. Doutor Manuel Abecassis, presidente do Colégio de Especialidade de Hematologia Clínica da Ordem dos Médicos e responsável pelo Programa de Transplantação de Medula Óssea do IPO de Lisboa, e o Dr. Mário Mariz, diretor do Serviço de Hematologia do IPO do Porto e membro da Sociedade Portuguesa de Hematologia.

Fazendo um balanço sobre a forma como o tratamento dos doentes com linfomas decorreu desde que foi detetado o primeiro caso de infeção por coronavírus em Portugal, a Prof.ª Doutora Maria Gomes da Silva reconheceu que, relativamente à organização do serviço, “a quantidade de mudanças foi enorme e muito rápida”, pondo à prova a capacidade de adaptação dos profissionais. As alterações organizacionais passaram sobretudo pela separação das equipas – internamento, consultas e hospital de dia – tentando minimizar os contactos entre os profissionais e, assim, reduzir o risco de possíveis infeções pelo SARS-CoV-2.

Já o acompanhamento dos doentes passou a incorporar a testagem para a presença do novo coronavírus antes dos internamentos, do início dos tratamentos e sempre que vinham referenciados de outras unidades.

Contudo, a hematologista reconheceu: “Tivemos de nos adaptar a muitas coisas, mas não mudámos os princípios básicos do tratamento dos linfomas ao longo destes três meses”.

O que mudou foi o número de doentes referenciados para o serviço de hematologia pelas unidades dos cuidados de saúde primários, como reconheceu a Prof.ª Doutora Maria Gomes da Silva, que analisou os dados desde março e encontrou uma quebra da referenciação a rondar os 19%.

Agora, com o retomar da atividade não-COVID também por parte dos especialistas em Medicina Geral e Familiar, a hematologista tem reparado que o número de doentes encaminhados para o serviço que dirige está quase a voltar aos valores anteriores ao início da pandemia.

 

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Retoma dos transplantes hematopoiéticos em curso

O Prof. Doutor Manuel Abecassis contou que, quando foi declarado o estado de emergência, a equipa do programa de transplantação hematopoiética do IPO de Lisboa decidiu fazer uma “suspensão transitória da atividade” de transplantação. O motivo, explicou o responsável, esteve relacionado com a não garantia de que os doentes transplantados teriam suporte de cuidados intensivos caso necessitassem e “pelo receio de eventuais dificuldades no suporte transfusional” caso também fosse necessário, pois o SNS estava concentrado na resposta aos doentes COVID.

Foi por altura da declaração do fim do estado de emergência que o serviço retomou a atividade de transplantação e “neste momento temos a nossa atividade a funcionar normalmente, quer em termos de transplantação autóloga, quer em termos de transplantação alogénica”, contou o hematologista.

Até ao momento, realizaram apenas transplantes autólogos, mas até final do mês de junho já têm programados seis transplantes alogénicos, sempre respeitando as orientações do colégio da especialidade relativamente à organização dos serviços de hematologia e ao seguimento dos doentes.

Tratamento com células CAR-T sem interrupção

No Porto, o Dr. Mário Mariz deu nota de que a atividade do programa de tratamento com células CAR-T não foi interrompida durante o tempo em que o país esteve em estado de emergência.

O hematologista contou que, mesmo com a pandemia em curso, a equipa conseguiu “manter a atividade quase normal” e incluiu quatro doentes no programa – dois do IPO do Porto e outros dois referenciados por outras instituições, um dos quais dos Açores – tendo em conta as orientações do colégio de especialidade e com a garantia por parte das companhias farmacêuticas que o transporte para as fábricas internacionais onde é feita a manipulação das células do doente e a produção dos medicamentos estaria sempre assegurado.

Acreditando que a situação pandémica está mais ou menos controlada, o Dr. Mário Mariz mostrou-se confiante na prossecução deste programa de tratamento sem constrangimentos no acesso por parte dos doentes, mesmo com o SARS-CoV-2 ainda a necessitar de atenção redobrada por parte dos serviços de saúde.

Questionado por especialistas que assistiam ao webinar sobre a razão para ter continuado com o programa de tratamento com células CAR-T, o hematologista lembrou que estes são doentes com uma doença agressiva para quem não há alternativas terapêuticas e esperar, mesmo que breves semanas, podia fazer muita diferença e acabar por condenar estes doentes.

E com a situação do IPO do Porto a dar boas condições, mantendo a política COVID-free, a equipa assumiu que “com alguma segurança, podíamos manter o programa aberto e acho que fizemos bem porque correu bem”, relatou o Dr. Mário Mariz.

Questionado também sobre os critérios de elegibilidade dos doentes para o tratamento com células CAR-T, o hematologista enumerou “o estado geral do doente, o não ter disfunção significativa de órgão, e ter a indicação para o tratamento que é ter um linfoma difuso de grandes células B que tenha sido tratado com, pelo menos, duas linhas de tratamento”.

Contudo, o Dr. Mário Mariz deixou o alerta: “Fazer esta terapêutica quando o doente já fez cinco ou sete linhas [terapêuticas] perde-se muito na eficácia porque os linfócitos T não estarão nas melhores condições para combater o linfoma”. “Acho que num doente que é refratário à primeira linha se deve começar logo a equacionar a possibilidade de que, se calhar, vamos precisar desta terapêutica porque a probabilidade de responder a uma segunda [linha] vai ser pequena e então se não responder a uma segunda [linha terapêutica], aí, de facto, tem mesmo de soar o alerta porque mais quimioterapia provavelmente não vai ter sucesso”, acrescentou.

Da experiência dos três especialistas ficou a mensagem final de que o SNS está com melhor preparação para a eventualidade de uma 2.ª vaga da pandemia por SARS-CoV-2. Não só pelo conhecimento, e pelas orientações, que já têm sobre a forma como se pode fazer o seguimento do doente hemato-oncológico nestas circunstâncias, mas, sobretudo, pelas alterações verificadas na forma de trabalho dos profissionais, de onde destacaram o crescente papel da telemedicina na prática clínica diária.

RV/SO

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