16 Fev, 2022

Resposta à depressão “negligenciada”. Metade dos doentes por diagnosticar ou tratar

Especialistas qualificam a situação de “crise sanitária global” e alertam que metade das pessoas com depressão está por diagnosticar.

A resposta à depressão tem sido “negligenciada e subfinanciada”, alertam os especialistas da Associação Mundial de Psiquiatria, num estudo publicado na revista científica The Lancet, apelando a um movimento global para combater o fenómeno.

“É tempo de uma ação concertada sobre a depressão” é o título do estudo da Comissão de Depressão da Associação Mundial de Psiquiatria, que reuniu 25 especialistas de 11 países e vários continentes.

Apesar de, a cada ano, “cinco por cento dos adultos em todo o mundo” sofrerem de depressão, esta permanece “negligenciada”, constatam os especialistas, qualificando a situação de “crise sanitária global”.

O apelo é coletivo, dirigido a governos, profissionais de saúde, investigadores e pessoas com depressão e suas famílias, porque o primeiro passo é a sensibilização para detetar e prevenir “uma das principais causas evitáveis de sofrimento e morte prematura”.

Os especialistas referem que “o pouco conhecimento sobre esta condição e a falta de recursos psicossociais e financeiros têm impacto na prevenção, diagnóstico, tratamento e prosperidade económica das nações”.

É necessária “uma abordagem de toda a sociedade para prevenir a depressão”, de forma a atingir resultados como os obtidos para as doenças cardíacas ou o cancro, comparam os especialistas, alertando que a depressão está a surgir mais frequentemente nos jovens.

“A prevenção é o aspeto mais negligenciado da depressão”, aponta Lakshmi Vijayakumar (Índia), um dos autores do estudo.

O mundo está a falhar em resolver a persistente e crescentemente grave crise global de depressão”, constatam, recordando as “abundantes evidências de que muito pode ser feito para prevenir a depressão”, mesmo em países com recursos limitados.

“Em países com elevados rendimentos, cerca de metade da população com depressão não está diagnosticada ou tratada, percentagem que sobe para 80 a 90 por cento nos países com rendimentos médios ou baixos”, especificam.

A pandemia de covid-19, reconhecem, trouxe “desafios adicionais, com o isolamento social, o luto, a incerteza, a crise e o acesso limitado a cuidados de saúde a representarem um custo elevado para a saúde mental de milhões de pessoas”.

O estudo inclui uma série de recomendações, defendendo uma abordagem personalizada, faseada e multissetorial.

“O investimento na redução do peso da depressão vai dar a milhões de pessoas a oportunidade de serem mais saudáveis, mais felizes e mais produtivas na sociedade, ajudará a fortalecer as economias nacionais e a avançar nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para 2030”, elenca a presidente da Comissão de Depressão, Helen Herrman (Austrália).

Apesar de ser “uma condição usual em todo o mundo”, persistem “muitos mitos”, que “perpetuam a inação”, incluindo ser “simples tristeza, um sinal de fraqueza, própria de apenas certos grupos”.

Salientando que a depressão “pode afetar qualquer um”, os especialistas reconhecem que o risco aumenta em cenários de “adversidade, incluindo pobreza, violência, deslocamento e discriminação de género, raça ou outra forma”, deixando sempre “efeitos a longo prazo”.

Os estudos – lembram – revelam que 70 a 80 por cento das pessoas que morrem por suicídio nos países com elevados rendimentos sofriam de uma doença mental, sendo a mais frequente a depressão.

A depressão tem ainda um “enorme e subreconhecido peso social e económico para as pessoas, as famílias, as comunidades e as nações”, apontam.

Antes da pandemia, estimava-se que a doença representasse uma perda anual de um bilião de dólares para a economia mundial.

“Mais investimento é necessário para garantir que as pessoas recebem os cuidados de que precisam, quando e onde precisam”, defendem os especialistas.

“Provavelmente não há outro problema de saúde tão comum, oneroso, universal e tratável como a depressão, porém recebe pouca atenção política e poucos recursos”, retrata a vice-presidente da Comissão, Christian Kieling (Brasil).

LUSA

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