18 Mai, 2021

Reportagem. Quando ultrapassar a Covid-19 significa continuar doente

Reportagem no Hospital de Santa Marta, onde a consulta pós-covid junta enfermeiros especialistas e médicos no apoio a cerca de 2600 doentes.

Portugal está num ponto de viragem da pandemia de covid-19, com cerca de três milhões de pessoas com pelo menos uma dose da vacina, mas desperta para as sequelas em muitos dos mais de 800 mil doentes recuperados.

Pelo país começam a multiplicar-se consultas pós-covid para lidar com as marcas deixadas pela infeção provocada pelo vírus SARS-CoV-2, cada vez mais descrita pelos especialistas como multissistémica e crónica.

O Hospital de Santa Marta, que integra o Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC), é uma dessas unidades, onde ainda decorrem obras para a abertura formal da consulta, prevista para as próximas semanas, mas à qual os doentes já começaram a chegar.

Com um passo lento, Maria da Conceição, de 65 anos, entra no pequeno gabinete do quinto piso onde já se encontra a enfermeira Neuza Reis, especializada em reabilitação. É o regresso a um hospital, aproximadamente cinco meses depois de ter tido covid-19, desta vez não numa cama, mas para se sentar numa cadeira e falar sobre os despojos da doença.

Esteve três semanas internada entre novembro e dezembro, tendo sido admitida no Hospital de São José – com febre de 42 graus, tosse, vómitos e diarreia – e, posteriormente, transferida para o Hospital Curry Cabral, onde precisou de oxigénio de alto débito, mas escapou aos cuidados intensivos. Ainda não voltou ao trabalho e continua em casa com a família, que também passou quase toda pela infeção por SARS-CoV-2 no final de 2020, embora sem sintomas de maior.

 

Cansaço; equilíbrio e memória afetados

 

“Trabalhava num lar de terceira idade e era tão ativa! Nunca mais serei a mesma pessoa. Fico cansada facilmente, tenho alguma falta de equilíbrio e a memória ficou afetada. Há atividades que não consigo fazer sozinha. Visto-me sozinha, mas fico cansada e com pouca força, não consigo aspirar, nem trocar os lençóis da cama”, conta a paciente na sua primeira consulta pós-covid, que foi acompanhada pela Lusa.

Sentada do outro lado da mesa, a enfermeira inicia uma série de perguntas sobre o estado de Maria da Conceição. Nas mãos tem um questionário de autopreenchimento, mas a paciente pede para Neuza Reis preencher. “Sente-se fatigada?”, pergunta a profissional de saúde e as respostas surgem com esforço: “Um bocado. Às vezes, canso-me só por estar a falar ou a comer. Andar 100 metros sem parar é muito difícil”.

“Os inquéritos estão validados nacionalmente com a Direção-Geral da Saúde. As escalas ajudam a dizer objetivamente às pessoas como estão. A capacitação dos doentes é importante para a sua evolução”, esclarece a enfermeira, sublinhando que “a ideia deste projeto é os doentes não andarem aos saltos entre os diferentes profissionais” das diversas especialidades.

E prossegue, então, com questões de ordem não só física, mas também psicológica: “Sente-se tensa ou ansiosa?”. Com um timbre afetado, Maria da Conceição assume: “Na maior parte das vezes. Já não tenho vontade de nada, tenho medo de que algo terrível está para acontecer.”

Mesmo entre as respostas, respirar parece um desafio extenuante. Questiona por diversas vezes se aquilo que está a sentir é “normal”, ao que a enfermeira de reabilitação, de 45 anos, assegura que sim. “Não percebo como uma coisa invisível faz isto”, desabafa. “Ele não é invisível”, contrapõe Neuza Reis, que efetua então as medições do oxigénio e da tensão arterial, seguidas de um simples exercício – sentar e levantar de uma cadeira.

“Quando me quiser levantar outra vez é só de noite”, graceja Maria da Conceição, apesar de a sua voz denunciar a incerteza relativamente ao futuro.

Já se passaram cerca de 30 minutos e a enfermeira dá então o lugar ao médico internista Miguel Toscano Rico, responsável pela consulta de pós-covid no Hospital de Santa Marta. No computador, recupera as informações do processo de Maria da Conceição e vê os resultados dos exames realizados, mas a antiga assistente num lar de idosos não esconde a preocupação.

“Ainda continuarei muito tempo com estas coisas? Se vou ficar com isto para a vida, já nem tenho vontade de viver. Gostava que me explicasse como vou viver… Estou numa prisão”, afirma. Miguel Toscano Rico mostra um semblante tranquilo e propõe um plano terapêutico de reabilitação respiratória e muscular, mas decide ainda consultar uma colega pneumologista noutra sala, que corrobora as impressões positivas sobre a recuperação da paciente.

“Parece que não vai ficar com muitas sequelas respiratórias, estou até muito tranquilo”, indica, complementando: “Vamos ver tudo e não vamos deixar pedras por levantar. Vai ser chamada depressa outra vez, porque temos ‘via verde’”. Despede-se de Maria da Conceição, com a garantia de que ela voltará na semana seguinte para nova avaliação.

Sobre a consulta especializada em pós-covid, o médico internista do Hospital de Santa Marta explica que são esperados cerca de 2.600 doentes, convocados “de forma faseada” para avaliar o estado funcional em que ficaram após a infeção. O serviço vai agregar profissionais de todos as unidades do CHLC para “tentar dar uma resposta coordenada” às sequelas que possam existir, sejam elas de cariz respiratório, cardíaco ou psicológico, quer em doentes que tiveram uma infeção grave, quer naqueles que passaram por queixas mais ligeiras.

“O conceito é inovador: é o hospital que se adapta às necessidades do doente. Pode ir a uma consulta da medicina ou da pneumologia e, se precisar de observação de outra especialidade, é visto no dia e na hora. Pomos a tónica em pessoas que ficaram com sequelas, que têm a vida condicionada e tentamos ser o menos intrusivos possível nas suas rotinas”, refere.

Pneumologia, medicina interna, medicina física e de reabilitação, neurologia, psiquiatria e cardiologia são as principais áreas associadas a esta consulta, para a qual o clínico enfatiza o “sentido de missão” dos diversos profissionais, em que muitos “ficaram vinculados a estes dramas” da covid-19. Por outro lado, há também o desejo de conhecer melhor os mecanismos fisiopatológicos por trás da persistência das queixas no tempo.

“Há várias linhas de interpretação: uma delas é que persistam formas latentes e subclínicas de deteção, ou seja, a doença ser provocada pela persistência do vírus em doses pequenas. A outra linha de investigação é que, a seguir ao processo infeccioso, em que o sistema produziu uma resposta imunológica, seja a própria imunidade a causar a lesão, quase como uma doença autoimune. Ainda há muito caminho a percorrer aqui”, nota.

Para Miguel Toscano Rico, a consulta de pós-covid pode mesmo evoluir para uma nova especialidade e deixa o seu prognóstico: “A dedicação à covid vai precisar de algum grau de especialização. Vai ser preciso que os internos de especialidade façam estágio em grupos que tratam a covid-19 e saibam que em algum ponto do percurso vão encontrar estes doentes”.

SO/LUSA

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