26 Mar, 2018

Perfecionismo e controlo mental entre as principais características psicológicas dos homicidas

Pela primeira vez em Portugal, um grupo de psicólogos avaliou os sintomas psicopatológicos, a personalidade e o processamento emocional de reclusos condenados por homicídio.

O estudo contou com a participação de 30 homicidas presos em vários estabelecimentos prisionais do país e foi liderado por Dulce Pires, do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro, durante o Doutoramento em Psicologia da UA. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, a investigadora já trabalhou como Psicóloga Clínica e Formadora em contexto prisional, tendo estado em contacto com reclusos que comentaram este e outros crimes.

Para este estudo, os 30 reclusos, condenados por homicídio voluntário, foram submetidos a testes e entrevistas de avaliação de psicopatologia, de personalidade, de psicopatia e da forma como identificam e processam as emoções. O mesmo procedimento foi aplicado a outro grupo de 30 homens sem história criminal selecionados de forma aleatória.

A equipa de Dulce Pires concluiu que o grupo de reclusos, comparativamente ao grupo de controlo, apresentava pontuações mais elevadas na escala de Compulsividade. “Esta escala está ligada segundo o grau de gravidade à Perturbação de Personalidade Obsessivo-Compulsiva (não confundir com Perturbação Obsessivo-Compulsiva) que se reporta a pessoas com tendência a uma preocupação com a ordem, perfecionismo, controlo mental e interpessoal. Dependendo do grau de severidade, esta perturbação pode interferir em todas as áreas da vida”, explica a psicóloga Dulce Pires, citada em comunicado.

A investigadora identificou ainda entre os reclusos a presença de sintomas de stresse pós-traumático, o que remete para a existência de algum tipo de trauma psicológico: “Sabemos, pela literatura, que nestes indivíduos, além de poderem existir traumas relacionados com acontecimentos de vida, como na restante população, o próprio crime pode constituir um trauma”, explica Dulce Pires. Quanto à caracterização da personalidade, sublinha a investigadora, “salienta-se o resultado na faceta da impulsividade, que é considerada na literatura científica como um fator de risco do comportamento criminal”.

Investigadora e psicóloga Dulce Pires

Outro aspeto diferenciador entre os grupos estudados foi a presença de psicopatia nos reclusos condenados por homicídio em comparação com o grupo de controlo, que não apresentou indícios. “Este aspeto tem estado presente na literatura científica, em variados estudos, associados ao comportamento violento. A presença de características de psicopatia continua a ser um fator de relevo presente nalguns indivíduos que cometem este tipo de crime”, afirma.

Já no processamento emocional, a investigadora encontrou diferenças em ambos os grupos, pelo que “o grupo de reclusos apresentou um padrão de desempenho ao nível da identificação e reconhecimento das emoções diferente do encontrado no grupo de controlo”, por exemplo, no que diz respeito às emoções de medo, alegria, tristeza, surpresa. Existindo interpretações erradas na identificação e reconhecimento de emoções, explica a especialista, “estas afetam a forma como o indivíduo se relaciona com o outro, como interpreta as situações quotidianas, podendo em situações críticas, de conflito, constituir um fator de risco na passagem ao ato, e também assim a nível do comportamento violento”.

“O homicídio é um fenómeno extremamente complexo, que ocorre no contexto de uma multiplicidade de fatores, quer pessoais, quer culturais e situacionais, sendo fundamental a continuidade dos estudos e das investigações que atendam não só a este tipo de crime como a outros, no foco da sua especificidade”, aponta Dulce Pires.

Assim, a investigação da UA pretende ser um indicador dos aspetos importantes a trabalhar com indivíduos condenados por homicídio, quer ao nível do tratamento de psicopatologia quer ao nível da identificação e gestão de emoções. A investigadora reforça desta forma “a importância da avaliação psicológica e tratamento em contexto prisional, e após o cumprimento da pena, já em sociedade”. Para tal “será necessário um reforço a nível de especialistas na área da psicologia e psiquiatria” para poder fazer face a estas necessidades. “Estes indivíduos necessitam de apoio continuado a nível psicológico e social”, alerta a psicóloga.

Para além das áreas do tratamento e reabilitação, o estudo pretende ajudar igualmente os profissionais da investigação criminal e da prevenção, pela informação que pode dar no entendimento do crime e do ofensor.

COMUNICADO/SO

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