O Vício Perigoso da Teleconsulta
Quando somos confrontados com crises que afetam a mobilidade das pessoas, como foi a pandemia covid-19 ou as alterações climáticas que às vezes nos assolam, a manutenção do contacto com o nosso doente através do telefone é uma boa alternativa. É claro que ainda é melhor, se for acompanhada de imagem, que nos permite ver o doente que conhecemos há muito e detetar pequenas diferenças inquietantes. Mas, estou firmemente convicto de que a teleconsulta serve apenas para colmatar uma falha presencial inevitável, num doente estável com diagnósticos bem estabelecidos.
É muito português adaptarmo-nos às circunstâncias adversas. Somos fracos a prevenir e a planear, mas desenrascamo-nos com mestria! Por outro lado, há um conformismo cultural de que é sempre melhor ter alguma coisa do que coisa nenhuma. A descoberta da possibilidade de fazer consulta telefonada, que a maioria dos médicos experimentou na pandemia covid-19, é perigosa. Por ser mais fácil e poupar tempo ao médico e ao doente, tem tendência a normalizar-se como alternativa à consulta presencial.
Sou internista há 30 anos, especialmente dedicado às doenças autoimunes. Quando vão à consulta no hospital, os doentes levam a sua patologia reumatismal e todos os outros órgãos, o que me obriga sempre a garantir não estarem a querer pregar-me a partida. Já mandei doentes do consultório para o Serviço de Urgência por descompensações da sua doença de base, ou por outra sem qualquer relação. Várias cardioversões, pelo menos três doentes acabaram no bloco cirúrgico, e muitos tiveram que ser internados. Em cada ocasião, agradeci aos deuses a inspiração para ter suspeitado do diagnóstico inesperado e reforcei a minha certeza de que nada substitui o contacto direto com o doente.
Com grande pena minha, muitos dos meus doentes referem a sua dificuldade para terem uma consulta com o seu médico de família. A maior parte, não estão com ele há mais de um ano, ou apenas tiveram uma consulta telefonada para renovarem a receita e manterem o vínculo ao Centro de Saúde. Já recebi pedidos de primeira consulta de Doenças Autoimunes feitos por colegas de Medicina Geral e Familiar na sequência duma consulta telefonada. Não percebo como se pode avaliar clinicamente um doente com uma queixa nova sem o observar, e enviá-lo a uma especialidade hospitalar.
A consulta telefónica sistemática banaliza o trabalho médico e pulveriza a confiança do doente. Para mim, é assustadora a quantidade de coisas que nos podem escapar, se não estamos com o doente. É preciso falar com ele, interpretar-lhe os silêncios, perscrutar-lhe os humores e fazer um exame físico básico. Para a teleconsulta, é possível que o robot da inteligência artificial nos substitua, até com vantagem. Espero que não cheguemos a tanto, mas é melhor que os médicos não se ponham a jeito!
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