
Ex-presidente do Colégio de Especialidade de MI da OM e da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
Discriminação Positiva da Medicina Interna: Uma Urgência no SNS
A 8 de janeiro de 2016, nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), o Dr. António Arnaud proferiu uma conferência memorável intitulada “O Futuro da Saúde em Portugal”. A sala estava cheia para ouvir o tribuno de excelência, mas também porque ali estava o político visionário, que tinha concretizado o sonho de generalizar a assistência médica a todos os Portugueses. Segundo muitos, esta foi a maior conquista do 25 de abril. É justo dizer isso. Antes, as Caixas de Previdência só tinham acesso 15% da população e nos hospitais só não pagavam os portadores dum cartão de indigência passado pelas Câmaras Municipais.
A conferência do Dr. António Arnaud foi o ponto alto da inauguração duma exposição, “Medicina Interna – A Visão Global do Doente”, que se manteve nos HUC até março de 2016, e depois percorreu vários Hospitais do País. A falar do seu Serviço Nacional de Saúde, o Dr. António Arnaud não parecia ter 80 anos. Voltava a ser o parlamentar exuberante e entusiasmado, que fez com que os outros acreditassem num Portugal moderno, em que os cuidados de saúde não fossem só para ricos ou indigentes. Explicou com clareza, que as traves mestras do SNS eram a Medicina Interna nos Hospitais e a Medicina Geral e Familiar no ambulatório. Era visível a sua alegria por todas as conquistas do SNS, com feitos notáveis em todos os indicadores de saúde, que nos colocavam nos lugares cimeiros do ranking mundial, muito acima do nosso nível económico ou social.
O Dr. António Correia de Campos, foi Ministro da Saúde em dois Governos, no XIV de 2001 a 2002 e no XVII de 2005 a 2008. Nenhum outro Ministro da Saúde se lhe compara, em conhecimento, persistência nos objetivos e coragem política. Acabou por não resistir no Ministério à polémica da reforma dos Serviços de Urgência, mas a obra ficou! Para além da reforma das Urgências, foi ele quem melhor interpretou a forma de construir um SNS forte e resiliente, com a abertura anual de cerca de 200 vagas para a especialidade de Medicina Interna. Essa cadência na formação de novos Internistas manteve-se nos anos seguintes. No Inventário do Pessoal de Saúde, publicado pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) a 20/6/2012, a Medicina Interna era a maior especialidade Médica no Hospital (12,6%), com 1585 Internistas. Que eu saiba, a ACSS não publicou qualquer atualização destes dados. Mas, não tenho quaisquer dúvidas, e há vários estudos que o comprovam, que foi a Medicina Interna a especialidade que mais contribuiu para o combate à epidemia covid-19 e que logrou vencê-la!
Em 2023, pela primeira vez, algumas vagas de especialidade de MI ficaram vazias. Muitos potenciais candidatos preferiram não escolher MI, e irem para tarefeiros do Serviço de Urgência ou emigrarem. Alertei nessa altura para o péssimo sinal que isso representava. Em novembro de 2025, das 200 vagas de MI em concurso, só 50% foram preenchidas.
Sou Internista convicto há 30 anos, mas não é por um sentimento corporativo que considero ser urgente uma discriminação positiva da MI no SNS. Há que voltar a incrementar o crescimento do número de especialistas de MI, porque se tal não acontece o nosso modelo de SNS acabará por ruir.
Os Serviços de MI detêm cerca de 40% das camas dos hospitais públicos, chegando aos 60% no período do Inverno. Nessas camas, estão os doentes mais complexos, mais velhos e com múltiplas doenças. Às vezes, o raciocínio clínico é difícil e a investigação é longa, até ser encontrado o almejado diagnóstico. Noutras, o doente morre-nos sem o conseguirmos, e mortificamo-nos a pensar se alguma coisa nos escapou! Mas, com maior tempo de trabalho médico, porque há mais doentes que não podem deixar de ser vistos, ou porque algum complicou e há que resolver a situação, o salário é sempre o mesmo ao fim do mês.
Em janeiro de 2026 entraram os primeiros 30 Internos de Formação Específica de Medicina de Urgência, em todo o País. Não me interessa agora discutir a vantagem para a população da criação desta nova especialidade médica. Apenas fica bem claro que nos próximos 20 anos, terá de continuar a ser a Medicina Interna a garantir o funcionamento dos Serviços de Urgência nos Hospitais, com segurança e competência. Mas, nos últimos 30 anos o acesso do doente agudo aos Cuidados Primários piorou sempre, acompanhando os recursos excessivos aos Serviços de Urgência. Em Portugal, o dobro do que se verifica nos Países da OCDE. Como se isso não bastasse, assiste-se à fuga das especialidades e dos seus IFE da Urgência Geral. Só ficam os Internistas e os IFE de MI, cada vez menos e mais esgotados.
Nas Unidades de Hospitalização Domiciliária, os médicos são quase todos internistas. A evolução natural, que já ocorreu nos Países do Norte da Europa, é que a hospitalização domiciliária possa ser alargada ao doente crónico complexo, para além do atual doente agudo de gravidade ligeira a moderada. Isso implicará ter um número crescente de internistas treinados e vocacionados para o difícil tratamento do doente em sua casa.
As Equipas Intrahospitalares ou os Serviços de Cuidados Paliativos, são constituídas por especialistas de MI com formação específica nessa área. O acesso aos Cuidados Paliativos ao doente que deles necessita, é uma verdadeira conquista civilizacional, que não podemos deixar de lutar para estar disponível em todo o território nacional. Ainda estamos longe de o conseguir, pelo que também este setor clama por mais internistas!
O apoio da MI a muitos Serviços Cirúrgicos, como a Cirurgia Vascular, a Ortopedia ou a Urologia, é absolutamente crucial em todos os Hospitais. Seja na forma de Consultadoria Interna ou em Unidades Pós-Cirúrgicas, é preciso manter este trabalho para ter qualidade assistencial e segurança dos nossos doentes. É um serviço médico exaustivo, de grande responsabilidade, quase nunca valorizado como devia!
Nas Unidades de Cuidados Intensivos e ainda mais nas Unidades de Cuidados Intermédios, são muitas vezes os especialistas de MI a assegurarem as escalas. O tratamento do doente crítico, é uma das áreas mais acarinhadas pelos internistas!
Outras áreas de excelência lideradas pelos internistas, foram-se desenvolvendo nos hospitais de acordo com a sua história. A sólida formação global dos internistas, permitiu-lhes diferenciarem-se em várias áreas do conhecimento, muitas vezes colmatando as falhas de algumas especialidades médicas nessas instituições. É o caso das Unidades de Doenças Autoimunes, de Insuficiência Cardíaca, de Doenças Hereditárias do Metabolismo, de Doenças Respiratórias ou de Doença VIH.
Acredito que tenha conseguido transmitir-vos as razões pelas quais a Medicina Interna é a trave mestra do SNS. Se ela continuar a definhar, o SNS acompanhará a decrepitude e tornar-se-á um sistema de saúde para os pobres.
Nos EUA, o crescimento exponencial dos hospitalistas, está a responder às necessidades atuais, que são semelhantes às nossas. Hoje, são cerca de 55000 (20% dos especialistas médicos hospitalares), mas calcula-se que em 2029 serão 72500. Eles souberam fazer a discriminação positiva dos hospitalistas. Deram-lhes prestígio e atribuíram-lhes os mais altos cargos de gestão. Pagam-lhes de acordo com a importância e responsabilidade que têm no hospital. Não lhes faltaram vocações.
Devolver o orgulho de ser especialista de Medicina Interna, é um passo crucial para que o jovem médico possa sentir-se atraído para a escolha desta carreira. Depois, há que saber fazer uma compensação salarial razoável, tendo em conta o enorme esforço físico e intelectual exigidos. Se ficarmos pelas palavras de apreço, aplausos e abraços, seremos cada vez menos internistas e condenamos o SNS.
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