“O SNS precisa da Geriatria para melhorar os cuidados e contrariar o aumento das despesas em saúde”
Manuel Carrageta, presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, realça as mais-valias da inovação e da tecnologia na melhoria dos cuidados de saúde. E alerta para importância da Geriatria que também tem vantagens financeiras para o Estado, face ao aumento da despesa no Serviço Nacional de Saúde.

“A inovação ao serviço do envelhecimento”. Porquê esta temática no Congresso deste ano da SPGG?
O lema do congresso aponta para a necessidade de combinar as abordagens tradicionais da medicina geriátrica com as tecnologias inovadoras, que dão apoio à funcionalidade e independência das pessoas mais velhas. Esta capacidade para integrar os novos apoios tecnológicos nas áreas de diagnóstico, tratamento, vigilância e apoio a uma vida independente dos mais velhos, associada a uma abordagem multidisciplinar do envelhecimento e dos problemas da idade avançada, constitui um salto qualitativo no progresso da Geriatria.
Estamos convencidos que este congresso oferece uma excelente oportunidade para nos informarmos sobre os mais recentes desenvolvimentos em Geriatria e Gerontologia, estabelecer contactos valiosos e moldar em conjunto o futuro da medicina geriátrica e da investigação na área do envelhecimento. Temas como a economia da longevidade, saúde mental, dependências e sexualidade estão cada vez mais em foco e exigem uma reflexão conjunta sobre a responsabilidade social e médica.
Na Geriatria, quais as áreas em que a tecnologia pode ser uma mais-valia?
A inovação tecnológica e científica apoia o diagnóstico e a vigilância médica por meio de dispositivos vestíveis que monitorizam os sinais vitais, sensores domésticos inteligentes que detetam quedas e automatizam tarefas, programas de IA que preveem problemas de saúde e plataformas de telesaúde que permitem consultas remotas. Essas inovações promovem a deteção precoce de problemas de saúde, apoiam a vida independente e melhoram a segurança e a conectividade social dos idosos.
Hoje, temos disponíveis sensores vestíveis (smartwatches, monitores de fitness) e sensores domésticos inteligentes capazes de recolher continuamente dados sobre os níveis de atividade, sinais vitais (frequência cardíaca, oxigénio no sangue, glicemia) e adesão à medicação, alertando os cuidadores ou profissionais de saúde para potenciais problemas.
Como já referi, estes dispositivos inteligentes e sensores domésticos podem detetar quedas e alertar automaticamente os serviços de emergência ou familiares, proporcionando uma rede de segurança vital para uma vida independente. Além da monitorização da saúde, dispositivos de apoio, como aparelhos auditivos avançados e robótica, auxiliam nas tarefas diárias, ajudam as pessoas idosas a manter as suas conexões essenciais, independência e qualidade de vida.
Na sua perspetiva, quais os maiores desafios do Plano de Envelhecimento Ativo, tendo em conta os seus seis pilares: Saúde e bem-estar; Autonomia e vida independente; Desenvolvimento e aprendizagem ao longo da vida; Vida laboral saudável ao longo do ciclo de vida; Rendimentos e economia do envelhecimento; e Participação na sociedade?
A população idosa portuguesa apresenta particular vulnerabilidade face a alguns aspetos sociais e económicos (como baixa escolaridade e nível económico), com uma participação social inferior à média europeia. Não bastam programas de envelhecimento ativo, é necessário adequar os cuidados médicos e sociais às necessidades específicas dos idosos e a criação de ambientes que favoreçam a autonomia e independência das pessoas com mais idade.
É também preciso atuar sobre os determinantes de autonomia e independência, combatendo discriminações baseadas na idade (idadismo) que afetam a autoestima e ameaçam a própria sobrevivência dos adultos idosos. As pessoas vivem cada vez mais anos e a sociedade está a precisar destas pessoas mais velhas que, ao contrário de que acontecia por norma no passado, poderem, se o desejarem, trabalhar e dar um contributo mais impactante para a sociedade. Devemos ter presente que o aumento observado na longevidade se tem acompanhado de um melhor estado biológico e funcional.
Não devemos esquecer que um homem ou mulher, por exemplo, de 70 anos pode viver, em média, mais cerca de duas décadas, que podem e devem ser disfrutadas com vitalidade e dignidade. Mesmo na oitava década de vida e nas seguintes, estes homens e mulheres devem manter-se fisicamente ativos, mentalmente estimulados e socialmente envolvidos, para com a sua experiência e sabedoria exercerem uma influência benéfica na sociedade.
Outro desafio é a solidão, uma epidemia com riscos significativos para a saúde, nomeadamente ao aumentar a ocorrência de vários problemas de saúde mental e física, como a ansiedade, a depressão, a demência, o AVC, a doença cardíaca e o cancro. As consequências nocivas deste risco têm sido comparadas aos de fumar e até se estima que superem os da obesidade e da inatividade física. A solidão e o isolamento social associam-se a produtividade reduzida no trabalho e a menor participação cívica. A pandemia da covid veio ainda agravar mais a solidão, particularmente das pessoas mais velhas.
“Para grande número de pessoas, a melhor opção é envelhecer no lar, o que significa optar por permanecer na sua própria casa, enquanto se envelhece, em vez de se mudar para uma estrutura residencial para pessoas idosas(ERPI)”
Fala-se em alternativas à institucionalização dos idosos. Que medidas devem ser tomadas para que essa realidade chegue a todas as pessoas, nomeadamente às mais vulneráveis em termos económicos?
Um sistema de cuidados continuados de qualidade permite que as pessoas idosas, que sofram um declínio significativo nas suas capacidades, recebam os cuidados e o apoio que necessitam para ter uma vida compatível com os seus direitos básicos, liberdades fundamentais e dignidade humana. Sem eles, os idosos correm o risco de sofrer um aumento do isolamento social, problemas de saúde mental, acidentes evitáveis e uma redução na duração e qualidade de vida. Ao gerir as doenças crónicas e fornecer apoio consistente, os cuidados continuados de qualidade ajudam a prevenir problemas de saúde graves que poderão levar a internamento hospitalar.
Para grande número de pessoas, a melhor opção é envelhecer no lar, o que significa optar por permanecer na sua própria casa, enquanto se envelhece, em vez de se mudar para uma estrutura residencial para pessoas idosas(ERPI), para um lar residencial ou para uma residência assistida. Essencialmente, trata-se de manter o estilo de vida escolhido e o ambiente familiar pelo maior tempo possível, na sua própria casa. Para algumas pessoas idosas, manter-se em casa exige alguma assistência nas atividades diárias, tais como limpeza da casa, cuidar da higiene pessoal e cozinhar, que podem tornar-se difíceis com o avançar da idade.
Isso pode incluir cuidados de saúde domiciliares, apoio nos transportes, entrega de refeições em casa e outros serviços que ajudam os idosos a gerir as tarefas diárias e a manter a sua independência. Muitas vezes é aconselhável fazer modificações na casa (por exemplo, instalar barras de apoio, rampas, etc.) para maior apoio e segurança, nomeadamente para aumentar a mobilidade e prevenir as quedas.
Mais uma vez vão abordar a temática das vacinas. O tema tornou-se obrigatório quando se fala em promoção da saúde?
Uma declaração de consenso clínico, recentemente subscrita por especialistas da Sociedade Europeia de Cardiologia, veio chamar a atenção para uma dimensão que, apesar de essencial quando se trata da saúde cardiovascular, continua subestimada: o papel fundamental da vacinação na prevenção de doenças cardiovasculares de alto risco.
Especificamente no que diz respeito a esta declaração, estamos a falar do resultado de investigações que confirmam que as infeções respiratórias virais funcionam como verdadeiros “gatilhos” cardiovasculares, desencadeando uma cascata de eventos potencialmente fatais: enfartes do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais, arritmias perigosas, episódios de insuficiência cardíaca e, no limite, morte súbita. A proteção contra estas infeções, que pode, em muitos casos, ser feita através das vacinas, traduz-se, então, numa proteção do coração e da saúde cardiovascular.
De resto, este documento considera mesmo que a vacinação é um dos quatro pilares fundamentais das estratégias preventivas, com base em evidências que sugerem que as vacinas contra a gripe, SARS-CoV-2, vírus sincicial respiratório, herpes zoster e outros agentes virais não se limitam a prevenir a infeção primária, mas também a reduzir significativamente a incidência de eventos cardiovasculares adversos graves nas pessoas vacinadas.
“A Geriatria pode reduzir o recurso a cuidados tecnológicos muito dispendiosos e é fundamental para atender às crescentes necessidades do envelhecimento da sociedade”
Na formação, sente que os mais jovens se interessam cada vez mais pela Geriatria?
Cada vez mais a Geriatria – assim como a Gerontologia – assumem um papel muito relevante na sociedade face ao envelhecimento da população, fruto do sucesso dos cuidados de saúde e da melhoria geral das condições de vida. É esta população envelhecida que os médicos mais jovens vão encontrar na prática clínica. É fundamental apostar-se numa abordagem holística, sobretudo no caso dos doentes mais idosos que, em regra, têm multipatologia e estão polimedicados. Todos estes aspetos devem ser tidos em conta quando tratamos um doente idoso, sem esquecer as características próprias da idade, assim como o ambiente envolvente, o que contribui, e muito, para a sua saúde. Ora, os profissionais de saúde compreendem que têm de adquirir conhecimentos em Geriatria para que deem a resposta mais adequada a esta população cada vez mais vasta.
A Geriatria e a Gerontologia dão ênfase ao trabalho em equipa multidisciplinar na abordagem de doentes complexos e na necessidade de recorrer a cuidadores familiares ou profissionais. São, sem dúvida, os doentes mais difíceis e complexos, pelo que do ponto de vista médico são os que suscitam desafios intelectuais mais interessantes do ponto de vista do diagnóstico e do tratamento.
Estes cuidados devem ser prestados preferencialmente em equipa inter e multidisciplinar: médicos, enfermeiros, gerontólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, etc. É uma medicina mesmo muito complexa. Trabalhar com pessoas idosas envolve não só colaborar como elemento de uma equipa vasta, como com o próprio doente. Nunca se devem tomar decisões médicas sobre eles sem partilhar a decisão. O doente e a família devem ser informados dos benefícios e riscos das decisões terapêuticas e deixá-los chegar à sua própria conclusão, embora oferecendo orientação.
Não deveria ser especialidade?
A Geriatria segue um conceito holístico e é orientada para a manutenção da função e da cognição, não se concentra apenas no tratamento de um único órgão ou parte do corpo. Um médico com competência em Geriatria, sem conhecimentos nas áreas de Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Neurologia e Psiquiatria, não poderá oferecer cuidados adequados aos pacientes mais idosos. A Geriatria pode reduzir o recurso a cuidados tecnológicos muito dispendiosos e é fundamental para atender às crescentes necessidades do envelhecimento da sociedade. No fim das contas, cuidados melhores costumam ser cuidados mais baratos, pelo que o SNS precisa da Geriatria para melhorar os cuidados prestados e, ao mesmo tempo, contrariar o aumento constante das despesas em saúde.
A SPGG convidou a Sociedade Espanhola de Geriatria e Gerontologia (SEGG). Quais os principais frutos desta ligação?
É já uma tradição, iniciada pelo fundador da nossa Sociedade, Dr. José Reis Júnior. Esta relação estreita entre a SPGG e a SEGG faz todo o sentido e abre-nos melhores caminhos para a Europa. A Geriatria em Espanha é uma especialidade estabelecida há bastantes anos e pelo seu desenvolvimento tem uma posição de relevo mundial. O novo presidente, o Dr. Francisco José Tarazona Santabalbina, que iniciou as suas funções, recentemente, desloca-se até nós, o que é muito significativo do seu empenho em nos ajudar no desenvolvimento da Geriatria portuguesa. Estamos muito reconhecidos e o nosso desejo, é aprofundar ainda mais estas relações fraternas.
Maria João Garcia












