“O grande desafio é reduzir o tempo até ao diagnóstico do linfoma”
No Dia Mundial do Linfoma, a hematologista Ana Martins, do Hospital de Santo António dos Capuchos, alerta para a importância do diagnóstico precoce, sublinhando que atrasos podem comprometer o prognóstico e destaca os avanços terapêuticos que melhoraram a sobrevivência e qualidade de vida.

Qual a prevalência do linfoma em Portugal?
Estima-se que, em Portugal, sejam diagnosticadas com linfoma 1700 pessoas por ano, baseado em dados da Direção-Geral da Saúde de 2015. A incidência e prevalência têm aumentado nos últimos anos, com os linfomas não-hodgkin a representarem o sétimo tipo de cancro mais incidente em Portugal em 2021, com 2239 novos casos diagnosticados. A prevalência é ligeiramente superior em homens e a partir dos 65 anos, mas afeta também mulheres e jovens. É raro nas crianças.
Quais os fatores de risco?
Os linfomas resultam de um acumular de mutações nos linfócitos, células do sistema imunitário. Em alguns tipos de linfoma pode haver um maior risco em familiares diretos de doentes, mas, em geral, os linfomas não têm componente hereditário. Algumas exposições ocupacionais podem aumentar o risco de linfomas, como a exposição a químicos e pesticidas. As pessoas que foram tratadas com quimioterapia ou radioterapia para outros cancros, que são imunodeprimidas por realizarem tratamentos imunossupressores, terem realizado um transplante de órgão sólido ou medula óssea ou terem infeção pelo vírus da imunodeficiência humana têm maior risco de desenvolver um linfoma.
Quais os principais desafios no diagnóstico. Ainda existe algum atraso, que poderá comprometer o prognóstico?
O diagnóstico de linfoma é realizado numa biópsia de um gânglio, massa ou tecido afetado, portanto na maioria dos casos só é realizado em meio hospitalar, após referenciação a consulta pelos médicos de família ou na sequência de um internamento. Este processo nem sempre é célere, pelo que o grande desafio é reduzir o tempo até diagnóstico, quer através da formação dos médicos de família, principais referenciadores, quer melhorando os tempos até realização de exames de estadiamento, biópsia e diagnóstico anatomo-patológico. A formação da população também é importante, para saberem que devem recorrer ao médico se detetarem aumento do volume ganglionar cervical, axilar ou inguinal ou se tiverem perda ponderal inexplicada, saciedade precoce ou sudorese noturna.
Nos linfomas agressivos, o atraso diagnóstico pode comprometer o prognóstico, uma vez que contribui para um diagnostico em estadio mais avançado e com maior volume tumoral. Também pode agravar o estado geral do doente, fazendo com que esteja mais dependente no momento do diagnóstico e tenha menos tolerância e mais complicações associadas à terapêutica.
Em algumas regiões há escassez de médicos de família. Estes problemas nos cuidados primários afetam os doentes, que acabam por chegar à consulta hospitalar numa fase tardia?
Sim. Obviamente, nesses casos o acesso à consulta de especialidade e ao diagnóstico é mais demorado e, por vezes, a porta de entrada no SNS é o Serviço de Urgência, onde recorrem quando os sintomas são incapacitantes ou o volume tumoral já é grande, o que não é desejável. Outros doentes recorrem à medicina privada, sendo diagnosticados e posteriormente encaminhados para o SNS se necessário.
Relativamente aos tratamentos, tem havido inovações, que permitem uma taxa de sobrevida maior e com qualidade de vida?
A evolução no tratamento dos linfomas nos últimos 10 anos foi espantosa, com aumento da sobrevivência global e da sobrevivência livre de linfoma na maioria dos tipos de linfoma. Adicionalmente, este aumento foi acompanhado, na maioria dos casos, de redução da toxicidade dos tratamentos, uma vez que atualmente utilizamos tratamentos dirigidos que são mais específicos para as células do linfoma ou linfócitos em geral, reduzindo a toxicidade noutros órgãos. Cada vez mais utilizamos a imunoterapia isolada ou em conjunto com quimioterapia e tratamentos que estimulam o próprio sistema imunitário do doente a reconhecer e atacar o linfoma. Cada vez menos doentes necessitam de realizar transplante de medula óssea autólogo ou alogénico.
Sílvia Malheiro
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