“O glaucoma é uma causa de cegueira potencialmente evitável, mas irreversível”

Silencioso, progressivo e por vezes diagnosticado tardiamente, o glaucoma continua a ser uma das principais causas de cegueira irreversível em todo o mundo. Em Portugal, a ausência de estudos epidemiológicos nacionais dificulta a perceção real do impacto da doença.

“O glaucoma é uma causa de cegueira potencialmente evitável, mas irreversível”

Em entrevista, o oftalmologista Fernando Trancoso Vaz, do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, explica porque razão é tão difícil detetar precocemente o glaucoma, quem está em maior risco, quais os tratamentos disponíveis e porque razão a informação e a adesão à terapêutica são decisivas para prevenir a cegueira.

 

Qual é a incidência e a prevalência do glaucoma em Portugal?
Infelizmente não há estudos de prevalência e incidência em Portugal. O que sabemos dos estudos ocidentais, na Europa e nos Estados Unidos, é que a prevalência ronda os 2,5% da população.

A Organização Mundial da Saúde estimou que em 2020, existissem cerca de 80 milhões de doentes com glaucoma a nível mundial (projetando chegar a 112 milhões em 2040) e que destes, 3 milhões estariam cegos ou teriam uma perturbação grave da visão. São os dados epidemiológicos mais fiáveis que temos.

 

São números preocupantes?
Sim, sobretudo porque o glaucoma é uma causa de cegueira potencialmente evitável, mas irreversível. Ou seja, a cegueira causada pelo glaucoma, infelizmente, não se recupera. Agora, é potencialmente evitável caso se consiga diagnosticar a doença atempadamente.

O problema começa por aí: como é uma doença silenciosa, que não dá sintomas, não dói, não pica, não altera a visão se não estiver muito avançada, não temos indícios nem sintomas de que a pessoa tem a doença.

Ou detetamos por rotina numa consulta e temos sorte de apanhar numa fase precoce, ou então acontece, com alguma frequência, as pessoas aparecerem na urgência cegas de um olho e não saberem porquê. Só nesse momento se diagnostica a doença, com o outro olho também numa fase avançada. E as pessoas nunca souberam o que tinham.

 

Sendo que se trata de uma doença silenciosa, há algum sinal a que os médicos assistentes devam estar atentos para referenciar para Oftalmologia?
Pois, não há sinais nem sintomas. Há muito a noção de que o olho vermelho e dor no olho pode ser glaucoma.

Contudo, isso prende-se com algo um pouco diferente, que é uma entidade chamada encerramento agudo do ângulo, aquilo a que antigamente se chamava glaucoma agudo, que é o glaucoma de ângulo estreito em que há uma agudização. No entanto, esta situação é muito pouco prevalente na nossa população. É muito frequente em países asiáticos, mas em Portugal não.

Portanto, não devemos associar sintomas a glaucoma, porque isso é uma falácia. Estamos a cometer um erro ao pensar que podemos esperar por um sintoma, porque, infelizmente, não podemos.

 

Chegam muitos doentes em fases já avançadas da doença à consulta de Oftalmologia?
Temos de tudo. Temos pessoas que vêm por rotina e têm sorte de ter uma consulta de Oftalmologia, seja no público ou no privado. Quem faz consultas de rotina acaba por ser privilegiado, porque é possível diagnosticar a doença precocemente.

O problema é quem está bem de visão, que não tem queixas, é jovem, 30, 40, 50 anos, e não procura a Oftalmologia, o que é normal, porque vê bem, e essa situação passa despercebida.

Quem tem 40 anos ou mais, vê mal ao perto, tem presbiopia, vem mais cedo à consulta e é diagnosticado mais cedo. Mas também é preciso que procure um oftalmologista e que não se limite a ir a uma ótica ou a comprar uns óculos numa loja.

 

Além da idade, quais são os principais fatores de risco para o glaucoma?
Sendo uma doença assintomática, com uma prevalência de 2,5%, para a qual não há estudos nem rastreios populacionais custo-eficazes, nós aconselhamos que as pessoas de risco procurem ajuda.

Quem são elas: pessoas com mais de 40 anos, antecedentes familiares de glaucoma, que têm 10 vezes mais risco – embora esta não seja uma questão genética direta, mas sim uma doença multifatorial em que também contam os fatores genéticos, havendo uma predisposição familiar -, altas miopias e pessoas de raça negra.

Devem fazer avaliações com alguma frequência, uma vez por ano.

 

A diabetes não é um fator de risco?
Não. A diabetes foi apontada em alguns estudos como um fator de risco, mas contrariada noutros, e hoje não é considerada fator de risco para glaucoma.

 

Que critérios clínicos são essenciais para um diagnóstico fiável?
Geralmente pessoas com pressão intraocular aumentada, com valores acima de 21, embora nem sempre seja assim, por dois motivos: porque a pressão oscila ao longo do dia e pode acontecer o médico avaliar o doente na fase em que a pressão está mais baixa. Por isso, não podemos basear-nos apenas neste valor, até porque não é possível fazer uma medição durante 24 horas.

A doença pode também ser diagnosticada se, durante a observação do fundo do olho, se verificarem alterações do nervo ótico sugestivas de glaucoma. Portanto, se verificarmos que uma pessoa tem pressão ocular aumentada e/ou o nervo lesado, com uma escavação glaucomatosa, é preciso fazer exames complementares para confirmar o diagnóstico.

Em suma, genericamente diz-se que a pressão tem de estar aumentada, e assim é na maioria dos casos, mas há situações em que a pressão pode ser normal e isso não inviabiliza o diagnóstico de glaucoma.

 

Não é possível prevenir a doença, mas é possível prevenir a cegueira. Que tratamentos existem?
Isso mesmo, não conseguimos reverter o que se “estragou”, mas conseguimos evitar que se “estrague” mais.

Quanto mais cedo diagnosticarmos o doente, com menos lesão, maior é a probabilidade de o conseguirmos manter de forma a que não venha a atingir a cegueira.

Tratamos o glaucoma baixando a pressão ocular. Começamos habitualmente com colírios, temos quatro grupos farmacológicos para utilizar e vamos escalando a terapêutica. Em alguns casos excecionais podemos fazer logo de início tratamentos com laser e, em alguns casos, recorrer à cirurgia, nomeadamente quando a tensão é tão alta que não conseguimos prever que a medicação baixe o suficiente ou quando há intolerância aos medicamentos.

Portanto, os tratamentos atualmente disponíveis são colírios, laser e cirurgia.

 

Estes tratamentos são eficazes?
São eficazes, mas dependem da adesão.

As gotas reduzem a pressão ocular, aumentam a drenagem do líquido e/ou diminuem a produção. O problema é que, se a doença for rebelde e o grau de obstrução for aumentando, a medicação pode não ser suficiente. Ainda assim, os medicamentos são eficazes, desde que a doença não contrarie o seu efeito.

É por isso que começamos com colírios e, caso a doença continue a progredir, passamos para a cirurgia, de forma a criar uma comunicação artificial de dentro para fora do olho, permitindo a drenagem do líquido.

 

Quais são os principais desafios no tratamento e seguimento dos doentes com glaucoma?
O principal desafio é identificar estes doentes e diagnosticá-los precocemente, quer seja através de um rastreio ou outra medida que se possa adotar.

Se conseguirmos passar à população a mensagem dos fatores de risco, já é meio caminho andado.

Depois, é fundamental garantir a adesão à terapêutica, porque é uma doença que não dá sintomas e os medicamentos podem ser incómodos. Como explico a um doente sem queixas que tem de manter gotas que ardem, picam e deixam o olho vermelho?

A adesão à terapêutica e a compliance são, de facto, dos maiores desafios. Passa por explicarmos melhor a doença, reforçar a mensagem e fornecer informação escrita, como panfletos.

Além disso, não existe forma objetiva de medir a adesão. Os doentes podem dizer que fazem a medicação, colocar as gotas na véspera da consulta e aparecer com a tensão normal, mas nos dias anteriores já houve lesão do nervo.

Há uma frase muito célebre: os medicamentos funcionam, mas só se forem usados.

 

Uma maior articulação entre oftalmologistas e médicos de família pode ajudar no sentido de consciencializar as pessoas a procurar uma consulta hospitalar?
Sim, claro, e isso já existe. Mas o grande problema é que eu dou consulta no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, com uma população de cerca de 600 mil habitantes, e temos tempos de espera.

É difícil dar resposta a toda a população com mais de 40 anos, até porque há outras patologias importantes, como diabetes, tumores ou inflamações oculares…

Nos casos de predisposição familiar é mais fácil identificar, mas se pensarmos em todas as pessoas acima dos 40 anos, torna-se muito difícil. Precisamos de melhores estratégias de rastreio.

 

Qual é a importância de assinalar o Dia Mundial do Glaucoma?
Porque passar informação é a melhor arma para a prevenção da doença. É preciso sensibilizar a população para que procure ajuda junto de um oftalmologista.

A consciencialização é fundamental. Tenho um doente que veio à consulta porque viu numa telenovela que uma personagem tinha glaucoma. Se houvesse mais oportunidades de acesso a este tipo de informação, teríamos uma consciencialização enorme e os doentes procurariam ajuda mais cedo.

Quanto mais se fala em glaucoma, mais as pessoas pensam no assunto e, se se identificarem com os fatores de risco, mais facilmente procuram um especialista. A informação é uma potente ferramenta de prevenção.

 

Sílvia Malheiro

Notícia relacionada

IA permite criar centro de rastreio do glaucoma sem médicos no local

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais