O Elefante na sala

Lucas Chambel

Lucas Chambel

Dirigente Associativo e Estudante de Ciências Farmacêuticas

Em 1814 Ivan Krylov contou a história de um homem que visitou um museu e percecionou tudo menos o enorme elefante que se encontrava na sala.

Hoje, noutros contextos, ignoramos problemas estruturais da nossa sociedade. Fazemo-lo muitas vezes não por maleficência, mas pela efemeridade dos tempos e temas que são atirados na nossa direção, numa busca incessante pelo novo escarcéu do dia, que vai competindo com os reality shows do momento.

A COVID-19, que colocou o mundo em pausa diga-se, entrou pelas nossas casas e por São Bento e encarregou-se de rapidamente pegar em todos os tapetes e ver o que por debaixo deles se encontrava. Hoje, façamos uma breve reflexão acerca dos lares do nosso país, mas não sem antes pensarmos na conceitualidade do que deveria ser – um lar.

lar
(latim Lar, -is, .protetor da casa)

substantivo masculino

  1. Local onde mora uma família. = CASA
  2. Instituição que fornece serviços e assistência a um grupo específico de pessoas (ex.: lar de estudantes; lar de idosos).
  3. Terra onde alguém nasce. = PÁTRIA
  4. Solo da chaminé da cozinha.
  5. Chão ou pedra em que se acende o lume = LAREIRA
  6. Superfície do forno onde se põe o pão a cozer.
  7. Superfície inferior do pão.

Como o leitor pode ver, existem mais definições para exprimir a palavra lar do que vagas na maior parte destes estabelecimentos, pelo menos nos legais. Existe uma certa cegueira crónica a encarar os problemas de final de vida dos seres humanos, sejam eles referentes a cuidados paliativos ou à questão dos lares. A noção de instituição que fornece serviços e assistência a um grupo específico de pessoas foi evoluindo ao longo do tempo, mas acredito que sem ceticismo podemos admitir que o objetivo primordial destes locais é serem uma  segunda e, muitas vezes, última casa, capaz de atender às necessidades daqueles que tanto entregaram à sociedade e que necessitam agora de uma mão estendida do tecido social.

A esperança média de vida em Portugal no ano de 1970 era de aproximadamente 67 anos, hoje, meio século volvido, somámos quase 14 anos a este indicador, realçando que o Sistema de saúde em Portugal e particularmente o SNS, tem tido um papel fundamental na acessibilidade aos cuidados de saúde. Com os grandes resultados vêm grandes responsabilidades. A necessidade de cuidarmos destes 14 anos “extra” de vida, exige da nossa parte uma atenção reforçada não só à doença, mas também ao bem-estar desta faixa etária. É urgente endereçar prioridade à doença crónica e garantir uma estrutura social que, tal como os diversos polos de SNS, tente garantir uma resposta que seja, no mínimo, aceitável.

Precisamos de, primeiro que tudo, reconhecer e retratar o problema. Pior do que não ter soluções, é não saber o estado dos lares em Portugal. Basta uma breve pesquisa num qualquer motor de busca para mostrar que os dados são muito desatualizados ou inexistentes. Ora, se tivesse em mim a certeza de que as entidades competentes conhecem pormenorizadamente esta realidade, estaria descansado, o problema é que de banha da cobra estamos nós fartos. Esta é a hora de retratar Portugal e criar um mapa do tecido social e confrontá-lo com as particularidades da pirâmide etária portuguesa, para assim entender as necessidades de cada população, garantindo conforto e acessibilidade às famílias. Após esta radiografia podemos finalmente deixar de fazer vista grossa à situação e endereçar possíveis soluções e planeamento dos recursos que necessitamos para acabar com as grotescas filas de espera.

Necessitamos de entender de uma vez por todas que neste tipo de cuidados não basta termos pessoas dedicadas, nem desculpar algumas falhas sistemáticas de organização destes estabelecimentos. Veja-se o que aconteceu em Reguengos de Monsaraz. Os profissionais e diretores destes albergues sociais têm em si a responsabilidade da vida de muitos utentes, e têm, como é exigido noutras profissões, a obrigação de serem expostos ao escrutínio e exigência, sob a pena de falharmos com as pessoas e, em suma, com os valores condignos de uma sociedade que se diz desenvolvida. Existe, assim, uma vertente de fiscalização que é uma obrigação neste frágil ecossistema, passe ela pelos profissionais de saúde, pelos demais profissionais ou pela instituição em si.

A mão terá de ser firme por forma a acabar com a promiscuidade do setor, seja ela proveniente das vagas privadas vs segurança social ou da acumulação de funções de profissionais de saúde que parecem exercer num número de estabelecimentos inconcebível.

Outra das tormentas que atravessamos são as brutas consequências do fecho dos centros de dia que asseguravam uma rotina saudável de uma considerável população. O problema é ainda mais substancial quando falamos de estabelecimentos que davam assistência a idosos que sofriam de algum tipo de demência. Mais uma vez, uma prova de que a COVID-19 não podia suspender a saúde em Portugal, que resposta demos a estas pessoas abandonadas? Valeu, em grande parte, a capacidade de adaptação de muitos profissionais, que fizeram das tripas coração e, qual Picasso, fizeram da arte engenho em prol daqueles que nunca abandonaram.

Resta-me desabafar que, depois de tanto tempo a discutir a eutanásia, sinto que pusemos muito mais o ónus na dignidade de morrer do que na dignidade de viver os últimos anos de vida com alguma qualidade, não que os temas se confundam, mas tenho em mim que não deveríamos discutir os assuntos estruturais avulso, mas, sim, discutir a humanização dos cuidados e da dignidade humana.

Enquanto o elefante continuar impávido e sereno no meio da sala, como que gozando do seu manto de invisibilidade, qual Harry Potter, não nos conseguiremos olhar e revestir de humanismo para cuidar das populações mais vulneráveis. Assim que o virmos e repararmos na sua dimensão problemática e ilegal, vamos entender que mais valia ter tentado domesticá-lo enquanto era tempo.

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