Médico especialista em Medicina Geral e Familiar. Membro da Comissão Científica da Sociedade Portuguesa do AVC

O doente imaginário?

Estamos em maio, o segundo maio depois da “erupção covidiana”.

Com tanta coisa virtual, tanta tecnologia para encurtar distâncias, tantos doentes e tantas consultas sem contacto ou exame clínico presencial, lembrei-me de Molière e da sua última peça de teatro, “Le malade imaginaire” (“O doente imaginário”).

A figura central da peça é Argan, um hipocondríaco que, oscilava entre a sensação de sintomas de doenças de outros e o desejo de não gastar muito do seu dinheiro.

Parece que por essa altura a noção do custo da saúde era mais tido em conta…

A primeira representação teve lugar a 10 de fevereiro de 1673, em Paris.

Diz a história que, uma semana depois, a 17 de fevereiro, durante um dos primeiros espetáculos, Molière desmaiou e veio a falecer pouco depois.

 

Maio que é também o “mês do coração”.

E vale a pena recordar que as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, responsáveis por cerca de 35% da mortalidade total.

Fomos afogados em informação deformante sobre a covid-19.

Mas, não podemos deixar ignorar que, se antes da pandemia morriam cerca de 100 pessoas por dia em Portugal, com mais de 33 mil mortos, média anual, ao longo dos últimos cinco anos pela patologia cardiovascular, a realidade durante e depois da pandemia não se alterará!

Por outro lado, a minha preocupação é a de que, com o afastamento físico dos doentes e dos clínicos, a redução da mortalidade por acidentes vasculares cerebrais (AVC) e enfartes agudos do miocárdio (EAM) possa inverter-se!

Esta possibilidade associada ao aumento dos casos de insuficiência cardíaca (IC) e de fibrilação auricular, e outras arritmias, pintam um cenário esmagador.

Falta perceber também o significativo aumento de mortes não-COVID e a sua relação com o prejuízo da atividade assistencial, quer por iniciativa dos doentes, quer pelas unidades do SNS e privadas.

 

Importa assim reforçar a vertente de cuidados de proximidade e contacto.

O dia 12 de maio assinalou-se o Dia Internacional do Enfermeiro, celebrando-se o aniversário de Florence Nightingale, a fundadora da enfermagem moderna.

O seu papel histórico remete-nos para a Guerra da Crimeia em 1853. Também agora no foco dos apetites expansionistas russos…

Como responsável por um grupo de enfermeiras voluntárias, para ajudar os ingleses feridos nessa Guerra, criou o sistema de rondas noturnas, com uma lâmpada, para avaliação do estado dos soldados. O princípio da proximidade e proatividade!

A revolução introduzida por Nightingale gerou uma baixa do índice de mortalidade de 42,2% para 2,2%!

 

E maio é, enfim, o mês que acolhe o Dia Mundial do Médico de Família!

Em Portugal a Medicina Familiar está em crise aprofundada.

O número de utentes sem médico de família atribuído aumenta a cada mês.

O combate à pandemia do lado dos Cuidados Primários precisa de ser explicado e compreendido.

A atribuição de tarefas e competências sem preparação prévia adequada, sem materiais de proteção individual a tempo, a deslocalização de muitos profissionais para centros específicos de atendimento COVID e a necessidade de assegurar respostas – em muitos casos não garantidas de facto – não relacionadas com a COVID-19, são aspetos que carecem de reflexão e debate.

O sucesso da vacinação em curso é óbvio após a “militarização” do comando e do processo.

Mas a manta é curta. Quem presta serviço nos centros de vacinação não pode estar nas unidades de saúde familiar.

E é preciso aliviar a carga burocrática que paralisa os Cuidados Primários.

A prevenção é fundamental para a população portuguesa, como se entendeu recentemente, contribuindo para uma literacia efetiva e para a dignificação do papel os médicos de família.

Os doentes do SNS, os utentes dos Cuidados Primários não são doentes imaginários!

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