29 Jan, 2026

“No cancro da mama, a qualidade do tratamento começa na qualidade do diagnóstico”

O cancro da mama continua a desafiar profissionais de saúde em todo o mundo, não apenas pelo avanço rápido das terapêuticas, mas também pela complexidade crescente no acompanhamento e qualidade de vida das pessoas afetadas.

“No cancro da mama, a qualidade do tratamento começa na qualidade do diagnóstico”

É neste contexto que se realiza mais uma edição do congresso promovido pelo IPO-Porto, uma reunião que reúne especialistas de diferentes áreas para discutir as últimas inovações em diagnóstico, tratamento e seguimento do cancro da mama, incluindo um curso satélite teórico-prático em Imagiologia e Intervenção de Mama.

Em entrevista, a médica Ana Magalhães Ferreira, coordenadora de Oncologia da Clínica da Mama do IPO-Porto e responsável pela organização da reunião, partilha as suas expectativas para este evento, sublinha a importância da multidisciplinaridade e traça o panorama atual e futuro do cancro da mama em Portugal.

 

Quais as suas expectativas para o evento deste ano?
As expectativas são muito elevadas porque, mais uma vez, este encontro pretende refletir o que de mais recente existe no cancro da mama, não apenas em termos de diagnóstico e tratamento oncológico, mas também no tratamento de suporte e na qualidade de vida. Vivemos uma fase de profunda personalização, em que os avanços científicos são rápidos e exigem uma leitura crítica para poderem ser integrados de forma consistente na prática clínica. À medida que as decisões se tornam cada vez mais individualizadas, torna-se também mais desafiante a criação de algoritmos simples e universais. Este encontro pretende precisamente discutir como aplicar essa inovação, baseada em evidência, no cuidado diário das pessoas com cancro da mama.

 

Vai realizar-se um curso teórico-prático em Imagiologia e Intervenção de Mama integrado na reunião. Qual é a importância de trazer essa componente prática?
O curso de Imagiologia e Intervenção da Mama, organizado pelo Serviço de Imagiologia do IPO-Porto sob a coordenação da Dra. Cláudia Carneiro, em que colaboram imagiologistas dedicados à patologia mamária, acrescenta uma dimensão essencial à reunião. A evolução tecnológica só se traduz em benefício clínico quando é corretamente aplicada, e isso exige formação prática, contacto com casos reais e discussão técnica fundamentada. No cancro da mama, a qualidade do tratamento começa na qualidade do diagnóstico.

 

“Este encontro pretende refletir o que de mais recente existe no cancro da mama, não apenas em termos de diagnóstico e tratamento oncológico, mas também no tratamento de suporte e na qualidade de vida”

 

Qual a mais-valia da participação de várias especialidades na discussão dos temas?
O cancro da mama exige decisões que integram informação clínica, imagiológica, patológica e biológica ao longo de todo o percurso da pessoa. Um encontro que promove essa integração permite discutir opções de forma mais completa, alinhar abordagens e melhorar a consistência das decisões clínicas, sempre com foco no benefício real.

 

Neste encontro fala-se de métodos de rastreio “inteligentes” e de tomossíntese. Estamos perto ou já estamos a redefinir os protocolos clássicos de rastreio?
Estamos numa fase clara de evolução. Ferramentas como a tomossíntese, a RM abreviada e a inteligência artificial oferecem oportunidades concretas para melhorar a deteção e a estratificação de risco. O desafio atual é perceber como integrar estas ferramentas de forma criteriosa, baseada em evidência e adaptada à realidade dos sistemas de saúde.

 

Falando de sobrevivência e qualidade de vida. Há cada vez mais sobreviventes de cancro. Como vê o acompanhamento e o seguimento destas pessoas? O que é que falta?
O aumento da sobrevivência é um dos grandes sucessos da Oncologia moderna, mas obriga a repensar o modelo de seguimento. Para além da vigilância da doença, é essencial integrar a gestão de sintomas persistentes, a saúde sexual, a imagem corporal, o bem-estar psicossocial e a reintegração social e profissional. A qualidade de vida deve ser um objetivo estruturante do acompanhamento.

 

As novas terapêuticas para subtipos como HER2-low ou triple negativo têm mostrado resultados eficazes na prática clínica?
Os avanços nestes subtipos foram muito relevantes e já se refletem em benefícios clínicos claros. O passo seguinte é garantir a sua utilização adequada e equitativa, o que depende de caracterização biológica rigorosa, critérios clínicos bem definidos e circuitos assistenciais organizados que permitam acesso atempado às terapêuticas.

 

“O aumento da sobrevivência é um dos grandes sucessos da Oncologia moderna, mas obriga a repensar o modelo de seguimento”

 

Quais os próximos passos a dar?
Os próximos passos passam por consolidar a evidência disponível, clarificar estratégias de seleção e sequenciação terapêutica, integrar novas ferramentas — como a biópsia líquida e os biomarcadores dinâmicos — e investir de forma consistente na capacitação e valorização dos recursos humanos, que são essenciais para acompanhar a crescente complexidade do tratamento do cancro da mama.

 

Como vê o futuro do cancro da mama em Portugal, tanto em termos de rastreio, diagnóstico, tratamento e prevenção?
Vejo um futuro cada vez mais orientado para a personalização em todas as fases da doença, desde o rastreio ao seguimento. O grande desafio será garantir que essa evolução se traduz em ganhos reais de sobrevivência e qualidade de vida, de forma sustentável e acessível a todas as pessoas.

 

Qual a mensagem que gostaria que cada profissional levasse deste encontro para o seu dia a dia em 2026?
Que cada profissional saia deste encontro com maior clareza sobre como aplicar a evidência mais recente no cuidado dos doentes com cancro da mama em 2026, promovendo decisões integradas, rigorosas e centradas na pessoa.

 

Sílvia Malheiro

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