Lipedema: compreender uma doença ainda invisível para muitas mulheres
Enquanto médica, tenho acompanhado ao longo dos anos muitas mulheres que chegam à consulta com a mesma queixa: pernas desproporcionais ao resto do corpo, dor persistente, sensação de peso e uma enorme frustração por não verem resultados, apesar de dietas restritivas e exercício regular. Muitas destas mulheres vivem com lipedema, uma doença crónica, progressiva e ainda pouco reconhecida.
Estima-se que o lipedema afete cerca de uma em cada dez mulheres, o que significa que, em Portugal, quase um milhão poderá viver com esta condição. Apesar desta prevalência significativa, a doença continua frequentemente confundida com obesidade ou celulite, o que atrasa o diagnóstico e compromete o tratamento adequado. Apenas em 2019 o lipedema foi reconhecido como doença pela Organização Mundial da Saúde, um passo importante, mas ainda insuficiente para garantir o conhecimento necessário entre profissionais e população.
O lipedema caracteriza-se por uma acumulação anormal de gordura, sobretudo nas pernas e, em alguns casos, nos braços, poupando pés e mãos. Esta gordura é dolorosa, sensível ao toque e associada a hematomas frequentes. Ao contrário do que acontece no excesso de peso comum, esta gordura não responde de forma eficaz à restrição calórica ou ao exercício físico, o que gera culpa, frustração e impacto profundo na autoestima das mulheres.
As alterações hormonais influenciam diretamente a evolução do lipedema. A doença surge ou agrava-se frequentemente em períodos de grande instabilidade hormonal, como a puberdade, a gravidez ou a menopausa. Sabemos hoje que a gordura do lipedema é metabolicamente diferente, apresentando maior densidade de recetores hormonais, nomeadamente de estrogénio, o que explica o seu crescimento desproporcional nestas fases da vida.
Defendo que o tratamento conservador é um pilar fundamental no acompanhamento do lipedema, independentemente do estádio da doença ou da eventual indicação cirúrgica. Uma abordagem eficaz passa sempre por um plano individualizado e multidisciplinar, que inclua modulação hormonal, nutrição anti-inflamatória, terapias físicas específicas, apoio psicológico e educação da paciente. O objetivo não é apenas controlar sintomas, mas travar a progressão da doença e devolver qualidade de vida.
O diagnóstico precoce é determinante. Quanto mais cedo o lipedema é identificado, maiores são as possibilidades de intervenção eficaz e de prevenção de complicações futuras. Aumentar a literacia em saúde sobre esta doença é essencial para que as mulheres deixem de ouvir que “é apenas uma questão de emagrecer” e passem a ter acesso a um acompanhamento informado, humano e baseado na ciência.
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