Médico de Família

J’AGORA – Números, datas e horrores

Costuma dizer-se que há números para tudo e interpretação dos mesmos para todos os gostos.

Em termos matemáticos diria que isto será estranho, mas culturalmente entranha-se.

O SARS-CoV-2 foi pela primeira vez identificado em seres humanos na cidade de Wuhan, na China, por alturas de Dezembro de 2019.

O Mundo, na verdade uma boa parte dele, foi apanhado de surpresa e percebeu-se como a deslocalização da tecnologia e da produção para a Ásia, desde desinfetantes a ventiladores, desde semi-condutores a todos os outros chips eletrónicos essenciais na vida atual, significou custos acrescidos, carências e dependências de terceiros.

A infeção, essa à data em que escrevo, atingiu mais de 360 milhões de infetados e matou mais de 5.7 milhões de pessoas. Há quem diga e acredite que o Mundo não voltará a ser o mesmo…

Em Portugal e no mundo mais desenvolvido discute-se agora ainda mais a sustentabilidade dos sistemas nacionais de saúde, desafiada e “agredida” pelo aumento absoluto e relativo do número de idosos com doença crónica e comorbilidades. O custo dos internamentos hospitalares e os constrangimentos provocados por esta pandemia ou outras, em cima do envelhecimento demográfico dos países mais ricos são um problema grave.

Recordemos como em Portugal, os Invernos e as Gripes já entupiam urgências, internamentos e cuidados intensivos pelas pneumonias associadas, em especial, onde se destacavam os doentes, mais idosos e com agudização das suas insuficiências cardíacas.

Em Portugal, a insuficiência cardíaca tem uma prevalência estimada de 5.2%, o que corresponderá a um número na ordem de quase 0.5 milhão de cidadãos. Mas, importa considerar também, obviamente, o peso epidemiológico da disfunção sistólica ventricular…

A prevalência global desta doença, ou melhor desta síndrome, aumenta claramente com a idade, sobretudo após os 60 anos, para os dois géneros, ou seja, torna-se um problema grave de saúde pública atingindo 5 a 9% dos indivíduos acima dos 65 anos.

Por outro lado, tendo em conta o que conhecemos do continuum cardiovascular, a insuficiência cardíaca à luz dos ganhos na esperança média de vida e no sucesso da abordagem da patologia cardíaca e/ou hipertensiva no seu conjunto, vai continuar a crescer! Julgo que este ponto é muito relevante quando se observava um decréscimo da prevalência e da mortalidade global por doença cardiovascular, em Portugal e na Europa.

 

O sofrimento é o que nos preocupa e é a causa que explica o medo da morte.

Ora por isso mesmo, a questão da dor crónica que afeta 20% da população mundial, deve ser entendida clinicamente como uma doença de corpo inteiro e por direito próprio. Sabemos igualmente que numa grande percentagem de doentes permanece subdiagnosticada e insuficiente ou inadequadamente tratada.

O impacto económico da dor repercute-se nas taxas de absentismo, na baixa produtividade e no abandono precoce do trabalho, com enormes sobrecargas na procura de cuidados de saúde e no orçamento dos sistemas de segurança social (baixas e reformas).

Tal como para a insuficiência cardíaca, deveríamos discutir se a formação e actualização clínica e a criação e divulgação e orientação por guidelines e normas de orientação clínica, são ou não fundamentais para a qualidade e o rigor dos cuidados assistenciais. E para mim são!

 

Cumprem-se 80 anos sobre um triste episódio da história mundial, a Conferência de Wannsee, realizada em Berlim, em Janeiro de 1942.

Em plena Segunda Guerra Mundial, governantes nazis e dirigentes das SS reuniram-se para discutir e aprovar o chamado programa de “Solução Final”, na verdade o plano nazi para o extermínio dos judeus da Europa e de muitos outros vistos como marginais, deficientes ou indesejados.

O ódio era de tal modo que, o objetivo fixado estimava uma eliminação de mais de 12 milhões de pessoas, incluindo judeus de países que então, nem estavam, nem estiveram ocupados ou subjugados pelas forças militares germânicas.

Por essa altura, a deportação significava ser levado para os centros de extermínio e para a morte, sobretudo construídos na Polónia, e que por asfixia gerada pela emissão de gases ou por fuzilamento, se transformaram em fábricas de morte.

O exército e a polícia alemãs assassinaram cerca de 3 milhões judeus em tais campos de extermínio, já depois de terem utilizado o processo, que designaram de eutanásia, na prática um eufemismo para designar o processo de eliminação sistemática de alemães que os nazis consideravam “indignos de viver” devido a alguma deficiência física ou mental.

 

J’Agora, a História recorda à Humanidade que, em todas as eras há bichos bem temíveis, chamem-se dinossauros, coronavírus ou humanos!

ler mais

RECENTES

ler mais