Médico de família

J’AGORA – 2022: Mais um estranho ano?

J’Agora 2022 começou e estamos às portas do Carnaval, tempo de animação e de fingimento.

A animação pode ser útil, porque os tempos não são fáceis e os dados apontam para o crescimento dos problemas de saúde mental.

O fingimento tornou-se natural e as máscaras estão aí, por enquanto, na maioria dos rostos. Depois, quando deixarem de ser recomendadas, vamos continuar ainda assim a ver muitos fingidos…

Os ventos da guerra invadem e espalham-se pela Europa, exagerados, mas temidos, alarmistas ou cautelosos, parecendo que os territórios da Ucrânia ficam longe, mas devendo recordar-nos a todos que hoje tudo é global no mundo, tudo é imediato e chega a todos.

A poderosa e riquíssima indústria do armamento está a precisar de escoar armazéns de produto acabado e as pequenas mas trágicas guerras localizadas não bastam.

Não se conhecem aqui sites ou repositórios de números de baixas e sequelas sem fim que contabilizem feridos, deslocados, desaparecidos, violentados, mortos!

Vimos isso com a propagação pandémica do SARS-CoV-2 e os milhões de mortos contados e os muitos mais milhões de infeções geradas. E vimos obviamente a globalização da doença.

E o espírito de entreajuda e de solidariedade, de humanidade e apoio mútuo dos primeiros meses da pandemia, as canções e as mensagens, os vídeos e as canções, as ofertas e os ventiladores para os SNS desse mundo fora, as pinturas e os cartazes espalhados pelas janelas e ruas parecem já muito distantes…

A Humanidade sobreviveu, aprendeu a defender-se e apreendeu medidas de proteção como as máscaras, o distanciamento social e o reforço das medidas de higienização.

Sobreviveu, mas nada indica que tenha aprendido a lição e o desejo, a expressão de vontade do “regresso à normalidade”, acaba por senão assustar, pelo menos os votos de esquecer este passado recente.

Vimos os avanços científicos e o desenvolvimento e lançamento em tempo recorde de vacinas e equipamentos para os cuidados intensivos, mas os chamados “negacionistas” acabaram por ser felizes pela Inquisição já ter acabado séculos antes.

Acordamos agora com os ataques cibernéticos e os outros vírus – estes criados pelos homens e sem discussão ao abrigo das teorias da conspiração – que, partindo de um lado do mundo, atingem do outro lado empresas, instituições, organizações ou países!

E compreendemos como estamos vulneráveis, perdidos sem sistemas informáticos e sem telefones.

2022 chegou e em Portugal, enquanto aguardamos por um governo novo que, apesar de dispor de uma maioria absoluta que o sustenta, desfazem-se centenas de milhares de votos, atrasam-se os resultados oficiais e o começo duma legislatura, obrigando à repetição de eleições e às despesas que isso implica, o SNS vai resistindo entre os problemas que se conhecem.

A falta de médicos e sobretudo a incapacidade de os fixar nos serviços públicos não vai ser resolvida pela criação, sugerida pelo ainda Ministro do Ensino Superior, de mais escolas médicas e pela sublime ideia de formar médicos de segunda e em modelo “take-way” para a medicina geral e familiar.

Os serviços públicos precisam de profissionais qualificados e em número compatível com as necessidades dos cidadãos.

Mas, precisam de tecnologias adequadas, sistemas de telecomunicação eficientes, de equipamentos clínicos capazes e de estruturas físicas funcionais.

Ideias peregrinas como as que foram reunidas no novo Estatuto do SNS nunca irão defender os cidadãos e o SNS. E não é por ideologia ou crença, é por absoluto disparate conceptual.

Veja-se o que aconteceu com a pandemia em Portugal e o papel da DGS e do SNS.

Ora, com o novo Estatuto do SNS, a vontade dos políticos foi a de deixar fora do quadro de serviços do SNS a DGS e a Administração Central dos Sistemas de Saúde (ACSS), a quem tem competido a gestão dos quadros de profissionais da saúde, por exemplo.

E é de crer que 2022 virá a assistir, de novo, ao ataque às Ordens Profissionais com a retoma do projecto de lei que pretendia regulamentar o respetivo funcionamento.

Deixo claro que reconheço que é o Estado que delega nas Ordens, mas isso não se compatibiliza com a aspiração de as controlar, silenciar ou instrumentar.

Enfim, J’Agora tenha o melhor 2022 que puder!

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