7 Jan, 2021

Inverno será o “purgatório”. Especialistas já admitem novo confinamento geral

Taxa de testes positivos quase duplicou (para 15%) e internamentos vão continuar a subir. Especialistas já falam em confinamento geral para preservar a capacidade do SNS.

Os especialistas (infecciologistas, intensivistas e outros médicos que lidam diretamente com a pandemia) avisam que o aumento dos casos registado nos últimos dias é apenas o início de um trimestre difícil, que vai colocar, de novo, à prova a capacidade do SNS. Alguns, à semelhança do que recomendou já a OMS, defendem a implementação de medidas de confinamento mais restritivas e admitem mesmo um novo confinamento geral.

“Os números não são uma surpresa para ninguém. A positividade dos testes passou de 8% para 15%” de há três dias para cá, diz o diretor do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital de São João, em declarações ao jornal i. José Artur Paiva antevê um trimestre “complicado” por causa de vários fatores. Um deles é o aumento da transmissibilidade do SARS-CoV-2, por via do aparecimento de variantes mais contagiosas. “O que aumenta mais o número de hospitalizações, ocupação de UCI e mortes é a transmissibilidade”, sublinha o especialista.

O agravamento da pandemia surge, ainda para mais, numa altura de habitual maior pressão para o SNS, o inverno. “É sempre o período de maior fragilidade, quando a sobrecarga é maior, há outras infeções respiratórios e o frio afeta outras doenças e os idosos”, refere José Artur Paiva, que deixa um alerta: “Vamos ter um trimestre de purgatório. Para atravessarmos este tempo, que leva à imunidade de grupo, muito provavelmente vamos ter outro período de confinamento“.

Vários especialistas defendem que o governo tome medidas restritivas de imediato. “Atuar tarde é não ter resultados, habitualmente”, refere o intensivista. “Creio que as medidas vão ter de apertar um bocadinho mais, mas o essencial é que sejam cumpridas”, diz, por outro lado, o diretor do Serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral. Fernando Maltez lembra que, em termos de internamentos, a pressão é já “muito elevada”.

Neste momento, 94% das camas em UCI em Lisboa e Vale do Tejo estão em ocupadas, apesar de muitos hospitais estarem a elevar os planos de contingência, o que permite, desde já, alargar a capacidade de resposta para doentes críticos com Covid-19. “Ninguém quer o confinamento geral mas, a continuarem estes números, já não haverá capacidade de resposta nas unidades, sobretudo ao nível dos recursos humanos“, avisa João Gouveia, presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, em declarações ao DN.

“Dez mil casos por dia não é sustentável para a saúde pública nem para a rede hospitalar”, sublinha o presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Saúde Pública. “Ninguém é um fervoroso defensor do confinamento geral, mas quando não há alternativas e temos de salvar vidas, se calhar é a solução que temos de adotar”, diz Ricardo Mexia.

TC/SO

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