“Integrar a saúde oral na prevenção e gestão em saúde pública é uma necessidade urgente”
Problemas de saúde oral, como doença gengival, aumenta o risco de se desenvolver diabetes tipo 2. Por outro lado, em pessoas com diabetes, o risco de perda dentária aumenta entre 11% e 30%. Estas são as principais conclusões de um estudo liderado por João Botelho, professor e investigador da Egas Moniz School of Health and Science, que em entrevista apela à articulação entre prevenção da saúde oral e gestão da saúde pública.

A doença gengival, como periodontite, aumenta até 26% o risco de se desenvolver diabetes tipo 2. Porquê?
De acordo com o artigo “Oral health and diabetes: a systematic review and meta-analysis”, publicado na The Lancet Public Health, pessoas com periodontite podem apresentar entre 19% e 26% maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 ao longo da vida. Esta associação decorre sobretudo de fatores comportamentais de risco comum, mas também de mecanismos fisiopatológicos partilhados, em particular a inflamação sistémica crónica.
A infeção bacteriana persistente nos tecidos periodontais provoca uma resposta inflamatória contínua que pode afetar todo o organismo, libertando mediadores que entram na circulação e interferem na ação da insulina. Isso promove resistência à insulina e altera o metabolismo da glicose, elevando o risco de diabetes. Este artigo evidencia a importância de integrar a saúde oral nas estratégias de triagem precoce da diabetes no consultório médico-dentário, considerando os inúmeros fatores e indicadores de risco comuns. Esta deve ser integrada como uma parte integrante da saúde geral, e não como uma área isolada.
Em pessoas com diabetes, o risco de perda dentária aumenta entre 11% e 30%. Porquê?
Indivíduos com diabetes apresentam alterações fisiopatológicas que aumentam a vulnerabilidade à doença periodontal e, consequentemente, à perda dentária. A hiperglicemia crónica compromete a função do sistema imunitário, reduz a resposta a infeções e altera a microcirculação nos tecidos periodontais, dificultando a cicatrização e oxigenação. Estas alterações favorecem a progressão da doença periodontal, culminando na destruição do ligamento periodontal e do osso alveolar. Ao longo do tempo, este desgaste compromete a estabilidade dentária e aumenta a probabilidade de perda de dentes, que em casos graves pode atingir cerca de 30% em pacientes com diabetes de longa duração.
“… a articulação entre Medicina Dentária e Saúde Pública deve assentar numa lógica de colaboração interinstitucional, combinando prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde”
Esta consequência está associada a um menor controlo da diabetes?
A realidade é que existe evidência de que o controlo glicémico exerce um papel fundamental na saúde oral. Níveis elevados de HbA1c, indicativos de diabetes mal controlada, estão associados a maior prevalência e gravidade de doenças orais, incluindo periodontite e cárie dentária. O artigo indica que o controlo metabólico pode influenciar estes desfechos em saúde oral, embora os dados disponíveis ainda sejam limitados e heterogéneos, não permitindo estabelecer uma relação causal definitiva.
Ainda assim, a evidência existente, previamente a este artigo, aponta para uma relação bidirecional: a diabetes mal controlada favorece a progressão da doença periodontal, enquanto a periodontite pode dificultar a manutenção de níveis glicémicos adequados, criando um ciclo que reforça a necessidade de monitorização e intervenção integradas.
De que forma se poderá ter uma maior articulação entre a Medicina Dentária e as estratégias de prevenção e gestão em saúde pública?
Integrar a saúde oral nas estratégias de prevenção e gestão em saúde pública é hoje uma necessidade urgente e pode ser promovido através de rastreios de diabetes em consultas dentárias, da avaliação sistemática da saúde oral em doentes com doenças crónicas, por exemplo, e da criação de programas educativos de proximidade à comunidade. Estas iniciativas aproximam os cuidados de saúde à população, promovem literacia em saúde e incentivam comportamentos preventivos, reforçando essa prevenção e diagnóstico precoce de complicações associadas.
Neste contexto, a Egas Moniz School of Health & Science, em parceria com a Organização Mundial da Saúde, a Direção-Geral da Saúde e a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal, promoveu, no passado dia 20 de março, a criação de uma aliança institucional com o objetivo de posicionar a saúde oral no centro das políticas de saúde pública. O objetivo é reforçar a necessidade de uma abordagem mais integrada na prevenção e gestão das doenças crónicas.
Em suma, a articulação entre Medicina Dentária e Saúde Pública deve assentar numa lógica de colaboração interinstitucional, combinando prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde, com o objetivo de melhorar os resultados clínicos e a qualidade de vida da população.
Maria João Garcia
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