6 Nov, 2026

Integração entre centros de saúde e hospitais não avança, revela estudo

Quase três anos depois da criação das unidades locais de saúde em todo o país, a articulação entre cuidados de saúde primários e hospitalares continua sem melhorias. Um barómetro da APAH aponta para uma estagnação da integração, com os profissionais a identificarem dificuldades sobretudo na componente clínica e financeira.

Integração entre centros de saúde e hospitais não avança, revela estudo

A integração dos cuidados prestados aos utentes entre os centros de saúde e os hospitais não registou progressos no último ano, apesar da criação das unidades locais de saúde (ULS) em todo o país, no início de 2024.

Esta é a principal conclusão da terceira edição do barómetro que avalia a perceção dos profissionais das 39 ULS sobre o grau de integração dos cuidados de saúde. O estudo, promovido pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), com o apoio de várias entidades, será apresentado numa conferência que começa hoje em Fátima.

“Há uma estagnação dos resultados que obviamente nos deve preocupar. Esperar-se-ia uma melhoria do nível da integração” entre os cuidados de saúde primários e hospitalares, afirmou à agência Lusa o presidente da APAH, Xavier Barreto.

No início de 2024, no âmbito da reforma da organização do Serviço Nacional de Saúde (SNS), foram criadas 31 ULS, que se juntaram às oito já existentes. A medida colocou os centros de saúde e os hospitais sob a gestão de uma única entidade em cada área geográfica, com o objetivo de facilitar o percurso dos utentes no sistema de saúde.

Cerca de três anos depois desta reorganização, os resultados do barómetro mostram que os profissionais avaliaram a integração global de cuidados nas ULS com 3,29 pontos, numa escala de zero a cinco. Trata-se de uma classificação “moderadamente positiva”, mas idêntica à registada no ano anterior.

O estudo analisa seis dimensões da integração: normativa, informativa, clínica, sistémica, administrativa e financeira. As ULS que já existiam antes de 2024 apresentam uma avaliação mais favorável, com uma pontuação de 3,42.

Para Xavier Barreto, este resultado confirma que “é preciso algum tempo para que este movimento de integração aconteça no terreno”. Contudo, considera que, para além dos normativos já implementados, é necessário aprofundar a articulação ao nível clínico.

“É preciso que as duas partes falem mais, acordem sobre como é que devem ser tratados, diagnosticados e acompanhados os nossos doentes. Isso, de facto, não está a acontecer, pelo menos na medida que nós gostaríamos que estivesse”, alertou.

Entre as seis dimensões avaliadas, a integração clínica obteve a terceira melhor classificação, com 3,22 pontos, ligeiramente abaixo dos 3,24 registados na edição anterior.

Para melhorar a continuidade dos cuidados entre os dois níveis de prestação, o presidente da APAH defende que os profissionais dos hospitais e dos cuidados de saúde primários, de diferentes áreas, devem reunir-se para definir estratégias conjuntas. Essa articulação deverá envolver também outras entidades, como farmácias e autarquias.

“Esta discussão, aquilo a que chamamos de percurso clínico assistencial, está por fazer na maior parte das patologias e na maior parte das ULS”, sublinhou Xavier Barreto, atribuindo parte desta dificuldade à falta de disponibilidade dos gestores e dos responsáveis clínicos das unidades de saúde.

“Há pouco tempo porque estamos sempre a responder a urgências, aos fogos que têm de ser apagados, às urgências que têm escalas incompletas e, portanto, esta situação também prejudica este movimento de integração” dos cuidados, lamentou.

A dimensão financeira foi a que obteve a avaliação mais baixa, com 2,90 pontos. O barómetro identifica uma “evidente discórdia sobre temas relacionados com a remuneração e incentivos”.

Segundo Xavier Barreto, uma das razões para esta insatisfação prende-se com as diferenças nos incentivos atribuídos aos profissionais dos hospitais e dos centros de saúde, uma desigualdade que considera injustificada.

“As pessoas queixam-se de que não existem incentivos uniformizados entre as diferentes partes das ULS, particularmente entre os hospitais e os centros de saúde. Eu acho que se queixam com razão”, afirmou.

Com este barómetro, a APAH pretende “medir o pulso” aos resultados da reforma que levou à criação das ULS e perceber de que forma está a ser concretizada no terreno, explicou ainda Xavier Barreto.

A associação espera que a discussão dos resultados permita identificar dificuldades e leve o Governo a implementar medidas que contribuam para melhorar a integração dos cuidados de saúde.

 

LUSA/SO 

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