“Ingestão alimentar de fibras e depressão na mulher na peri e na pós-menopausa: Existe uma relação?”
Comentário à conclusões do estudo “Inverse association between dietary fiber intake and depression in premenopausal women: a nationwide population-based survey”.

A depressão é uma entidade clínica muito prevalente no sexo feminino (duas vezes > em mulheres vs. homens) e vários estudos têm revelado um aumento da incidência de sintomas depressivos na perimenopausa (45 a 68%), fase da vida da mulher que está associada a amplas flutuações das hormonas sexuais, estrogénios e progesterona.
Na menopausa, a depressão associa-se habitualmente à característica sintomatologia vasomotora, afrontamentos e suores noturnos, que podem causar insónia e outras perturbações do sono. A maioria das mulheres com depressão na peri e pós-menopausa relata episódios prévios de humor depressivo. Importa ainda não esquecer o contexto psicossocial e familiar desta fase da vida da mulher que, sem dúvida, pode favorecer estes estados depressivos – é bem conhecida a síndrome do “ninho vazio”.
Os antidepressivos são o tratamento farmacológico padrão desta situação clínica e tem sido estudada a sua resposta em várias fases da vida da mulher, considerando a possível influência do status menopausa. Os resultados destes estudos têm sido contraditórios, alguns deles encontraram uma diminuição da eficácia dos inibidores da recaptação da serotonina após a menopausa, porém, nem sempre esta redução de efeito foi encontrada. A escolha de um antidepressivo na mulher na perimenopausa deve ter em conta a evidência clínica e a resposta anterior a estes fármacos por parte da mulher. Não devem ser esquecidos os potenciais efeitos adversos destes fármacos (disfunção sexual e ganho ponderal) e a segurança (interações medicamentosas), até pela associação de outras doenças nesta fase da vida.
O uso concomitante de estrogénios, em casos de depressão e uso de terapêutica com antidepressivos em mulheres mais velhas, após a menopausa, foi analisado em vários estudos, alguns dos quais verificaram um aumento da resposta a estes fármacos no grupo com estrogenioterapia associada.
O estradiol por si só tem demonstrado eficácia na resolução de sintomas depressivos moderados em mulheres na perimenopausa, na presença ou mesmo na ausência de sintomas vasomotores. Pelo contrário, não lhe foi reconhecida eficácia em mulheres na pós-menopausa. A depressão não é, pois, uma indicação para a terapêutica hormonal da menopausa e estes tratamentos não têm aprovação específica para esta indicação.
Por outro lado, não existe evidência suficiente para recomendar qualquer tratamento alternativo para a depressão na perimenopausa. Isto é verdade para fitoterapia ou suplementos alimentares. Contudo, atendendo aos benefícios gerais para a saúde é desejável recomendar tanto o exercício físico como uma alimentação saudável, em que se incluam as fibras, na mulher na peri e pós-menopausa com depressão. Estas atitudes não dispensam o recurso às terapêuticas eficazes (antidepressivos), nos casos em que para tal exista indicação e, que obviamente, deverão ser devidamente prescritas e controladas pelos profissionais das especialidades médicas competentes para o efeito.
Apesar da falta de evidência, muitas mulheres pós-menopausa continuam a utilizar tratamentos complementares e alternativos, acreditando que se tratam de opções mais “naturais” e mais “seguras”. Contudo, há que alertar para casos de hepatoxicidade e para interações medicamentosas, por exemplo com antiagregantes e com anticoagulantes. Há ainda produtos que podem estar contaminados por tóxicos não descritos na sua composição (hormonas, metais pesados, entre outros) e outros que não contêm o que efetivamente se encontra descrito no rótulo.
O ramo observacional do estudo Women’s Health Initiative (WHI) analisou a relação entre componentes alimentares e depressão na mulher após a menopausa. Foi encontrada uma associação positiva entre o índice glicémico da dieta e a carga glicémica e outros carbohidratos (glucose, sacarose, lactose, frutose e amido) e depressão na mulher após a menopausa. Pelo contrário, o maior consumo de fibras, frutos (não na forma de sumos) e vegetais estava significativamente associado a baixas probabilidade de depressão incidental.
O estudo recentemente publicado (dezembro 2020) na revista Menopause, órgão da Sociedade Norte Americana de Menopausa (NAMS), sobre a relação entre o consumo de fibras na dieta e a depressão, foi realizado na Coreia, com recurso a um questionário alimentar aplicado, retrospetivamente, a 5807 mulheres. Estamos perante um estudo realizado num país com hábitos alimentares muito diferentes dos europeus que se refletirá certamente no microbiota intestinal. A conclusão do estudo é de que a ingestão de fibras na dieta está inversamente relacionada com a depressão em mulheres na pós-menopausa, mas não na pré-menopausa.
Como acima referimos este não é um estudo pioneiro sobre esta matéria.
Na verdade, dada a dimensão do problema de saúde pública que é a depressão e, prevendo-se que em 2030, se torne uma das principais causas de incapacidade e de encargos em saúde a nível mundial, tornou-se imperioso investigar os fatores de risco modificáveis e as medidas preventivas para esta doença.
Nos últimos anos registou-se um foco de interesse no estudo da relação entre dieta e depressão. Foi descoberto que o eixo cérebro-intestino, comunicação bidirecional entre o cérebro e o microbiota intestinal, desempenha um papel na regulação da função cerebral, através de ligações via neural, imune e endócrina. Os probióticos do microbiota intestinal podem interferir nos níveis de citoquinas que, por sua vez, podem afetar a função cerebral. Para além disso, o vagus e o triptofano, estão relacionados com a retransmissão do efeito do microbiota intestinal ao cérebro. Inversamente, o cortisol, regulado pelo eixo hipotálamo-pituitária-suprarenal, pode influenciar células imunes, afetar a função barreira e permeabilidade e alterar o perfil do microbiota intestinal. A dieta, especialmente a ingestão de fibras provenientes dos vegetais, frutos e outras plantas pode alterar o microbiota intestinal. Há já alguns estudos publicados sobre este tema, apesar dos resultados nem sempre se mostrarem concordantes. Por exemplo, em estudos de populações chinesa e japonesa, verificou-se uma associação inversa entre depressão e ingestão de fibras em pessoas com mais de 65 anos de idade.
Na mulher, o período da perimenopausa tem as particularidades que anteriormente foram descritas daí que ainda que seja mais difícil aferir o papel de um único fator, de forma independente, num contexto de múltiplos fatores predisponentes.
A importância do assunto levou a que os investigadores do Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN) decidissem também dar uma atenção especial à associação entre a ingestão diária de fibras e os sintomas depressivos na mulher de meia idade. Neste estudo, foram incluídas 3054 mulheres com idades compreendidas entre 42-52 anos e estudada a associação entre a ingestão de fibras e os sintomas depressivos. Tal como no estudo agora divulgado, os autores encontraram uma relação inversa, estatisticamente significativa, entre consumo de fibras e depressão, mesmo depois de ajustar possíveis fatores confundidores. Também neste estudo esta associação não se revelou estatisticamente significativa nas mulheres mais velhas, em perimenopausa.
As fibras não são absorvidas nem hidrolisadas no intestino devido à sua resistência às enzimas digestivas endógenas, porém, as fibras podem alterar o ambiente intestinal fornecendo alimento e promovendo o crescimento da flora intestinal. Baixos níveis de fibras podem resultar em mau funcionamento intestinal, desenvolvimento de doenças inflamatórios crónicas, obesidade, doenças autoimunes, alergias, cancro colorretal e outras doenças intestinais. Daqui se infere doenças podem ser prevenidas pela ingestão de fibras.
Na mulher depois da menopausa existe um declínio dos níveis de estrogénios. Com as alterações endócrinas, uma variedade de modificações fisiológicas, incluindo no microbiota intestinal, podem surgir.
O recetor de estrogénios B tem expressão no epitélio do cólon e experiências em animais demonstraram alterações ao microbiota intestinal quando aqueles recetores foram eliminados. Os estrogénios podem por outro lado funcionar também como substrato para o microbiota intestinal. Sabe-se que alguns dos microaorganismos aí presentes podem converter formas inativas de estrogénios em formas ativas. Este mecanismo tem primordial importância no metabolismo dos fitoestrogénios.
É sempre difícil estabelecer relações causais neste modelo de estudos. É possível que a própria depressão leve a uma redução da ingestão de alimentos causando diminuição da ingestão de fibras. A fiabilidade da quantificação da ingestão de fibra em inquéritos alimentares retrospetivo é também uma limitação. A avaliação da ingestão de fibras está dependente da capacidade da participante para recordar e registar, o que pode induzir um viés. Isto pode ainda ser agravado pelo facto de a capacidade de memória estar afetada pelo estado depressivo e até mesmo pelas terapêuticas utilizadas no seu tratamento. Finalmente, e como já se disse, há muitos fatores confundidores que podem gerar interferir nas análises efetuadas pelo que as conclusões terão que ser interpretadas com cuidado.
São pois necessários estudos prospetivos para consolidar estes achados e, igualmente, para conhecer melhor o mecanismo de ação dos estrogénios neste âmbito.
Acima de tudo há que realçar o papel da alimentação, que é uma necessidade primordial para o bem-estar e sobrevivência humana. A sua importância é vital para manter a saúde em todas as suas componentes. A ingestão de fibras é parte integrante de uma dieta saudável e independentemente do papel que possa vir a ser confirmado (ou não) na prevenção da depressão é inquestionável a sua ação no controlo do peso, na redução do risco de diabetes, na doença cardiovascular e na redução do risco de alguns cancros.
Com o conhecimento do microbioma intestinal e do seu papel na saúde e na doença, a expressão “somos o que comemos” nunca foi tão verdadeira!












