HTA e SAOS. “Uma associação demasiado perigosa”

Jonathan dos Santos é especialista em Medicina Geral e Familiar no Hospital Lusíadas Paços de Ferreira e alerta para o problema grave da coexistência de HTA e SAOS. Havendo dificuldades em ter acesso à polissonografia, aconselha algumas medidas que se podem adotar nos cuidados primários e que podem fazer a diferença.

HTA e SAOS. “Uma associação demasiado perigosa”

A coexistência de hipertensão (HTA) e síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS) é “uma associação demasiado perigosa”, refere Jonathan dos Santos. Como explica o médico de família: “Se a SAOS não for diagnosticada e tratada vai dificultar o controlo da pressão arterial e a HTA não controlada aumenta o risco de eventos cardiovasculares, como acidente vascular cerebral (AVC) ou enfarte agudo do miocárdio (EAM).”

Acresce, ainda, a obesidade que é mais uma doença grave que pode juntar-se à HTA e a SAOS. “Todo este cocktail contribui para vários problemas de saúde e para a diminuição da qualidade de vida.”

O especialista apela aos colegas de Medicina Geral e Familiar a estarem atentos a possíveis sintomas de SAOS, já que é uma patologia “subdiagnosticada e subtratada”. E tal acontece não somente por falta de informação da população ou por se considerar que o ato de ressonar é normal. O problema está também associado às dificuldades de acesso à polissonografia no Serviço Nacional de Saúde (SNS). “O exame não é comparticipado nos cuidados de saúde primários (CSP), o que obriga a reencaminhamento para consulta de Pneumologia. Isto pode levar a uma espera de 2 e 3 anos”, queixa-se.

Continuando: “Após a consulta hospitalar, se o pneumologista considerar que existem critérios para pedir a polissonografia, o utente ainda terá de esperar mais tempo, por causa das listas de espera. Em suma, o diagnóstico, nalgumas regiões, poderá surgir apenas ao fim de 3 ou 5 anos.”

Demasiado tempo para quem tem paragens respiratórias noturnas, que acabam por ter impacto no funcionamento do coração e, por conseguinte, na pressão arterial. Se coexistir obesidade, a gravidade é ainda maior.

Escalas e MAPA para contornar falta de comparticipação de polissonografia

 Face ao risco da coexistência de HTA e SAOS, Jonathan dos Santos considera que, apesar das dificuldades em ter acesso à polissonografia, é essencial tomar algumas medidas nos CSP, que poderão, de alguma forma, minimizar o impacto de ambas as patologias. É o caso de escalas e questionários, como a escala de Epworth e o questionário STOP-BANG, que, com questões simples, se consegue perceber se existe possibilidade de o doente ter SAOS e, até, estratificar o risco.

Outra estratégia é a prescrição do Monitorização Ambulatória da Pressão Arterial (MAPA), que já tem comparticipação nos CSP. “As paragens respiratórias de doentes com SAOS acontecem durante o sono profundo e, através do MAPA, é possível perceber se, mesmo tomando corretamente a medicação, a PA está mais elevada nessas fases. Se sim, aumenta a probabilidade de um diagnóstico de SAOS”, especifica o médico.

Além disso, alerta para a frequência cardíaca em repouso acima dos 80 bpm, algo habitual em doentes com SAOS, mesmo durante o dia e que reflete a hiperativação do sistema nervoso simpático. “É fundamental que, entre os antihipertensores, se inclua um betabloqueador seletivo, a fim de minimizar o impacto cardiovascular da síndrome.”

Jonathan dos Santos lembra, ainda, que além das medidas farmacológicas, é preciso apostar sempre nas não farmacológicas como atividade e exercício físico, dieta adequada e medidas de higiene do sono.

Maria João Garcia

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