6 Out, 2021

Hipertensão arterial: “muitos doentes deixaram de tomar a sua medicação”

No período pré-pandemia, “Portugal estava num ótimo caminho, no que se refere à consciencialização das pessoas para a hipertensão”, informa a presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão.

Segundo a presidente-eleita da Sociedade Portuguesa de Hipertensão, Rosa de Pinho, muitos são os portugueses que sofrem de hipertensão (HTA), mas que desconhecem tal facto. Em termos de controlo dos valores da pressão arterial, o panorama nacional pode ter-se agravado com a pandemia, tendo em conta o cancelamento de consultas e dificuldades no acesso à medição desde o início da pandemia. A especialista em Medicina Geral e Familiar deixa ainda alguns conselhos a quem sofre da doença.

 

O estudo PHYSA, feito em 2012, permitiu apurar que cerca de um terço dos portugueses não sabia que era hipertenso. Segundo Rosa de Pinho os níveis de controlo da pressão arterial dos portugueses estavam também ainda muito longe do desejável, lamenta Rosa de Pinho.

Na perspetiva desta médica de família, “talvez tenhamos conseguido melhorar um pouco os níveis de controlo da população nestes últimos anos, havendo uma porção de hipertensos que já estava mais controlada antes do início da pandemia. Tememos, porém, que a pandemia tenha tido um grande impacto negativo no controlo da pressão arterial”.

No início de 2020, adianta a especialista, “Portugal estava num ótimo caminho, no que se refere à consciencialização das pessoas para a HTA. Os números eram positivos, no sentido em que tínhamos muito maiores níveis de controlo da pressão arterial”. A principal causa de morte a nível nacional continuou a ser o acidente vascular cerebral (AVC) – sendo a HTA o principal fator de risco – mas, ainda assim, “já estávamos a conseguir colocar o AVC em segundo lugar, com o enfarte agudo do miocárdio (EAM) a aproximar-se da principal causa de morte em Portugal”, recorda Rosa Pinto, salientando que “nestes últimos meses, nos cuidados de saúde primários, já começam a surgir dados que apontam para um maior nível de controlo deficiente da pressão arterial, no âmbito dos”. Também a nível hospitalar, “já começamos a observar um maior número de pessoas com eventos cardiovasculares, que podem ser consequência de níveis deficientes de controlo da pressão arterial, mas penso que só nos próximos tempos é que vamos ter dados mais concretos” do impacto da pandemia no controlo da HTA e de outros fatores de risco cardiovascular (RCV).

O impacto da pandemia fez- se ainda sentir, de forma significativa, na adesão à terapêutica. “Acredito que a pandemia teve um impacto negativo nesse sentido, até porque a grande maioria das consultas foi cancelada. Na zona Norte, onde me encontro, notámos que muitas pessoas – ou por receio de ir ao centro de saúde pedir a sua receita, ou por terem dificuldades na deslocação – deixaram de tomar a sua medicação”, reconhece a médica, sublinhando que “só passado algum tempo, com a retoma das consultas e das prescrições, é que nos estamos a aperceber destas falhas”. Além disso, “com a crise económica, as pessoas começaram não só a ter mais dificuldade em adquirir os seus medicamentos, mas também a alimentarem-se de uma forma menos saudável”.

No plano da terapêutica, são inúmeros os fatores que contribuem para uma fraca adesão, desde logo o receio de efeitos adversos, sentido pela maioria dos doentes. “Os doentes têm medo que o medicamento lhes faça mais mal do que bem”, diz Rosa de Pinho, sugerindo assim que, “na primeira vez que medicamos o doente, devemos ‘investir de tempo’ a explicar as vantagens daquele fármaco que lhe estamos a dar”. O médico tem que deixar bem claro junto do seu doente de que “ao baixar os níveis de pressão arterial, aquele medicamento vai diminuir o risco dessa pessoa sofrer um AVC ou de desenvolver complicações renais e/ou cardíacas”.

 

DT/CBM

 

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